O Bravão e o bravo!
A ribeira das Duas Pedras nasce no meio da serra entre dois enormes penedos graníticos que a baptizou. Durante todo o ano a água sai do ventre da terra com maior ou menor força, todavia sempre límpida, fresca e com força de vida.
Se no Inverno o caudal farto vai descendo a encosta até encontrar a foz na ribeira dos Carvalhos, já no Estio o fio fresco fica naturalmente preso nalguns lameiros contíguos à linha de água, que agradecem. Porém a maior característica da ribeira é ser a divisão natural de duas enormes propriedades.
Augusto Maciel era dono de uma enorme Quinta que tinha como limite a leste, a boa ribeira. Do outro lado vivia Vicente Peres um outro fazendeiro sempre muito cioso dos seus terrenos e mais ainda das suas partilhas. Certo é que estes dois homens… detestavam-se.
Nunca ninguém, em boa verdade, soubera da razão do diferendo. Alguns aventavam a ideia de ser um problema antigo envolvendo saias, outros falavam de coisas de heranças e partilhas antigas e havia ainda quem ousasse falar de questões de dinheiros.
Certo, certo é que ambos não se podiam ver de tal forma que quando se cruzavam na estrada estreita havia sempre problemas. Conta-se que certa vez foi chamado o padre para tentar resolver o diferendo, conseguindo-o de forma pouco natural já que os chamou a ambos à parte enquanto o pessoal tratava de passar as carroças.
Naquele Inverno a chuva chegara mais cedo. Pouco depois do S. Miguel principiaram a cair as primeiras chuvas. Vinham mansas, miúdas, chatas. Mais tarde o céu cobriu-se de uma cor plúmbea, pesada e com ela vieram os aguaceiros fortes, carregados e persistentes. Lentamente os campos encheram-se de água, os caudais alagaram as diferentes galerias ripícolas limitando o uso do pasto que cria crescer, mas num ápice afundava sob tanta intempérie.
Na aldeia tudo estava parado e não fossem alguns terrenos mais escarpados, mais o feno guardado do último Verão e muito gado passaria fome.
Se os seis filhos de Augusto, recentemente viúvo, não achavam graça à demanda do pai, já os dois filhos varões de Vicente alinhavam na bravata. Sobrava deste a filha que nunca comprara a ideia do diferendo, ainda por cima sem saber porquê.
Vicente acordava sempre de madrugada. Comia uma bucha e partia a pé acompanhado do seu fiel cão Profeta. A Lua havia muito tempo que não se deixava ver, tal como o Sol. Caía uma chuva obesa, densa que não deixava ver o caminho enlameado. Da sua casa até à margem da ribeira distava umas boas centenas de metros. Geralmente por aquela hora também Augusto andaria perto da margem, mesmo que estivesse alagada.
Uma mania de ambos em fiscalizar a ribeira não fosse o vizinho comer algum pedaço de terra. Viam-se ao longe, mas nem se cumprimentavam. Geralmente o velho Augusto trazia sempre consigo um cajado gordo e resistente.
Naquela manhã Vicente desceu devagar a pequena encosta que dava acesso ao seu lameiro. Pé ante pé não fosse alguma pedra fugir por debaixo das botas o homem foi-se aproximando das margens bem alagadas. A chuva parecia naquela madrugada querer de súbito amainar, mas mesmo assim a corrente do rio parecia tudo querer levar.
O dia clareava mais que o habitual quando uma nesga de céu venceu as nuvens e deu um ar da sua graça. Foi nesse momento que Vicente olhando para o lameiro do vizinho Augusto pareceu ver alguém caído.
- Ei… Ei… - gritou.
Podia não ser ninguém, mas quanto mais se aproximava e se enterrava na lama mais certo estava de que alguém estava caído no chão. O problema é que o terreno era do Augusto e não queria questões com ele.
- Ei… você… Está a ouvir?
A água na ribeira corria célere e foi nesse instante que Vicente procurou a montante uma séria de penedos que podiam servir de acesso ao outro lado, mas que fazia muitos anos não passava por ali. Encontrada a passagem com a forte corrente que ladeava os calhaus Vicente atravessou e foi a correr com a dificuldade da lamaçal e da água ao encontro do corpo.
Para seu espanto o homem era mesmo Augusto, que estava enterrado até aos joelhos na lama. Ao lado um ramo de freixo parecia querer boiar. Assustado Vicente ordena:
- Profeta… vai a casa e traz a dona. Vai, vai depressa.
O cão pareceu perceber o dono e correu quanto a água do lameiro deixava, enquanto o dono tentava arrancar o vizinho da lama. O homem estava inanimado, mas não estava morto já que respirava. Tremia de frio e foi com enorme esforço que retirou o inimigo daquele lamaçal. Lentamente tentou puxá-lo para fora do lameiro para uma zona mais alta e menos alagada.
Quando finalmente chegou ajuda, capitaneada pelo fiel Profeta, Vicente estava extenuado. Os seus empregados carregaram então Augusto e levaram-no para casa do patrão. Este mandou aquecer água e metê-la numa banheira onde depois deitou Augusto que não reagiu. Finalmente ordenou:
- Alguém que vá ao povo chamar o Dr. Almeida. Rápido.
