Mão certeira!

Desde infante quando lhe perguntavam o nome, sempre respondia:

- Lino, chamo-me Lino.

Alguns não questionavam mais, porém outros ousavam chegar mais além e teimavam:

- Lino de Adelino, Aldino…

- Virgolino – acabava por responder de mau modo.

Carregava ainda:

- Mas com ó!

Eis assim o pequeno Lino que não gostava do seu verdadeiro nome. Desde miúdo que odiava o epiteto dado por um padrinho, que nunca conheceu. Diria mais tarde que aquele deveria ser burro ou parvo para entregar um nome destes a uma criança.

Virgolino nasceu numa aldeia na encosta de uma serra escarpada e atapetada de enormíssimos pedregulhos e penedos. Alguns destes tinham até formas curiosas e nem era necessária muita imaginação para se rever num qualquer outra forma mais conhecida, como era o Penedo da Cabeça da Cabra, a Pedra Boi ou o Cabeça de Elefante.

O rapaz conhecia todas as pedras e nunca se perdia se por lá andasse na vadiagem. Amiúde saía de casa sempre acompanhado de um rafeiro feio, sujo, malcheiroso e bom amigo, calcorreando diferentes trilhos, descobria buracos escondidos por entre as enormes pedras e que lhe davam acesso a pequenas charcas onde lançava à água pedras que saltitavam até finalmente se afundarem.

As pedras pequenas redondas quase polidas passaram a ser a sua arma sempre que tinha um encontro menos amistoso com um javali. De forma lenta, coordenada e tenaz Lino foi apurando a sua pontaria. Principiou atirando a umas pedras maiores para rapidamente ir descendo o tamanho do alvo, conforme ia apurando o acerto. Até que certa tarde de fim de Verão colocou-se debaixo de um enormíssimo pinheiro manso e atirando seis pedras a seis alvos distintos caíram seis pinhas. Não mais, nem menos!

Lino desde logo escondeu essa valência de amigos e família. Sabia de antemão que algures num dia futuro haveria de ser confrontado com uma daquelas apostas de gaiatos e certamente ganharia o concurso.

Um Domingo após a missa à qual a mãe o obrigava a ir, os seus amigos procuraram desencantá-lo para um torneio de pedradas, sem minimamente saberem da perícia que tinha, entretanto, obtido.

Por debaixo do mesmo pinheiro onde Lino muitas vezes treinava os jovens predispuseram-se a disparar pedras e ver quem deitava mais pinhas ao chão. Lino decidiu ficar para o fim. Estava já a imaginar o gozo que iria ter. Ao todo eram quatro jovens que com fisgas ou apenas as mãos iam tentando acertar nas pinhas. O primeiro lançou a seis pinhas, mas apenas caíram duas. Depois lançou o segundo e mais outro, até que chegou à vez de Lino.

Sem grandes cuidados o jovem pegou em seis pedras brincou com elas nas mãos experimentadas e lançou uma a uma para a árvore para logo cairem seis pinhas para espanto dos seus companheiros.

- Sorte de principiante! - afirma um.

- Não é nada… Sai ao pai! -  diz outro.

O terceiro achou por bem ficar calado enquanto recolhia a única pinha que conseguira tombar.

Com a idade este gosto por lançar pedras a um alvo e raramente falhar tornou-se um belo divertimento, de tal forma que ao Domingo de tarde os homens e rapazes da aldeia escolhiam um terreno para organizar uns torneios. E para onde acorriam (quase) todos.

Lino propos-se a concurso batendo-se contra homens muito mais velhos e experientes. Mas logo no primeiro embate o rapaz ganhou o certame deixando alguns dos velhos à beira de um ataque de nervos. A partir desse dia o intuito dos homens da aldeia seria bater o rapazola. Mas tal jamais aconteceu.

Houve até quem às escondidas oferecesse dinheiro a Lino para ele não participar. O rapaz recusou peremptoriamente até que os torneios das pedradas deixou de se fazer, para tristeza de Lino que sempre ganhava alguma coisa nos desafios.

O jovem tornou-se homem e quando mal se deu pela coisa estava casado com Almerinda, uma jovem da aldeia bem farta de carnes e que tinha uma enorme dívida para com a beleza. Ainda assim mostrou-se sempre uma boa e ciosa mãe dos seus três rapazes.

Entretanto Lino herdara parte das terras e casa dos pais por troca com os irmãos do dinheiro que o antecessor havia amealhado durante anos de sacrifícios. Para Lino, que nunca estudara nem soubera fazer mais nada que a vida no campo, ter fazendas que pudesse amanhar era uma alegria e um privilégio.

Com trabalho, dedicação e alguma sorte Virgolino conseguiu educar os seus filhos e enviá-los para a cidade para estudarem. O pior é que passava muito tempo sem os ver. E essa distância doía-lhe.

Certa tarde de Verão Lino passou pela taberna e pediu um copo traçado. Algo raro nele por aquela hora. Porém o calor era tamanho que não resistiu. Na tasca muitos outros homens quase todos ociosos por opção, bebiam também eles copos de vinho negro. A conversa correu pelos temas de sempre até que alguém virando-se para Lino, declarou:

- Sabes que aquele teu chão nos Picos Negros está cheinho de pasto seco. Aquilo necessita ser ceifado... Ainda dá uma carrada de feno...

