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A mostrar mensagens de agosto, 2020

O Pastor #9

(... Continuação daqui ) Já noite a mãe surgiu no barracão onde o jovem pastor se via no meio do rebando. - Filho, podes aqui chegar? O teu pai não me contou nada sobre a ida lá à Quinta... Puxando por uma ovelha grande, o pastor aproximou-se da mãe que mal se via na escuridão e comunicou-lhe: - Estou a tratar do negócio... - Não me digas que sempre vais entregar o rebanho todo? - Consegui ficar com o rebanho, mas tenho de devolver o que falta do dinheiro em gado... - E quantas ovelhas serão? - Cinco... A ovelha deu um esticão, mas o pastor não a largou. - Estou a marcar as cinco que devo entregar amanhã. - Ai Graças a Deus - e colocou as mãos em oração olhando o céu negro - E o teu pai, o que disse? - Nada mãe, nada! Havia algo no coração que necessitava dizer à mãe. Mas temia o resultado ou reacção da antecessora. Veio para a rua sempre a puxar pela ovelha e aproveitando a Lua deu-lhe uma pincelada com uma cor no pescoço. Por fim largou-a e esta regressou ao meio do rebanho. - Temos ...

O Pastor #8

(... Continuação daqui ) A madrugada surgia de mansinho ao longe, quando o jovem pastor e o pai chegaram à orla da Quinta das Figueiras. Todavia ainda tinham um par de quilómetros até chegarem à casa. O sol elevava-se já por detrás da colina quando avistaram o enorme casario. Para o rapaz era a primeira vez que chegava ali, mas o pai conhecia bem aquele lugar pois trabalhara ali muito. Noutros tempos, noutras idades… Sentaram-se ambos na parede defronte da escada e esperaram em silêncio. Um gato fugia encostado à parede enquanto os pardais saltitavam no terreiro defronte. Quando o velho capataz surgiu vindo da sua velha enxerga e encontrou dos dois homens admirou-se. Aproximou-se e cumprimentou: - Olha quem cá está… Viva… bons olhos te vejam… - Obrigado – respondeu o pai num tom triste. - Não digam que vieram trazer o gado? Olharam-se mutuamente e foi o filho a responder: - Vimos discutir uns assuntos com a sua patroa por causa do rebanho. - Aquela miúda é o diabo… Safa… Sai ao pai que...

O Pastor #7

(... Continuação daqui ) Aproximou-se da aldeia em passo lento. Havia mais de uma semana que havia partido por não querer ver o pai naquele definhamento etílico. Agora não queria estar na estrada para não ser sempre apanhado pela rapariga. Uma dúvida triste e amargurada que lhe enublava os dias. Meteu o gado no curral, fechou-o e encaminhou-se para casa. Sapatos saltitava a seu lado numa costumada brincadeira. Ao aproximar-se o jovem pastor deparou com a mãe sentada no degrau da porta e parecia chorar. Apressou o passo e chegado a casa olhou a mãe lavada em lágrimas. - O teu pai… o teu pai… Pensou o pior. Entrou de rompante, mas não viu ninguém. Percorreu a casa pequena e não viu o antecessor. Finalmente aproximou-se da mãe que continuava: - O teu pai… o teu pai… - O meu pai o quê? Respirou fundo, fungou, assoou-se ao avental e declarou: - O teu pai vendeu o rebanho… - Vendeu o quê? - O rebanho… Todinho… - Mas como se só cheguei agora com ele. Não pode ser… - Para ir para a taberna gas...

O Pastor #6

(... Continuação daqui ) Aquele Inverno parecia querer entrar pela Primavera tais eram os dias de chuva permanente e frio glaciar. As noites no largo eram assim triste e obrigatoriamente curtas. Para uns pela ausência daquelas estórias que o jovem pastor todos os serões inventava, para o autor pois era sinal de regressar a casa onde o pai permanecia cada vez mais tempo sem falar com a família, mantendo, contudo, um diálogo surdo com o garrafão de vinho e o copo que alternava entre cheio e vazio. Havia semanas que perdera o emprego por causa de uma bravata com o chefe. Agora deambulava pela aldeia e arredores. Uns confessavam que ele só queria vingança, outros que iria por termo à vida, outros ainda olhavam-no de longe e desdenhavam… Quando finalmente surgiu o sol e a erva nasceu com mais vigor, o pastor partiu para mais uma das suas longas e distantes viagens. Com a sua normal juventude esquecera-se por completo da rapariga que tantas vezes o atentara. Todavia quando chegou ao cruzamen...

