A periquita
Ana nasceu deficiente, quase profunda.
Cresceu e viveu entre enfermarias de hospital, salas de
cirurgia e a cama no seu quarto. Sempre apoiada e amada pelos pais e os dois
irmãos. Entre todos havia uma cadência de cuidar, lavar, dar de comer ou
simplesmente ficar ali lado a lado com uma criança que aos dezasseis anos nunca
soubera sorrir.
Naquela manhã de primavera branda com o Sol a aquecer Ana,
após a costumada azáfama diária com a sua higiene e alimentação, foi levada
para a varanda. Do lado de fora havia vida, gente, ruídos citadinos, crianças a
gritar numa escola contígua ao prédio, passarada em alegre esvoaçar nos plátanos no jardim defronte, um mundo estranho para a menina.
O olhar de Ana raramente se mexia… Um ar vazio, longínquo, nem
triste nem alegre, invariável. Sempre fora assim.
Nenhum médico conseguira descobrir se Ana seria capaz de ouvir, mas perceberam que talvez conseguisse ver, mas tudo sem muitas certezas.
No velho jardim diante do prédio as árvores haviam crescido
muito para lá do que seria suposto. Nas copas os melros, pardais, periquitos e
demais aves faziam do lugar um verdadeiro conclave. De vez em quando um ruído
mais forte espantava-os para logo a seguir voltarem a juntarem-se.
Foi num desses sustos urbanos que um dos periquitos voou
mais que o esperado e acabou por poisar na varanda de Ana. Irrequieto o pássaro
ficou ali a saltitar na pedra enquanto Ana mantinha o seu quase estado
vegetativo.
Nesse instante apareceu à varanda um dos irmãos ainda a
tempo de ver o passarito a voar para a árvore mais perto. Aproximou-se da irmã
e falou com ela como se Ana o ouvisse e entendesse.
- Olha, viste um periquito Ana? Gostou de ti. Amanhã pomos
aqui milhagitas de pão… Pode ser que ele regresse e passe a ser teu amigo. Sim
mana?
Ana não reagiu! Como sempre.
Porém na manhã seguinte o irmão voltou a sentar a irmã à
varanda, precisamente no mesmo local e deixou pedaços de pão espalhados na
pedra mármore. Escondido dentro do quarto da irmã aguardou pacientemente.
A rua estava extraordinariamente movimentada e daí a
passarada estar mais excitada. Num momento um periquito aproximou-se e começou
a debicar o pão. Ana parecia não perceber até que a ave partiu.
Durante dias as migalhas de pão foram postas no mesmo lugar e o
periquito surgia sempre para aproveitar o pão ali deixado.
O irmão acabou por chamar a mãe para assistir à visita
diária que a filha recebia. E naquela manhã tudo foi igual: o pão esmigalhado,
a irmã na cadeira e agora dois a testemunharem a visita.
- Mãe por favor não faças barulho.
A mãe acenou com a cabeça afirmativamente e ambos
aguardaram.
- Lá vem ele mãe, lá vem ele – alertou baixinho.
A ave confiante poisou na pedra e comeu todos os pedaços de
pão. Acabado o repasto partiu. A mãe de mãos na cara chorou. Depois disse ao filho:
- Sabes é uma fêmea, uma periquita.
- Como sabes?
- Porque tem a cera, aquela coisa por cima do bico, castanha…
- Temos de lhe dar um nome…
- Maria – assumiu a mãe.
A partir desse dia ou era mãe ou o irmão que ficavam na penumbra
do quarto a observar a chegada da Maria que num dia após comer todo o repasto
ficou ali a sacudir-se e estranhamente não
voltou ao ninho nem à sua árvore… Devagar acabou por poisar na mão de Ana.
Esta, como sempre, não reagiu nem se mexeu, apenas esboçou
um sorriso que só Maria percebeu!
Comentários
Desde há uns meses iniciei a escrever duas estórias envolvendo um animal. Começou com um gato, seguiu-se um cão, um galo, um canário, um grilo, uma lagartixa e agora uma periquita. A pedido da minha neta que deu o nome à ave. Eu dei o nome à menina.
Agora estou a juntar as histórias para, quem sabe um dia, publicar em livro.
Bom fim de semana.
Um ótimo fim de semana!