- Eu sei compadre, mas fica longe prá caramba. Quando for tenho de dar conta do trabalho todo... Levar a gadanha... e as vacas para trazer o feno. Mas sinceramente ando com pouca coragem...

- Deve ser por causa da bicha... - avançou um velho sentado no canto mais escuro da taberna.

Todos o conheciam por ter sempre uma visão negra sobre as coisas. Havia quem o chamasse de "profeta da desgraça", epíteto que lhe caía como uma luva, mas que o destinatário detestava.

- Qual bicha?

- Não sabes?

- O que devo saber?

- Que nesse teu chão há uma cobra enorme, que carrega até uma concha... de tão velha!

- Ahhh essa! - Lino deu uma gargalhada. Há muito que ouvia estórias, mas nunca acreditara.

O homem saiu da taberna com um novo foco para um dos dias seguintes. E quanto mais cedo melhor não fosse o tempo mudar de repente.

Numa manhã bem cedo pegou nas vacas, carregou-lhes a canga e o atrelado de fueiros postos e partiu para o chão longínquo. Em cima levava a gadanha, um forcado e uma sachola. Depois meteu algumas pedras no bolso e seguiu para o seu chão. Pelo caminho ia-se desafiando ao arranjar novos alvos para acertar. E mesmo naquele movimento lento do carro de bois conseguia sempre atingir o alvo com anormal precisão.

A manhã já surgia no horizonte quando Lino chegou ao terreno. Desatrelou as vacas e deixou-as a pastar na fazenda contígua à sua, há muito abandonada. Havia uma passagem que Lino subiu e deparou-se com um feno demasiado alto. Com vontade, força e perícia o homem de gadanha em punho derrubava o feno alto. Até que se aproximou da orla da fazenda onde evoluíam algumas oliveiras. O calor forte deixara-o demasiado cansado. Sentou-se sob umas das oliveiras e percebeu como estava carregada de pequenos bagos ainda muito verdes.

Pareceu adormecer. Acordou com um som estranho, invulgar. Levantou-se num instante e quase sem perceber olhou o chão e procurou algumas pedras. Umas maiores outras mais pequenas. Pegou na gadanha e regressou à ceifa quando voltou a escutar o mesmo som.

Olhou em redor e não se apercebeu de nada.  Pensou que seria alguma das vacas e foi ao seu encontro. Principiou a percorrer o caminho agora de feno cortado e deitado no chão. As pedras, no entanto,  manteve-as na mão.... É que aquela ideia do velho na taberna fizera mossa no seu espirito. Calmamente foi-se encaminhando para a saída quando de repente viu que o feno se mexia. Ora se o calor era tanto e nem bulia um mero sopro de vento algo estava por ali debaixo. Manteve o passo, primeiro lento depois decidido.

Num segundo tudo se transformou. À sua frente, à distância de dois aguilhões uma serpente cresceu da terra tisnada. Era enorme, mais alta que Lino, apoiava-se na ponta do rabo, num equilíbrio que o camponês jamais observara. Da cor negra destacava-se uma carapaça por trás da cabeça. O medo instalara-se no seu espírito e não soube o que fazer até que de repente sentiu as pedras na mão e nos bolsos.

A língua bífida da enorme cobra via-se à distância e pairava no ar um som sibilante.

Lino de forma lenta meteu a pedra maior na mão destra para num ápice a disparar contra a serpente. A pedra saiu da mão direitinha como sempre acontecia. Porém o projéctil perto do réptil fugiu do alvo e caiu ao lado. Mas logo saiu outra e mais outra das mãos hábeis de Lino. Mas a todas elas calhou o mesmo destino... A cobra parecia soprar nelas e aquelas caíam sempre ao lado sem que nenhuma ousasse tocar no bicho. Sem desviar os olhos, Lino baixou-se e tacteou mais pedras e também estas foram arremessadas, mas debalde atingiram o alvo.

Porém a serpente percebeu ter encontrado um antagonista valente e da mesma forma que surgiu, caiu por terra e desapareceu no meio de feno e do restolho.

Lino percebeu que o combate terminara e rapidamente foi buscar as vacas e começou a carregar o feno cortado e que se espalhava pelo chão.

Sempre de sentidos atentos. Sempre de bolsos cheio de pedras. Sempre pronto para a bravata.

Que jamais voltou a acontecer.

Comentários

Veio para a casa nova e trouxe a inspiração todinha consigo, Zé da Xã :)

O Lino continuou cheio de bravata mas, desta vez, foi a cobra quem venceu ao retirar-se quando poderia ter optado por desferir-lhe um bote mortal.
Gostei muito, como sempre.

Um abraço
José da Xã disse…
Obrigado Maria João.
Estimo as suas melhoras!
Dina Coelho disse…
Olá José. Pode-me seguir? Abraço.
Um bom conto para começar o fim de semana!

Mensagens populares deste blogue

Ao fim de mim

O Bravão e o bravo!

Despedida!