O Pastor #5

(... Continuação daqui ) Os dias corriam moles e lentos para o Outono. A espaços caía uma água constante, baça e chata. O gado não se preocupava com a pluviosidade e ia rapando terrenos de erva fresca e tenra. Por seu lado o jovem pastor fugia pouco da sua tarefa de guardar as ovelhas e algumas cabras, entre os muros das suas fazendas. A imagem da amazona bonita e persistente acabara por desaparecer e agora a única preocupação do guardador seria os futuros borregos prestes a vir ao mundo. Todas as manhãs percorria o estábulo em busca de uma cria nova e se a achava procurava saber onde estaria a mãe, quase sempre perto. Depois ajeitava o teto da monja da ovelha na boca do filho e este depressa ganhava o jeito. Quando não havia crias abria os portões e deixava que os animais saíssem com calma, mas sempre liderados por Sapatos que as encaminhava para o terreno certo. Era uma vida calma, sem correrias nem apoquentações. Talvez a única preocupação seria inventar a estória para a noite. Mas ...

O Pastor #4

(... Continuação daqui ) Quando à noite, após a ceia fraca e repetida donde se destacava o permanente feijão pequeno regado com um fio de azeite, entrou no largo repleto de homens sentiu-se diferente das noites de outrora. Havia ali algo que não o faziam sentir-se confortável. Todavia… - Ena, já chegaste? Mas eu vi-te ontem… - Sim cheguei ontem. - Nem apareceste… - Estava muito cansado… Preferi ir dormir. - Agora também dormes? -perguntou um outro dando uma sonora gargalhada. Os outros imitaram-no nos risos. - Queres o quê para beber? - Oh nada… eu não bebo… Tu sabes… Depois arranjou um lugar entre dois e sentou-se. Recostou-se e fechou os olhos. Os presentes olhavam-no com espanto até que alguém avançou: - Então não trouxeste nenhuma estória? O pastor sentiu uma certa melancolia a invadi-lo e pensou contar a estória verdadeira em vez de usar a imaginação. Respondeu: - Claro que tenho… E iniciou a relatar os seus últimos acontecimentos. Ainda estava no início quando um dos ouvintes dec...

O Pastor #3

( ... Continuação daqui ) O regresso do pastor à aldeia foi saudado com enorme alegria pela mãe e pelos irmãos mais novos,  que viam no guardador um viajante do mundo, mal imaginando que o jovem apenas se afastava da aldeia algumas léguas. Mas coração de mãe é único e depressa percebeu que o seu infante mais velho viera diferente. Ele que sempre conseguia ver alegria em tudo o que fazia, regressara soturno, tristonho, como se aquela não fosse a sua casa. Após a ceia deitou-se sem fazer a sua costumada visita ao largo onde alguns o aguardavam e às suas novas estórias. No quarto pequeno já dormiam os irmãos, mas o jovem ficou desperto noite fora. Na madrugada seguinte levantou-se muito cedo como era seu hábito, roubou um bolo seco da arca, chamou o seu amigo Sapatos, que dormira na ombreira da porta e foi até ao curral buscar o gado e partindo de seguida para as terras de casa. Atravessou a ribeira que já levava algum caudal após uns dias de água forte e procurou um lameiro perto. Aí che...

O Pastor #2

(...  Continuação daqui ) Sentado no cimo de um grosso penedo, o jovem pastor olhava para a bela paisagem que se abria na sua frente. Um pouco abaixo, na encosta, as ovelhas ratavam a erva rala após umas noites passadas de uma chuva miudinha. No instante seguinte soou um assobio estridente. Gritou: - Vai Sapatos, à esquerda… Não necessitava dizer mais nada. O cão correu em grande velocidade, ladrando para recolocar as cabras na charneca.  Algumas dispersaram, mas o animal com perícia obrigou-as a juntarem-se ao restante rebanho. Depois subiu a encosta e voltou a deitar-se perto do dono, ciente que este o premiaria com algo. O guardador descascava uma maçãs ainda meio verdes e entregou duas ao amigo que comeu com sofreguidão. Mas o jovem não tirava os olhos do horizonte. Matutava. Por fim desceu do penedo e caminhou pela encosta, atravessou o rebanho e finalmente desceu umas escadas de pedra para entrar numa velha mina de água. Aqui pegou no velho cantil e após o ter enchido bebeu. Entr...

O Pastor

Tinha abandonado a aldeia havia alguns dias. Acompanhavam-no um rebanho de ovelhas e cabras. Estas últimas não obstante a natural irreverência mantinham-se no caminho com o restante gado. No bornal carregava um naco valente de broa, um chouriço que surripiara da conserva de azeite da mãe e mais uma mão cheia de queijos, também eles guardados em azeite. Era usual o jovem partir dias seguidos com o gado, nunca se sabia bem para onde. Dias ou semanas depois chegava com o gado gordo e ele magro, porém feliz. Para além das ovelhas, o pastor fazia-se sempre acompanhar por um rafeiro todo branco excluindo as patas pretas. Daí o nome de “Sapatos” que desde muito cedo o canito percebera que era consigo que falavam. Animal esperto sabia tocar as ovelhas para dentro do caminho como nenhum outro. E nem era necessário o dono assobiar… Quando regressava contava estórias fantásticas que ninguém acreditava, mas adoravam escutar. Geralmente faziam-no na praça do pelourinho onde, em noites quentes os al...

