A versão de Maria

O tempo passou célere. De tal forma que Maria se tornara, naquele topo do Mundo que não era mais que um jardim na cidade, a decana dos periquitos. Senhora de um feitio assaz impetuoso era, mesmo assim, muito respeitada. Especialmente pelas aves mais jovens.

Todas as tardes quando o Sol principiava a querer esconder-se por detrás dos prédios devolutos da velha cidade, os jovens periquitos aproximavam-se de Maria no intuito de escutarem dela uma nova estória, um novo relato de aventuras, um rol de desafios sempre ultrapassados.

Quem passasse no chão repleto de folhas verdes e secas e olhasse para o cimo dos plátanos, cedros, amoreiras e outras árvores era certo que veria uma enorme confusão de aves a voar acompanhadas do normal ruído.

Cada periquito lutava por um lugar mais perto da oradora que naquele seu jeito de fêmea autoritária e disciplinadora aguardava que todos poisassem e se aquietassem de forma a poder relatar mais uns casos.

A excitação da passarada mais pequena era enorme, pois estavam em presença de alguém que até lidara com humanos e saíra desse encontro livre e viva…

Maria sacudiu-se vaidosa por ver uma imensa assistência, encostou-se um pouco para um dos lados para ter melhor visão do seu público, para finalmente principiar o seu colóquio.

- Hoje é tempo de revelar a minha relação com os humanos. Essa espécie muito contraditória, mas também excelente… quando quer!

A passarada presente agitou-se com a espectativa do que iria surgir.

- Certa manhã, lembro-me bem, houve por aqui um enorme estoiro. Ainda hoje estou para saber o que foi. A verdade, porém, é que assustámo-nos e cada um voou para seu lado. Não sei se foi sorte, certo é que poisei numa varanda, onde estava um humano muito sossegado. Eu diria que parecia quieto demais.

Um breve silencia para Maria sacudir as suas belas penas e mordiscar o vizinho a seu lado numa brincadeira comum. De seguida reactou a estória:

- Estava a saltitar quando chegou outro humano e eu saí logo dali… Nunca se sabe o que vem daquela gente. Mas não sei porquê aquela personagem humana tão quieta, amorfa fazia-me espécie… Eu sei, eu sei que somos muito curiosos e que nem sempre corre bem…

Novo frémito na assistência. O vento vespertino e fresco agitava os ramos. Mas o público canoro não estava com vontade de abandonar aquela assembleia sem perceber o que realmente acontecera a Maria.

- Bom no dia seguinte estava eu a voar serenamente em busca de algo para matar a fome quando percebi que na varanda onde poisara no dia anterior havia migalhas de pão espalhadas. Calculei que de propósito.

A agitação manteve-se, mas como a noite se aproximava Maria continuou:

- Comi o pão certamente e voltei ao meu ninho. No dia seguinte repetiu-se a brincadeira pois encontrei mais uma vez pão e no mesmo local. Mais… sem aparecer qualquer humano a não ser a mesma pessoa que estava sempre sentada e sossegada na varanda.

Agora era o vento frio da tarde, mas ninguém levantou asa. Maria avançou no relato entusiasmada:

- Um dia após ter comido o pão em vez de partir fiquei ali. Sacudi-me, limpei umas penas e fui-me aproximando daquele humano quieto e aparentemente triste.

Um voz surgiu do meio do conclave:

- Como sabia que estava triste.

Maria devolveu:

- Boa questão, mas a própria estória vai-te responder. Vá deixa-me acabar que já sinto frio.

Com a calma que a vida lhe ensinara a periquita acrescentou mais um episódio:

- Cheguei-me tanto ao humano que acabei por lhe poisar na mão. Percebi que era uma fêmea humana, por causa daquela longa penugem na cabeça. Bom o melhor disto é que aquele ser quando me viu poisada na sua mão, não se mexeu, mas ficou contente. E durante muito tempo fui aquele lugar fazer uma festa à menina.

Todas as aves sacudiram as asas numa espécie de aplauso, até que…

- O que foi feita da menina?

- Não sei… já que passadas umas semanas ela deixou de aparecer e nunca mais a vi!

Um silêncio frio como a tarde alastrou à plateia, mas Maria rematou:

- Porém as migalhas de pão ainda continuam a aparecer na varanda o que prova que os humanos, quando querem, são fiáveis.

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