Assobio mágico
Era um daqueles dias de invernia pesada. A chuva começara a cair dias antes e não parara. O vento soprava com tamanha pujança que alguns pinheiros na encosta da serra já haviam tombado.
Com tamanha intempérie ninguém ousava sair de casa. Até cães
e gatos evitavam a rua mesmo que a fome lhes roesse as entranhas.
As terras planas ensopadas até onde podiam transformavam-se
em mares de água onde as pinhas e as bolotas boiavam, quais cascas de noz.
Os dias plúmbeos sucediam-se e o Sol tardava a mostrar a
face. Nem mesmo no escuro da noite, a Lua mostrava a sua luz.
Luciano seria o único da aldeia a quem a chuva não fazia
diferença. Até poderia ajudar no seu árduo trabalho de arrancar as infindáveis
pedras de um chão a querer dar mais que feno e silvas.
Pela manhã vestia o velho capote e sem qualquer temor
entrava naquele mundo de pluviosidade permanente. Sempre que podia vinha comer a bucha a casa,
mas a desoras. As pedras saiam melhor com a terra molhada que seca
e quando se punha naquela tarefa dificilmente largava o cabo do alferce, companheiro
fiel e inseparável para quem queria limpar a terra dos calhaus.
Por fim juntava-os todos num monte, imaginando uma futura
casa de coelhos ou serpentes. Nunca de ambos.
Quando a fome finalmente o atormentava pegava na vetusta
alfaia e seguia para casa. A boina totalmente encharcada pesava-lhe na cabeça,
mas Luciano não se preocupava, pois de vez em quando torcia-a escorrendo dela
um fio de água negro de tão suja, para logo a seguir enfiar a cabeça nela. Em
casa secaria pendurando-a no cabo do alferce que também tinha direito a calor.
Naquele meio de tarde negro, doentio, encharcado Luciano no
alto dos 20 anos regressa a casa no seu passo calmo e desengonçado não se
desviando das poças que se alargavam no trilho. Entra no povo e na primeira
casa um cão ladra. O jovem aproxima-se, o animal reconhece-o e passa a abanar o rabo e aos saltos querendo aquela festa.
- Então Bicas como estás? Vai para dentro que está a chover
muito. Vá, pira-te. – E a festa lá caiu em cima do pêlo molhado.
O cão como que percebendo o amigo regressa para debaixo do
telheiro donde saíra.
O jovem regressa ao caminho, mas aquele encontro com o Bicas
alegra-o e nesse preciso instante lança para o ar uma moda que escutara na
última festa na aldeia do lado. Assobia despreocupado, feliz.
Lentamente percebe que tem companhia e que esta vai
crescendo. Os cães soltos da aldeia aproximam-se do jovem e acompanham-no simplesmente.
Outros ladram lá longe incapazes de se aproximar já que estão presos.
O rapaz olha admirado para os seus amigos e pára de assobiar.
E entretém-se a conversar com eles e a fazer-lhes festas. Alguns têm muita
fome e naquele interregno procuram comida. Luciano apercebe-se e assobiando arrasta
consigo a matilha.
Já em casa procura a arca do pão de muitas semanas que a mãe
usa para demolhar e dar às galinhas. Rouba-lhes uns nacos valentes e distribui
pela canzoada.
Estes lutam pelos bocados, mas rapidamente ficam satisfeitos
e partem por fim de barriga enganada.
Luciano vê-os partir e sorri!
A chuva parece querer finalmente abrandar e uma réstia de
Sol vence um colchão de nuvens.
Comentários
Há pessoas que adoram os dias cinzentos e a chuva a cair.
Mas o Joseph podia, dar o frosques.
👍
* retira a vírgula 😁