O bezerro!

Assim que se aproximaram as férias, Carlitos chegou-se junto de pai e mãe e comunicou:

- Eu nas férias quero ir para ao pé dos avós na aldeia.

Os pais perante esta vontade olharam-se com espanto e alguma incerteza na resposta a dar, mas foi a mãe que devolveu:

- Pedes bem, mas não sei se temos tempo para lá ir…

- Vou de camioneta…

- Com oito anos? – e esboçando um sorriso, continuou – ainda ias parar ao outro lado do Mundo.

O rapaz não se deixou intimidar pelas palavras da mãe e respondeu:

- Isso julgas tu… Já sei bem o caminho para a avó e o avô.

A mãe não lhe deu mais troco, porém todos os dias, Carlos insistia no desejo de ir para o campo. De tal forma e chegado ao último dia de escola, o menino assim que chegou a casa começou os preparativos da partida.

Os pais olhavam de longe para aquele menino que sentia a terra com paixão. E não era só a terra, mas todos os animais e outros bichos… Decididamente o jovem estava de ideia fixa. Foi o pai que de forma serena sugeriu:

- Carlitos… eu não posso levar-te durante a semana, pois trabalho até tarde, assim como a mãe. No fim de semana prometo que iremos deixar-te à aldeia. De acordo?

O rapaz parecia não estar por aqueles ajustes, mas vendo aquela tristeza e cansaço do pai, acabou por aceitar. Até porque sabia que os pais quando prometiam… cumpriam.

Chegado o Sábado todos se prepararam para a viagem. Carlos de mochila na mão depositou esta na mala do carro e foi sentar-se na cadeira que lhe era destinada. E aguardou… A outra cadeira seria para a irmã Dora de três anos.

Chegaram à aldeia por volta da hora do almoço onde a avó Domitília os esperava com alegria.

Assim que pararam Carlos tirou o cinto de segurança e correu para os braços da antecessora.

- Avóóóóóóóó!

- Oh meu querido… estás tão crescido.

- O avô?

- Olha deve estar no palheiro a mudar a cama às vacas…

- O Farrusco está lá?

- Claro! Onde querias que ele estivesse?

O menino não ouviu a resposta e correu para o palheiro que ele tão bem conhecia. Ali chegado entrou devagar pois não gostava de assustar as vacas. Viu o avô de forquilha na mão a juntar a palha da noite num monte e aproximou-se. Tocou-lhe no ombro e o antecessor quase se assustou:

- Carlitos! Ena estás crescido.

- Olha… a avó disse o mesmo.

Procurou algo na penumbra com o olhar e não o vendo:

- Avô… o Farrusco?

- Ah está ali ao lado… Tive que o tirar da mãe. Também necessitamos do leite e ele já pode comer erva.

Sem mais questões o rapaz saiu do estábulo e entrou noutro ao lado onde finalmente encontrou quem queria.

Farrusco fora o nome que o menino atribuíra ao bezerro assim que nascera na casa devido à cor negra do seu pelo. E desde muito pequenos, ambos entendiam-se. Ninguém conseguia explicar, mas havia entre Carlitos e o bezerro uma ligação forte, uma química como agora sói dizer-se.

Só que Farrusco crescera mais do que o rapaz julgava e este foi encontrar um bicho bem maior que ele. Quase se assustou. Depois aproximou-se e o animal reconhecendo o amigo humano baixou a cabeça para que este lhe fizesse a costumada festa. À porta o avô olhava com ternura para o quadro, enquanto na sua cabeça crescia um novo problema. Como explicar à criança que o bezerro seria para vender?

Carlitos entrou dentro do curro e encostou-se sem qualquer receio de um animal muito maior que ele e muito mais forte e pesado. Todavia para ambos aquilo parecia normal. Farrusco parecia querer dar pequenas marradas no amigo em sinal dessa amizade e Carlitos ria e aceitava o diálogo, abraçando-o pelo pescoço.

No dia seguinte foi Carlitos que a pedido e supervisão do avô tirou o Farrusco do palheiro, levando-o para uma beirada fresca e de erva viçosa. O naco de terra estava todo vedado e assim o animal pode andar em liberdade.

Durante os dias de férias foi o rapaz que cuidou de Farrusco a quem levava palha, favas e água. Sempre sob do olhar atento do velho Olímpio.

Duas semanas depois Carlitos percebeu que a escola estava próxima e foi com imensa tristeza que deixou para trás o seu amigo Farrusco.

Já sentado na sua cadeira a caminho da cidade o pequeno Carlos perguntava a si mesmo:

- O que será de Farrusco quando for mesmo grande?

Comentários

  1. A descrição da penumbra do palheiro e do "bafo quente" do gado transporta-nos para um Portugal que resiste no tempo. É fascinante como a relação entre o rapaz e o Farrusco ilustra a perda da inocência que a cidade tantas vezes nos rouba. Excelente momento de introspeção visual.

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    1. Não lhe respondi directamente. Fi-lo como comentário novo. Desculpe.🥺🥺🥺🥺🥺

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    2. Isto é uma confusão. Fiz um comentário a pensar que lhe estava a responder e depois apareceu-me como comentário simples. Daí ter escrito a resposta anterior.
      Bom posto isto assumo quer este pedaço de má escrita é um bocadinho biográfico. Agora cabe-me escrever a versão do Farrusco a exemplo de outras estórias com animais aqui publicadas. Uma brincadeira que um dia talvez junte noutro livro...Eheheheheeh! Abraço.

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