A mãe!

Maria Justina era uma mulher já com alguma idade, que vivera momentos fantásticos na sua vida e outros menos brilhantes que ainda assim não a ensombravam.

Mãe de três filhos e avó de meia dúzia de cabeças era uma mulher independente, não obstante ter o pensamento na idosa mãe com quase 90 anos que vivia  sozinha. Todos os dias lhe ligava. As conversas não variavam:

- Bom dia mãe!

- Bom dia Ju! Que se passa?

- Nada! Só quero saber como estás…

- E para isso é necessário ligar todos os dias?

Não obstante o discurso seco por parte da antecessora, Justina preocupava-se genuinamente com a mãe a ponto de ter contratado uma senhora para estar com ela durante o dia. À noite ficaria sozinha, mas a idosa nunca fora pessoa para sair. Até ao dia que a companhia diária da mãe lhe ligou, logo pela manhã, comunicando entre lágrimas e fungos nasais o falecimento daquela, durante o sono.

Uma tristeza profunda que não sentia desde a morte prematura do marido, havia seis anos. Agora a mãe...

Entretanto os filhos ofereceram-lhe os seus préstimos, mas Maria Justina negou peremptoriamente qualquer apoio:

- Não quero nada. Sei cuidar das coisas muito bem sem necessidade de andarem em cima de mim. Vá chispa daqui e vivam a vossa vida que eu vivo a minha.

Durante meses após a morte da mãe, Maria Justina andou de volta dos papéis e demais burocracias para assumir a herança que consistia num casarão na aldeia, uns pedaços de terra, coisa pouca, e a casa da cidade.

Foi neste entretanto que percebeu que naquele ano teria de fazer algo de diferente para o Natal. Durante muitos anos dedicara-se aos filhos, depois ao marido com a sua doença e finalmente a preocupação permanente com a mãe. Com tudo isto deixara de viver coisas que sempre sonhara e uma delas seria viver um Natal diferente.

Se o pensou, melhor o organizou e fez uma lista do que gostaria de fazer para a sua festa natalícia. Sempre que ia ao supermercado trazia qualquer coisa que juntou num só lugar. Certo dia um dos filhos, o mais novo, visitou-a e vendo aquele rol de sacos e caixas questionou-a:

. Mãe, não me digas que agora te tornaste açambarcadora? – e apontava para os sacos repletos de coisas.

- ‘Tás parvo rapaz! Achas? Isso vai sair daqui em breve.

Não deu mais explicações. Era o que mais faltava divulgar os seus intentos ao fedelho. Então aquele que não gostava nada que alguém se metesse na sua vida.

Até que a duas semanas do Natal pegou no carro encheu-o com os sacos que havia guardado mais alguns agasalhos, enviou uma mensagem aos filhos “vou para longe passar o Natal, sozinha” e desligou o equipamento.

Deu à chave, o motor evoluiu e lentamente arrancou.

Horas mais tarde chegou ao velho casarão onde a mãe havia nascido e agora pertença sua, via herança. Fazia anos que não ia àquela aldeia, mais por força do marido e da antecessora. Agora era tempo de sentir o que para si faria sentido.

Assim que chegou abriu as janelas e deixou que o ar bafiento saísse em busca, quiçá, de outros casarões. Depois foi à cozinha devidamente equipada e testou fogões e restantes equipamentos electricos. Tudo trabalhava.

- Boa! Estamos bem! – pensou - Agora o quarto.

O sol da tarde entrava pelo quarto, mas não o aquecia tal era a brisa fria que entrava pela larga janela. Destapou a cama limpou o pó e finalmente estendeu os lençóis no enorme leito. A seguir um cobertor de papa e rematou com a colcha.

Durante dias a casa foi virada do avesso e num instante o bafio foi substituído pelo perfume de cera e limpeza.

Veio o passo seguinte: o Natal!

Maria Justina sempre sonhara em fazer o Natal na aldeia, juntar alguma família lateral que ainda tinha, mais o marido, os filhos, netos e todos juntos naquela enorme sala poderiam desfrutar da companhia uns dos outros. Mas por esta ou aquela razão e sempre contra a sua vontade, o Natal decorria em sua casa, na cidade, sem ajuda de ninguém.

Com calma e serenidade todos os dias principiou a levantar-se cedo e atirava-se ao compêndio de receitas que trouxera da cidade e onde durante décadas depositara as receitas de avós. sogra, mãe e algumas amigas.