A partilha perfeita

Havia umas semanas que o pai havia morrido, mas faltara-lhe a coragem de pegar nas coisas que ficaram do antecessor e dar-lhes destino. Ou dividir entre todos os herdeiros. Mas um dia teria de ser… Não havia volta a dar. Decidiu naquele sábado regressar à casa onde sempre fora feliz, num convívio perfeito entre pais, irmãos, primos, tios, amigos… e tanta, tanta gente. O pai adorava ter a casa sempre cheia de gente. E, ao invés de muitos, foi a partir da morte da esposa que a casa mais se encheu. Dizia: - Quando morrer deixarei de me divertir e de ver esta minha gente. E se sou o que sou a eles o devo… filhos incluídos. Meteu a chave na fechadura, rodou-a e esta destrancou-se. Rodou a maçaneta, abriu a porta, esticou o braço e acendeu a luz. O corredor iluminou-se mostrando algumas teias de aranha que haviam tomado conta do local. Pé ante pé como se tivesse receio avançou e foi abrindo as diversas portas que encontrou e foi outrossim acendendo as luzes. Finalmente entrou na biblioteca o...

Prova de amor!

Com os pés descalços enfiados no manso caudal do ribeiro, ela perguntou-lhe: - Amas-me? Ele gostava dela, mas amá-la? Sabia lá o que isso queria dizer… Todavia: - Claro que sim… Duvidas? – arriscou. - Eu não duvido que te ame – respondeu ela agitando os pés alvos na água, originando que a areia do fundo saísse do seu permanente repouso. - Então? - Duvido é que saibas o que é o amor… Seria que ela lia a sua mente? Ou ele falara em tom alto? A verdade… - Porque dizes isso? - Oh… conheço-te… E sei o que passaste quando eras miúdo… com os teus pais. - Isso não quer dizer nada – desculpou-se. Tirou os pés da água fria, limpou-os à borda do vestido, calçou os sapatos e dando a mão ao namorado, acrescentou: - Quero uma prova de que me amas… - Como assim? – assustou-se - Se me amas fazes tudo por mim, certo? - Sim… sim… Ela não gostou da gaguez dele, parou e enfrentou-o: - Ficaste gago de repente? - Não… Mas eu também te conheço e nem imagino o que me vais pedir para fazer… - Fácil, vai ser mu...

À beira da ribeira!

Sentado à beira desta ribeira Oiço com inesquecível nostalgia Fugindo célere por entre pedras O marulhar da água trigueira   A coberto, pleno de sombra Agitam-se calmamente Infindáveis freixos e amieiros Pardais se aninham de sobra.   Nesta paz assim tão serena, Recupero dias e memórias, De outro tempo tão longe, De uma saudade plena.   Ao redor, onde o sol repousa Estala a palha e o restolho Corre o lagarto, sibila a serpente Canta o grilo, voa a mariposa.   E quando a noite desce, Prenhe de vida invisível, É o momento do silêncio Repousar na minha prece!

Contos tontos - 39

Sentado no peal da porta da sua sala que dava para um pequeno pátio, Germano olhava a paisagem que se desenrolava na frente. Entre pedaços de terra verde de algum milho de regadio, havia muitos nacos amarelos, tisnados por um Estio inclemente. Um bafo de calor pairava mesmo na sombra de uma araucária velha e quase interminável que crescia no quintal. O homem segurava a bengala puída e olhando os nacos ao longe lembrava-se da sua juventude… E sorria! - Estás a rir de quê, avô? A neta surgira de repente do nada trazida pelos passos pequenos e silenciosos. Germano endireitou-se e apontando com a ponta da bengala os terrenos defronte, respondeu: - Lembrei-me de que há muitos anos, num dia quente como este alguém andava ali a malhar tremoços… - Tremoços? - Nem mais. Antigamente apanhavam-se alqueires deles… A criança olhou o avô com os olhos doces, sentou-se ao lado e encostou-se a uma das pernas doentes e pediu: - Avô… conta-me uma das tuas histórias… Tu sabes tantas! Germano endireitou-se...

Eis-me!

Olho o caminho recto e cinza entre muros de pedras soltas temo não seguir os meus passos à aventura das descobertas.   Há no horizonte folhas caídas de um Outono bem próximo. Tempos assaz estranhos de dilemas, dúvidas e incertezas.   Sinto no pobre coração frágil a dor férrea de uma tristeza, o grito lancinante da revolta a lágrima singela e chorada.   Dias virão mesmo assim, mornos, mansos, velhacos. Arrebatam de mim ardores Bravatas certas e perenes.   Na verdade... na verdade não sei ser de outra forma. Sou assim completamente total, animal e quiçá fatal!