O Pastor #2

(... Continuação daqui)


Sentado no cimo de um grosso penedo, o jovem pastor olhava para a bela paisagem que se abria na sua frente. Um pouco abaixo, na encosta, as ovelhas ratavam a erva rala após umas noites passadas de uma chuva miudinha.


No instante seguinte soou um assobio estridente. Gritou:


- Vai Sapatos, à esquerda…


Não necessitava dizer mais nada. O cão correu em grande velocidade, ladrando para recolocar as cabras na charneca.  Algumas dispersaram, mas o animal com perícia obrigou-as a juntarem-se ao restante rebanho. Depois subiu a encosta e voltou a deitar-se perto do dono, ciente que este o premiaria com algo.


O guardador descascava uma maçãs ainda meio verdes e entregou duas ao amigo que comeu com sofreguidão. Mas o jovem não tirava os olhos do horizonte. Matutava.


Por fim desceu do penedo e caminhou pela encosta, atravessou o rebanho e finalmente desceu umas escadas de pedra para entrar numa velha mina de água. Aqui pegou no velho cantil e após o ter enchido bebeu. Entretanto o canito bebia do excedente que saía da mina.


Subiu a encosta, trepou ao penedo e ali voltou a ficar. A cisma adviera-lhe daquela cachopa que dias antes o havia interpelado. Que raio… que coisa… A figura não lhe desaparecia da mente. Depois olhou para Sapatos e perguntou:


- Sabes alguma coisa de mulheres?


O cão olhava-o com aquele seu olhar meigo, ergueu-se e ladrou. O jovem parecia ter entendido… E devolveu:


- Pois eu também não…


Olhou o céu e percebeu que ao longe uns novelos cinzentos que cresciam para o seu lado. Voltou a descer do enorme calhau e disse ao cão:


- Vai buscá-las Sapatos. Vem aí chuva e não me quero molhar. Vamos para o barracão velho e ficamos lá esta noite. Vá, põe-nas a andar.


O cão colocou-se a caminho e minutos depois já gado, pastor e cão fugiam da eventual intempérie. Ao longe começava-se a escutar o ribombar dos trovões, mas a chuva ainda não chegara. Foi no instante seguinte a ter arrecadado o gado no velho mas útil barracão que um relâmpago iluminou o fim de tarde dando início à trovoada.


Durante toda a noite a chuva tombou com persistência e relâmpagos e trovões sucediam-se quase em simultâneo.


Deitado na palha farta o jovem continuava taciturno. Sapatos percebeu e poisou o focinho na barriga magra do dono aceitando o carinho que o pastor lhe dedicava, naquelas festas insubstituíveis. Compromissos assumidos sem palavras. Dar e receber, somente.


Por fim o jovem adormeceu para acordar a meio da noite sobressaltado. Ergueu-se e ficou à escuta. A chuva continuava a cair, a que se juntava o balir doce das ovelhas… nada mais. Voltou a recostar-se na palha, colocou as mãos atrás da cabeça ficou a olhar o céu através duma velha e suja janela de vidro. Perdera o sono.


A manhã acordou fresca, mas luminosa. Os pássaros andavam já numa correria e as ovelhas principiavam a pedir comida através de um balir insistente.


Gado na rua, naco de broa e pedaço de queijo na mão dos quais retirava a côdea e cascas e dava a Sapatos e ei-los novamente a caminho… de qualquer lugar. A noite fora quase de vigia e por isso teve muito tempo para decidir:


- Sapatos, vamos regressar à aldeia. Vem aí o tempo frio…


Quando chegaram a uma bifurcação o jovem decidiu:


- Deixa, desta vez não vamos por aí, vamos passar à volta da quinta… Não quero ser outra vez apanhado.


Seria pelo menos mais um dia de caminhada, mas era preferível a ter de atravessar uma vez mais a quinta e arriscar-se a ser apanhado.


Dois dias depois, a quinta das Figueiras ficara lá muito para trás e o jovem assobiava uma melodia qualquer. A estrada de terra batida era pouco frequentada e daí usá-la quando desejava andar mais depressa.


Foi Sapatos o primeiro a dar sinal, para depois o próprio gado agitar-se e tentar resguardar-se como podia. O pastor colocou-se na frente quando percebeu que ao fundo da estrada uma nuvem de pó que se aproximava rapidamente.


- Sapatos encosta-as, vá, xô! – e ajudava com o cajado a manter o gado longe da estrada.


Já perto percebeu que era uma espécie de carroça com uma só pessoa e que cavalgava com velocidade. Todavia no momento seguinte o cavalo quase se ergueu no ar tal a força com que o obrigaram a parar.


- Olá pastor, por aqui?


Ela outra vez… O rapaz encostou-se ao cajado e mostrando uma calma que interiormente não tinha respondeu:


- Sim, mas acho que estes terrenos não são seus, pois não?


(Continua...)

Comentários

(Sem assinatura) disse…
Estou a adorar esta história o que virá depois? Beijinhos, boa semana
José da Xã disse…
Depois? Também não sei...
Boa semana.
imsilva disse…
Uma história que cativa sem grandes protagonistas, um pastor, o seu cão, as suas ovelhas, e uma menina que insiste em aparecer para dar aquele colorido.
Será preciso mais? Não me parece...
Boa semana.
José da Xã disse…
Obrigado.
Mas nem imagino onde irá parar...

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