A pedido do amigo Zé Onofre

Mataram o Natal


Nos tempos antigos de usar calção,
Saía a pequenada, das duas salas,
Cantando afinados na emoção,
Desafinados nas vozes engalanadas.

Corria pimpona a pequenada,
Saltando em fintas alegres,
“Aulas acabadas, férias começadas,
Vamos para casa comer rabanadas.”
Em dezembro pelos vinte e dois, ou e três,
Depois de tanto espreitar pelo nevoeiro
Anunciava-se o quase, quase já,
Do dia mais mágico do ano e do mês.
Toda a pequenada abalava até casa
Pegar em cestos e carrinhos
Depois, entre mato e pinheiros,
Colhia o melhor musgo p’r’ó presépio

Todos sabíamos de antiga tradição,
Vinda dos pais dos nossos avós, tão velha,
Que aquele dia era de enorme encanto
De fazer presépios no canto da sala.
Mesmo os olhos daqueles que viviam tristes,
Nos outros dias do ano inteiro,
Naquele dia incendiavam-se
Como se lá se acendessem candeeiros.
Ó meus amigos de antigas pernas nuas,
Cobertas de picos e arranhões.
Hoje olhamos pelas janelas da vida
E tudo se desmorona aos atropelões.

É uma rua que se incendeia em novembro,
É uma cantoria vendedeira pelas ruas,
Um gordo vermelhusco sorrindo por obrigação
De voz cansada rouqueja oh … oh… oh …
Ó meus amigos, que, como eu, usavam calções,
De joelhos no chão a raspar musgo,
Mataram o nosso Natal de sonho e magia,
Sepultaram-no no féretro do tudo se vende e se compra.


Zé Onofre

025/11/29

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