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O bezerro!

Assim que se aproximaram as férias, Carlitos chegou-se junto de pai e mãe e comunicou: - Eu nas férias quero ir para ao pé dos avós na aldeia. Os pais perante esta vontade olharam-se com espanto e alguma incerteza na resposta a dar, mas foi a mãe que devolveu: - Pedes bem, mas não sei se temos tempo para lá ir… - Vou de camioneta… - Com oito anos? – e esboçando um sorriso, continuou – ainda ias parar ao outro lado do Mundo. O rapaz não se deixou intimidar pelas palavras da mãe e respondeu: - Isso julgas tu… Já sei bem o caminho para a avó e o avô. A mãe não lhe deu mais troco, porém todos os dias, Carlos insistia no desejo de ir para o campo. De tal forma e chegado ao último dia de escola, o menino assim que chegou a casa começou os preparativos da partida. Os pais olhavam de longe para aquele menino que sentia a terra com paixão. E não era só a terra, mas todos os animais e outros bichos… Decididamente o jovem estava de ideia fixa. Foi o pai que de forma serena suger...

A versão do Tomé

Uma coisa assumo desde já: detesto gente apressada. Eu sei que os tempos que ora se vivem não são somente vividos, são destruídos pela pressa e pelo desencanto. Mas eu, digam o que disserem, prefiro viver nesta calma, serenidade e não ando nunca a correr. Bom mas isto sou eu que ao fim de muito tempo já vivido tenho direito a dizer o que me apetece. Os últimos tempos tenho vivido numa quinta simpática, cheia de inimigos como são as galinhas, patos, perús e demais malta com penas, mas também recheada de personalidades bem curiosas. Ainda estou para saber como aterrei neste lugarejo com três humanos que aqui fazem a sua vida. Comigo curiosamente nunca se meteram, talvez por ser grande e eles terem medo de mim. Houve mesmo um, mais pequeno, que certa vez tentou tirar-me do meu caminho. Estava a ver que tinha de me encolher na casa, o que nem sempre é bom pois é muito pequena, mas enfim alguém acabou por me salvar desse facínora. Nessa manhã estava uma humidade bem saborosa e d...

O caracol

O menino Tomás nunca teve qualquer memória do ínfimo tempo que viveu na cidade com os pais. Aos dois anos o pai Zório e a mãe Eleutéria deixaram a cidade para se radicarem numa aldeia a três centenas de quilómetros da capital, portanto longe, muito longe do bulício da enorme urbe. O pai do rapaz, engenheiro de profissão, herdara uma enorme quinta oriunda, primeiro dos avós que durante dezenas de anos foram acrescentando pedaços de terra contíguos, fazendo do que fora um naco bom de chão agrícola, uma enorme fazenda com dezenas de hectares e mais tarde do pai que cuidara da Quinta da Ribeira Velha com afinco, trabalho e muito esforço. Eleutéria licenciara-se em Agronomia e detestava olimpicamente o seu trabalho de técnica na área, todavia sempre sentada a uma secretária. Preferia o trabalho no terreno, lidar com as culturas no local próprio, ajudar os agricultores. A decisão da vida no campo, ainda por cima já com uma criança, fora de ambos mesmo que Zório de duas em duas semanas ...

A alguém distante

À Diana, Tanto para te dizer… Só que tu enfim Nem sequer me ouves. Nem sei que fazer, Eu triste assim E tu sem entraves.   Quero entrar aí Nesse teu coração. E ver-te sorrir. Apenas e só. Andarei sim por aí Com tal emoção, A desfazer este nó.   Quem sabe um dia Me procures. E não me vejas. Eis a singela poesia, Quiçá nela encontres, As palavras que desejas.  

A versão de Maria

O tempo passou célere. De tal forma que Maria se tornara, naquele topo do Mundo que não era mais que um jardim na cidade, a decana dos periquitos. Senhora de um feitio assaz impetuoso era, mesmo assim, muito respeitada. Especialmente pelas aves mais jovens. Todas as tardes quando o Sol principiava a querer esconder-se por detrás dos prédios devolutos da velha cidade, os jovens periquitos aproximavam-se de Maria no intuito de escutarem dela uma nova estória, um novo relato de aventuras, um rol de desafios sempre ultrapassados. Quem passasse no chão repleto de folhas verdes e secas e olhasse para o cimo dos plátanos, cedros, amoreiras e outras árvores era certo que veria uma enorme confusão de aves a voar acompanhadas do normal ruído. Cada periquito lutava por um lugar mais perto da oradora que naquele seu jeito de fêmea autoritária e disciplinadora aguardava que todos poisassem e se aquietassem de forma a poder relatar mais uns casos. A excitação da passarada mais pequena era en...

Poema de inverno!

Chove na longa noite. Todavia neste inverno Há quem nunca pernoite Nalgum leito fraterno.   Chove, isso que importa Escreveu certo poeta, Tinha abrigo numa porta Um sonho de profeta.   Chove em mim e no mar Uma tempestade de dor. Aquele desejo de remar A favor d’um grande amor.   Fecho por fim a janela À bela chuva lá fora. Nada há na viela, Que importa? Vou embora.

A periquita

Ana nasceu deficiente, quase profunda. Cresceu e viveu entre enfermarias de hospital, salas de cirurgia e a cama no seu quarto. Sempre apoiada e amada pelos pais e os dois irmãos. Entre todos havia uma cadência de cuidar, lavar, dar de comer ou simplesmente ficar ali lado a lado com uma criança que aos dezasseis anos nunca soubera sorrir. Naquela manhã de primavera branda com o Sol a aquecer Ana, após a costumada azáfama diária com a sua higiene e alimentação, foi levada para a varanda. Do lado de fora havia vida, gente, ruídos citadinos, crianças a gritar numa escola contígua ao prédio, passarada em alegre esvoaçar nos plátanos no jardim defronte, um mundo estranho para a menina. O olhar de Ana raramente se mexia… Um ar vazio, longínquo, nem triste nem alegre, invariável. Sempre fora assim. Nenhum médico conseguira descobrir se Ana seria capaz de ouvir, mas perceberam que talvez conseguisse ver, mas tudo sem muitas certezas. No velho jardim diante do prédio as árvores haviam...