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A mostrar mensagens de março, 2021

Vermelho!

- Pai? - Oh filha entra... Que boa surpresa, querida. O pai levantou-se do seu velho cadeirão onde se sentava geralmente para ler e aproximou-se da filha, que acabara de entrar com a sua velha chave, para a oscular. Porém ao olhar para a jovem percebe uma mancha invulgar e demasiado rosada na face e que lhe apanhava o olho esquerdo. - Tens a cara vermelha... Que te aconteceu para ficares assim? A rapariga levou a palma da mão à face como que a tentar esconder o que o pai já vira. - Não sei papá! Acordei assim esta manhã... Algum bicho que me mordeu... - Hummm! Essa hiperemia não me parece natural. O pai e as suas conhecidas expressões médicas, na maioria imperceptíveis. - Esta quê? - Hiperemia.... vermelhidão...  - esclareceu e teimou - isso não tem nada bom aspecto. - Pai deixa ... não me dói, deve ter sido um bicho qualquer. Sabes como sou alérgica. O pai pegou no livro que estava a ler e devagar colocou-o em cima da secretária. Depois saiu da sala, pegou no casaco pendurado no benga...

Salvação!

Num mundo repleto de certezas Há brilhos dúbios. Numa vida plena de apontamentos, Há laivos de tristeza.   Os dias que desabrocham a cada manhã Têm o cheiro da maresia. As noites que poisam na minha janela, Trazem o aroma da esperança.   Os caminhos que vou em paz trilhando, Outrora rios, estão secos. Porque o doce marulhar da água límpida, Tornou-se vento suão.   Estendes-me a mão em pleno socorro, Mas nem sei se mereço. Não desejo que agora me salvem assim, Só quero de mim salvar.

Verde claro!

Orlando saiu de casa muito cedo e logo ajustou ainda mais o grosso casaco ao corpo, tal o frio. O sol por detrás do Monte Luz ainda não surgira, mas a madrugada já dava sinal de acordar. O céu limpo ainda apresentava uns tons de cinzento, ténues reflexos da noite que ainda não terminara por completo. Consigo o fiel Bravo, um cão arraçado de Serra de Estrela que ele encontrara perdido e abandonado. Durante dias deu-lhe de comer e beber, tratou-lhe das feridas, baptizando-o pela forma como o animal sempre aceitou os cuidados médicos que lhe ministrava, sem um queixume. - És um bravo! – dissera-lhe após mais um tratamento supostamente doloroso. Da expressão para o nome foi uma luz... Desceu o empedrado húmido, virou à esquerda e entrou num caminho de terra batida onde ao fundo um curral se erguia. Orlando abriu a cancela deixando que os animais saíssem para o caminho. Depois seguiu até ao Terreiro Grande, com as ovelhas na sua frente e sempre controladas pelo canito e onde as aguardava a ...

Dia Mundial da Poesia!

Como não amar a natureza, como? Nas flores primaveris, no Sol brando. Como não escrever poesia, como? Se há viva alegria para lá do pranto.   Como não querer amar, como? A madrugada fria, o vento cortante. Como não desejar sonhar, como? Com a felicidade, o idílico amante.   Como não deixar a paixão, como? Viver o risco sedutor da desilusão. Como não ousar assumir, como? Que a vida tem alma e coração.

Desafio da abelha... versão Primavera!

Mote: era uma vez uma mulher que quando acordou do coma só miava.   A porta abriu-se deixando que a equipa médica entrasse. Ao fundo o Director clínico. Os súbditos de Hipócrates espalharam-se pelas cadeiras para finalmente iniciarem a reunião. - Então que caso clínico é esse que me querem mostrar? Um dos médicos levantou-se da cadeira: - Caro colega temos um caso bizarro e estranho com uma doente que esteve em coma durante algum tempo e quando acordou não falava… - Perfeitamente natural… Queria o quê… que fizesse um discurso à nação, colega? - Pois ela não fala… mas… - Mas o quê Doutor? Desembuche… - Nem sei como lhe dizer… caro Director… Do fundo da sala uma jovem médica ergueu-se da cadeira e declarou: - A doente mia… Um silêncio. O Director ergueu-se devagar, saiu da cadeira e começou a passar a mão pela face. Depois: - Ele está aí! Outra vez! Como pode ser possível? Ninguém falava. O silêncio era quase tumular. Por fim esclareceu: - Ao invés do que pensam este não é caso único. -...

Amarelo

Em velocidade quase moderada o carro negociava as curvas com suavidade, para no momento seguinte: - Pela Auto-estrada ou pela Nacional? – perguntou ele quando reparou na placa de saída. - Pela estrada Nacional… Daqui não dá para ver as mimosas… Como não temos pressa podemos ir por dentro… - Tudo bem! – respondeu o condutor. Quando entraram na encosta cortada pela estrada quase estreita, ela exclamou perante a imensidão de mimosas de amarelo floridas. - Ai que coisa mais linda… que beleza… Não gostas? Ele evitou dizer alguma coisa que a pudesse desiludir. Ela, todavia, insistiu: - Tu não gostas desta paisagem? Pronto tinha de ser… - Eh pá, sinceramente o amarelo não é a minha cor preferida… - Ohhhhh. Como podes tu dizer isso? Após um breve silencio, ela continuou: - Então também não gostas do amarelo do Sol quando torras horas na praia? E que dizer dos girassóis que plantaste no quintal? - Ei, ei, ei… não é a mesma coisa… - Pois não… isso sei eu. Então os prados repletos de tremocilha… ...