Já era noite quando o velho Augusto deu sinal de querer acordar. Abriu os olhos e logo percebeu que não estava na sua casa. O quarto havia pouca luz e não viu quem tinha a seu lado. Quando deu pelo Vicente, ergueu-se, mas logo caiu no leito sem forças.
Os filhos do doente estavam longe da quinta e por isso ninguém do lado de Augusto foi avisado. Todavia no dia seguinte Vicente mandou um empregado comunicar o sucedido. Entretanto os filhos principiaram a atentar o pai pela presença do vizinho.
Vicente deixou-os refilar sem dizer fosse o que fosse, para depois devolver:
- A demanda que possamos ter com alguém fica esquecida quando há uma vida em perigo. O que deveria ter feito? Deixá-lo lá a morrer de frio? E depois como ficaria a minha consciência?
Os filhos ainda tentaram dizer algo, mas o pai abriu muito os olhos e continuou:
- E vão vocês todas as semanas à missa bater com a mão no peito…
Os filhos envergonhados pelo pai saíram da sala em silêncio. Para logo vir Inês, a filha mais nova, abraçar Vicente, sussurrando ao ouvido:
- Obrigado meu pai!
Foi no segundo dia que Augusto principiou a falar:
- Onde estou? Que me aconteceu?
Vicente pegou na vela e aproximou-a de Augusto:
- Apanhei-te no teu chão caído, enterrado na lama e inanimado. O meu pessoal trouxe-te para aqui e já cá esteve o Doutor Almeida. Tens de descansar. Mas se não quiseres ficar aqui…
O velho Augusto olhou para Vicente e perguntou:
- Porquê?
O outro percebeu a pergunta e respondeu:
- Porque somos ambos imbecis…
Augusto estendeu a mão.
- Obrigado… provavelmente devo-te a minha vida. Uma dívida que nunca será paga…
- Não é preciso pagar. Tenho a certeza que farias o mesmo comigo!
As mãos ásperas e calejadas juntaram-se num aperto afectuoso e sincero. Para logo a seguir Augusto adormecer.
Na manhã seguinte uma empregadita jovem e vivaça entrou no quarto com uma bandeja e uma chávena de chá bem quente. Poisou o tabuleiro numa mesa e devagar abriu o reposteiro deixando que a claridade matinal entrasse no quarto do enfermo. Vendo o doente mexer-se cumprimentou:
- Bom dia senhor, está melhor?
- Bom dia menina… Acho que sim, obrigado.
- Vou deixar aqui o seu chá, sim? Aproveite que está quentinho.
O doente ergueu-se da cama e percebeu que alguém o vestira com roupas que não eram as suas. Não se importou… naquele instante já estava por tudo. Sentado à beira da cama Augusto tentou recordar o que se passara dias antes. Mas havia ainda alguma confusão dentro da sua cabeça.
Bateram à porta do quarto.
- Entre!
Era Jacinta a mulher de Vicente que naquele seu jeito sempre simpático não obstante a idade, veio acautelar-se do vizinho:
- Bom dia Augusto! Isso é que foi um susto, homem de Deus!
- Pois foi Jacinta…
- Mas lembras-te do que se passou?
Augusto calou-se. A vizinha percebeu que algo o incomodava e não insistiu. Foi o homem que acabou por confessar:
- Todas as manhãs ali passo naquele lameiro… A água trás tanta coisa e de repente notei que estava um animal atolado.
- Mas que bicho era?
Um silêncio penetrou no quarto, mas logo a seguir Augusto desvendou:
- Era o vosso boi.
- Qual?
- Não sei como se chama, mas pareceu-me o boi de cobrição…
- O Bravão?
- Vendo ali enterrado fui buscar rama de freixo e com o meu cajado fui tentando empurra-lo dali para fora. Não sei como terá ido lá parar, mas a verdade é que consegui que ele saísse pelos seus próprios meios. Só que com tanta manobra e força a determinada altura havia perdido o meu bordão. E é aqui que tudo pára pois só me lembro de ir à procura do cajado…
Jacinta levou a mão à boca e pediu:
- Já venho Augusto, já venho – e saiu quase a correr.
Regressou rápido com Vicente e perguntou-lhe:
- O que aconteceu há dias ao boi, o Bravão?
- Não imagino. Só sei que um dos homens o encontrou à solta nem sei onde!
- Pois é foi aqui o Augusto que o salvou de morrer afogado. E ao invés ia ficando ele… se não fosses tu…
Num segundo tudo se fez luz a Vicente, para logo assumir:
- Deus sabe o que faz! Não gostava da nossa estúpida bravata e arranjou estes desafios…
Augusto abanou a cabeça numa concordância para acrescentar:
- Se não fosse crente Nele diria que eram apenas coincidências…
Jacinta rematou:
- Pois sim tens razão Augusto foram apenas Deuscidências!
Parabéns.
ResponderEliminarMuito sucesso.
Eu ficono sapal até ao fim e depois vou para o cenóbio.
Eu iria também. Depense de têm pudins abades de priscos ou não! E bom vinho! Ahahahahahahaha
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