O caracol

O menino Tomás nunca teve qualquer memória do ínfimo tempo que viveu na cidade com os pais. Aos dois anos o pai Zório e a mãe Eleutéria deixaram a cidade para se radicarem numa aldeia a três centenas de quilómetros da capital, portanto longe, muito longe do bulício da enorme urbe.

O pai do rapaz, engenheiro de profissão, herdara uma enorme quinta oriunda, primeiro dos avós que durante dezenas de anos foram acrescentando pedaços de terra contíguos, fazendo do que fora um naco bom de chão agrícola, uma enorme fazenda com dezenas de hectares e mais tarde do pai que cuidara da Quinta da Ribeira Velha com afinco, trabalho e muito esforço.

Eleutéria licenciara-se em Agronomia e detestava olimpicamente o seu trabalho de técnica na área, todavia sempre sentada a uma secretária. Preferia o trabalho no terreno, lidar com as culturas no local próprio, ajudar os agricultores.

A decisão da vida no campo, ainda por cima já com uma criança, fora de ambos mesmo que Zório de duas em duas semanas tivesse de ir à capital para reuniões de trabalho regressando sempre no mesmo dia.

Tomás cresceu assim num ambiente saudável rodeado de muitos cães, gatos, galinhas, patos coelhos ou perús. Ao fundo da charneca já quase encostada à ribeira que dera o nome à quinta, evoluíam algumas cabeças de gado graúdo.

Mas o pequeno rapaz desde cedo preferia os bichos pequenos. Certa manhã húmida instalara-se na quinta um nevoeiro de cortar à faca que mal se via a três metros. Tomás saiu do barracão onde a mãe preparava as refeições dos bicos com um pequeno balde cheio de couves traçadas misturadas com sêmeas e água e dirigiu-se à enorme capoeira onde as aves domésticas podiam viver livremente.

No caminho olha para a parede e vê algo que ainda não tivera conhecimento.

- Mãããããããããiiiii!

Eleutéria perante o grito do filho surgiu esbaforida:

- Que foi querido?

- Mãiii. Que bicho é este? – apontando para a parede.

A agrónoma quase se assustou, para logo sem rir dizer do alto da sua sabedoria:

- Este bicho é um… caracol! E dos grandes…

- Ohhhh! É tão engraçado!

. Pois é. E o mais engraçado é que anda sempre com a casa às costas!

- Casa?

- Sim, ele quando necessita descansar (provavelmente a palavra hibernar seria de difícil compreensão para o pequeno Tomás), mete-se dentro da casca, fecha-a e pode lá ficar semanas ou meses.

O pequeno ia para pegar no bicho, mas logo a mãe o avisou:

- Se lhe tocares ele fecha-se dentro da concha e nunca mais o verás. Sabes… os caracóis não fazem mal às pessoas, mas podem estragar as culturas…

- E como fazem isso, mãiii?

- Os caracóis são muuuuuuuito gulosos e muuuuuuuito comilões. Gostam das folhas tenrinhas e frescas… - e com a mão desocupada fez uma festa no seu homem pequeno.

Porém o menino não estava pelos ajustes e desobedecendo teimou em tentar arrancar o caracol da parede. A mãe acabou por ser aperceber e sem azedume avisou-o:

- Toma cuidado com a casca que é frágil. Se a estragares o caracol morrerá. E tu não queres isso pois não?

Tomás abanou a cabeça numa negativa. Todavia insistiu:

- Ele não vai com a gente?

Pacientemente Eleutéria respondeu:

- Não, não… ele tem o caminho dele para fazer. Muito devagar, muito mesmo.

- Posso dar um nome ao caracol?

- Podes claro, mas provavelmente amanhã já cá não estará.

- Vai para onde?

- Pode ir para muito lado ninguém sabe. Então como se irá chamar o mestre caracol?

- Tomé!

- Pronto seja Tomé o caracol sem… pé!

Riram-se ambos.

Entretanto o caracol lentamente já subira a uma árvore cuja rama assentava no telhado do barracão e deliciava-se com as folhas frescas daquela manhã cinzenta!

Comentários

Dina Coelho disse…
Adorei a história do caracol Tomé... sem pé. 🙂
José da Xã disse…
Amigo Último,

O que os netos nos obrigam a escrever!😂😂😂😂😂😂
José da Xã disse…
Uma história entre muitas outras para contares um dia a alguém...😍😍😍😍😍😍😍

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