O barbas!
Uma das coisas que Hipólito mais detestava era ter que rapar a barba, mesmo que fosse a longos espaços temporais. Desde jovem, quando os primeiros espigos apareceram na face, o imberbe deixou-os ficar. Mas as feridas que começaram a surgir obrigaram-no a escanhoar-se amiúde. Assim aconselharam alguns amigos mais velhos…
Uma arrelia, pois o rapaz considerava aquele acto um verdadeiro
desperdício de tempo.
Contudo e sempre que Hipólito passava nas ruas da aldeia de
Montes Negros escanhoado e limpo suscitava nas jovens aldeãs sonhos de muitas
cores e, quiçá, pecaminosos. Porém o rapaz, ainda no dealbar da sua descoberta
da puberdade sentia que aquele peso facial deveria ser para ficar.
Foi já perto da idade adulta quando viu, pela primeira vez, Elfrida
ao longe, o seu coração até ali amorfo e pacato quase saiu do peito. Percebeu
que provavelmente para a conquistar teria de rapar a barba mais vezes do que
gostaria. Valeria a pena tamanho sacrifício? Hipólito fez a pergunta a si mesmo
e não encontrando resposta a preceito acabou por se lançar nos braços de cupido,
a face na lâmina afiada e tentar conquistar a jovem Elfrida.
A mocita nascera na aldeia, mas cedo fora para a vila
estudar. Regressou ao povo com poucos estudos e muita genica para trabalhar na
casa da Dona Efigénia, uma viúva rica, sem filhos e de má tempera, mas para
quem a jovem tinha um condão de a bem saber amansar. Muitas outras que a
antecederam largaram a rica viúva sem dó nem piedade, levando sempre rudes
recados e muitas lágrimas para enxugar.
Entretanto Hipólito ia lutando por uma vida melhor. Tudo o
que fosse ganhar uns tostões a mais era válido e, por conseguinte, tivesse a
guardar um rebanho ou assentar umas fileiras de pedra tudo era razão para
abichar uns trocados.
A jovem criada depressa se apercebeu da paixão de Hipólito e
aceitou-a com grado e alegria. Para mais tarde num sábado chuvoso dizer o sim
perante o noivo, o Padre Asdrúbal e poucos convidados.
Por uns tempos, a noiva, ficou ainda a trabalhar no Solar de
Santa Teresinha, mas depressa abandonou por troca da vida doméstica. Por sua
vez Hipólito foi ousando deixar crescer a barba, só que para a esposa aquela
não era a verdadeira imagem do seu marido:
- Ó home’, vais deixar crescer essa barba até ao chão? –
perguntou-lhe certa manhã, depois de dois dias sem ver lâmina.
O marido não soube que dizer, para antes de sair de casa
prometer:
- Está descansada que à noite rapo a barba.
Porém a cena repetiu-se amiúde pois tinha de ser sempre
Elfrida a avisá-lo da barba. Uma demanda que ele já percebera que estava
anormalmente perdida.
Só que a jovem desde o dealbar do casamento nunca se preocupou
com a casa já que a roupa suja e malcheirosa do marido amontoava-se e a comida
que servia ao seu homem não variava de feijão pequeno cozido e uns pedaços de
chouriço. Fora isso Elfrida acordava tarde, comia umas sopas de pão e
dirigia-se à fonte para dar muitos dedos de conversa, descuidando a vida
doméstica.
Um dia alguém a avisou:
- O teu marido não gosta do que estás a fazer… toma cuidado!
- E eu não gosto da barba dele de muitos dias…
Certo, certo é que certa manhã Hipólito acordou sozinho na
cama. Estranhando a ausência da mulher levantou-se e foi em busca da esposa
pela casa e quintal. Nada! Sumira, simplesmente.
Durante todo o resto do dia o homem procurou a mulher onde
fosse possível que ela pudesse estar. Em vão! Já desesperado e sem óbvias
soluções entrou na igreja onde casara. Não procurou o padre, mas somente alguma
paz. Sentou-se e ficou a olhar o altar que se erguia no fundo, quando uma figura
entrou na capela e sentou-se a seu lado.
Hipólito olhou para a pessoa e reconhecendo uma tia da
mulher, perguntou-lhe apenas com o olhar. Sem palavras a mulher retirou o homem
da igreja pela manga do casaco e cá fora levou-o para um lugar seguro onde ninguém
os escutasse. Por fim:
- A minha mulher ti' Dulce?
Baixando a cabeça a parente respondeu:
- Não sei dela! Nem ninguém sabe. Aquela cabeça nunca foi
muito assente…
- Não acredito nisso. Ela não saía daqui sozinha. Então ela
que gosta pouco de andar!
A tia muda e queda olhava o chão verde de erva e nada dizia.
Hipólito barafustava… ralhava e acusava a família daquela estranha fuga.
- E digo-lhe mais tia Dulce… se a Elfrida não aparecer eu nunca mais rapo a barba. Nunca mais!
Virando as costas o rapaz dirigiu-se para casa em passo
lesto e decidido.
Durante as semanas seguintes Hipólito nunca mais rapou a
barba que ia crescendo sem destino, dando seguimento ao que prometera a Dulce.
Certa tarde o homem encontrou no empedrado da aldeia o padre
que o havia casado. Este sabendo da eventual fuga de Elfrida e da desistência
do marido em procurá-la abordou o aldeão:
- Viva Hipólito. Como vai essa barba? – perguntou a rir.
- Vai crescendo senhor Padre – para logo a seguir – a sua bênção!
- Deus te abençoe – e um sinal da cruz foi desenhado no ar.
Para finalmente vir a questão:
- O que é feita da tua mulher?
- Não sei senhor padre. Saiu de casa pela calada da noite e
nunca mais deu sinal de vida!
- E não vai em busca dela?
- Onde? Partiu sem dizer nada e a própria família não sabe
dela.
- Não falas com as autoridades?
- Senhor Padre… - Hipólito passou a mão pela enorme barba e
acabou por confessar – a minha mulher não gostava que eu tivesse a barba comprida
e eu não gostava de ter a casa que parecia um pardieiro.
O cura colocou a mão no ombro do leigo e serenamente aconselhou:
- Não deves desistir de a procurar, homem!
Hipólito estava cansado da conversa e acabou por rematar:
- Imagino onde andará a minha mulher…
- Imaginas?
- Sim. Depois de muito matutar sinto que Elfrida foi em
busca de um barbeiro para mim.
O padre que já se afastava, recuou e devolveu:
- Um barbeiro?
- Sim… para me livrar desta manta – e passou novamente pelo
enorme tufo de pêlos.
Visivelmente aborrecido pela resposta o pároco virou costas a Hipólito e seguiu o seu caminho para a sua igreja.
Contam os conhecedores do casal que a esposa jamais apareceu. Uns afiançaram que teria caído durante a madrugada nalgum poço, outros que teria fugido para o estrangeiro e havia ainda quem teimasse que ela entrara para um convento.
Por sua vez o Hipólito haveria de perecer num incêndio na própria casa, Foi encontrado completamente carbonizado junto à lareira.
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