Poema

Há uma linha, Nessa face de neve, Que me faz doer O coração, a alma.   Socorro-te Num abraço sereno Num beijo surdo A palavra terna.   Estendes a mão, Procuras o Mundo, Eu dou-te alegria Tu dás-te a mim.   Danças num sorriso E num grito feliz. Sei agora Que és musa única.

Breve poema

Gosto de ser assim, simples, incompleto. Gosto de amar, Com ardor, Ficar preso. Gosto de passear Entre prados, Livres. Gosto de ti e de todos, incoerentes, abruptos.   Sou só um homem, Não um homem só!

Rosa

- ROOOOOOSA, Ó ROOOOOOSA – alguém gritava. Ninguém respondeu. Naquele preciso instante apenas se ouviam os pintassilgos que nas árvores chilreavam com primaveril alegria, incólumes ao chamamento. Entretanto surgiu vindo do fundo do quintal uma esbelta jovem carregando debaixo do braço um velho e remendado alguidar de barro, vazio. Aproximou-se em passo lento da casa e respondeu num tom áspero: - Chamou-me mãe? A antecessora aguardou no pequeno alpendre, no cimo de umas escadas de pedra que a filha se aproximasse. Gastara a força que ainda lhe restava nos gritos e mal conseguia falar. Juntas, a mãe perguntou em tom profundamente sumido: - Sabes onde o teu pai deixou o garrafão? A filha passou à frente da mãe em silêncio, virou-lhe as costas e entrou na casa pouco asseada arrastando atrás de si a fraca figura para finalmente responder: - Tem-no vocês no bucho… beberam-no todo ontem… Cambada de bêbados! Não têm vergonha... Rosa Maria era a filha de 15 anos de um casal que via no álcool a ...

Quatro quadras coloridas

Corre por aí à boca cheia Outro desafio de escrita. Está pouco mais de meia A montra de escrita catita.   O mote é sempre o mesmo Com uma caixa lápis de cor São textos bons e a esmo Falam de tudo, até de amor.   Há quem lute arduamente Para escrever com fervor Sou eu, sou eu somente Pois cada lápis é um terror.   São dezanove os artistas Que dão vida ao desafio. Faltam cinco ametistas Para nos encher de brio.   Dedico estas quadras a:  Fátima ,  Concha,   A 3ª Face ,  Maria Araújo , Peixe Frito ,  Isabel ,  Luísa De Sousa ,  Maria,   Ana D .,  Célia ,  Charneca Em Flor ,  Miss Lollipop , Ana Mestre ,  Ana de Deus ,  Cristina Aveiro ,  bii yue,   João-Afonso Machado,   Marquesa de Marvila.

Poema breve

Há no teu voar sereno e ondulante Uma liberdade que eu não conheço. Há no teu grito sonoro e profundo, Uma voz que não sei traduzir.   Colada ao anil tão claro e infinito, Voas buscando um novel caminho. És um momento de liberdade. Partir por fim, jamais regressar.   Escondes-te nessa almofada, que pinta o céu de branco. Sobes e desces ao vento... Esse nosso amigo silencioso.   Sonho-me também assim livre, repleto de mundo ao meu redor. Sonho-me também assim perto, desse azul céu límpido e perene.   Somos homem e ave a ansiar, que a noite escura nunca chegue. Ambos queremos amar o infinito, E achar a vida num desejo!

Na praia

Deitados de costas na areia numa praia deserta naquele brando inverno, a mão direita de um entrelaçada na mão esquerda do outro, pareciam ambos dormitar. Uma brisa vinda do mar tentava arrefecer o ar meio tépido da tarde. No entanto o Sol continuava a emanar os seus braços fortes e por isso o casal sentia-se, naquele instante, muito bem. Aconchegado, como se um manto os tapasse! Ela de olhos fechados perguntou como quem não quer a coisa: - Onde vamos jantar hoje? Ele meio estremunhado, já que estava quase a dormir, devolveu: - Ora essa é uma boa pergunta… Diz tu! - Oh, eu não conheço restaurantes como tu… - Mas podias ter alguma ideia. - Não tenho – respondeu ela – pronto, deixa, quando formos embora pensaremos nisso. Voltaram ao silêncio. Todavia por pouco tempo, já que ela voltou a falar: - Sabes… há uma coisa que eu ainda não sei de ti… - E qual é? - Gostaria de saber qual a tua cor preferida. - Isso é fácil. É o azul, Céu!

Azul claro!

Quantas enciclopédias de ler haverei, Até descobrir um belo amor simples? Quantas palavras terei de rabiscar, Para que descubras quanto te amo?   Quantos trilhos me obrigo a percorrer Até encontrar a sumíssima felicidade? Quantas lágrimas deverei eu chorar Para lavar a minha dor e alma sofrida?   Quanto Sol acharei no céu azul claro, Até encontrar um telhado verdadeiro? Em quantos frios e relentos dormirei Até encontrar uma doce mão amiga?   Quantos dias faltarão para que eu parta, Naquela viagem tão única sem retorno? Enfim quanto do meu imo quererá saber Se o fim anunciado é o fim mais perfeito?   Texto escrito no âmbito do desafio da "caixa de lápis de cor" da   Fátima ,. Entram também a  Concha,  a  A 3ª Face , a  Maria Araújo , a  Peixe Frito , a  Imsilva , a  Luísa De Sousa , a  Maria,  a  Ana D ., a  Célia , a  Charneca Em Flor ,  a  Gorduchita , a  Miss Lollipop , a  Ana Mestre  a  Ana de Deus , a  Cristina Aveiro , a  bii yue,  e o  João-Afonso Machado. Entretanto a ...