Na enorme sala de jantar onde um enorme louceiro guardava mais heranças, Justina foi retirando travessas, pratos fundos, onde ia depositando cada bolo, cada doce que aprontava. Ao fundo na lareira, que tinha por cima uma tela pintada com a figura da sua mãe quando nova, ardia um fogo crepitante e acolhedor e de uma das janelas ela conseguia ver o rio que devido às chuvas recentes se alargara para as margens.

Quase ao fim do dia Justina ia ao café beber um chá de erva princípe bem quente e dava uns dedos de conversa com quem lá estava, geralmente senhoras reformadas que aguardavam os maridos do regresso da horta.

Ao Domingo ia à missa. Gostava daquela intimidade com Ele, pedia-Lhe que tomasse conta do marido e da mãe, já que do pai tinha poucas ou nenhumas recordações.

À noite ligava a televisão via umas parvoíces e cansada de mais um dia de acepipes adormecia em paz.

Chegou assim a véspera de Natal. Maria Justina entrou na sala de jantar e devagar foi destapando a mesa que estava coberta com um lençol de linho antigo que encontrara numa das arcas e lavara a preceito antes de o estender.

Apeteceu-lhe tirar uma fotografia do que via, mas logo percebeu que assim os filhos saberiam que ela esta disponível e ligar-lhe-iam. Preferiu não o fazer.

No forno colocou uma perna de borrego a assar lentamente com todos os condimentos. As batatinhas entrariam mais tarde.

Durante o resto do dia cirandou pela casa, sozinha, porém feliz. Como há muito não se sentia… Ou se calhar até não…

Obviamente que sentia saudades das suas crianças pequenas, mas mesmo na cidade via-as tão pouco. Disciplinas dos filhos.

A noite caíu na aldeia. Uma chuva miudinha começara a espalhar-se pelo vale. Maria Justina olhou o velho relógio de pé que estava no corredor e percebeu que teria de se despachar para ir à missa do Galo. Só depois se lançaria no desafio de derreter todos os acepipes que preparara nos últimos dias.

Na eucaristia escutou uma homília que quase a fez chorar, mas conseguiu resistir sem verter uma lágrima. Já na rua ainda com a chuva a molhar os crentes e não só, foi-se despedindo de algumas pessoas e regressou a casa.

Outra das iniciativas que tivera foi decorar o exterior da casa com umas iluminações eléctricas muito singelas, dando um ar festivo ao casarão. Ao aproximar-se admirou-se de não ver as iluminações acesas.

- Ai que me esqueci de acender as luzes de Natal. – pensou!

Apressou o passo, abriu o portão e subiu as escadas. Meteu a chave na porta e procurou o interruptor da luz, mas este não ligou nada. Um bréu havia invadido a casa. Assustada, pensou o pior e com cuidado foi entrando devagar pois sabia onde estava a central dos fusíveis. Mas para isso teria de atravessar toda a sala de jantar onde um fogo ardia baixinho quase como se tivesse receio do próprio escuro.

Chegado à central onde se encontravam os fusíveis apalpou se algum estaria desligado. E sim o fusível central havia disparado. Com cuidado rodou-o e de repente toda a sala se iluminou:

- Boas festas, mãe – desejaram os filhos.

- Feliz Natal avó – gritaram em uníssono os netos abraçando-a.

Só soube dizer:

- Obrigado meus filhos. E desculpem-me. Mas como souberam que estava aqui?

- Alguém nos avisou – confessou o mais velho.

Maria Justina estava atónita e de repente olhou para o retrato de jovem da mãe e pensou ou imaginou tê-la visto sorrir.

Comentários

  1. Também gostei muito deste, mas gostei mais do outro e quero mais um!

    ResponderEliminar
  2. Ui se pode!
    E também pode não ser nada!
    Mas é sempre tema para escrita, disso tenho a certeza!

    ResponderEliminar
  3. Obrigado.
    Há um outro, mas ainda falta limar as arestas!

    ResponderEliminar
  4. Narrativas sempre bem elaboradas. Desfechos habitualmente inesperados. Gosto de ler as sequências e tentar prever o final. Quase nunca consigo. (Estou falando dos seus contos.) Deste, previ que fazia sentido que filhos e netos aparecessem no final.
    Feliz Natal!

    ResponderEliminar
  5. Portanto não será um bom conto.
    Foi o que se pode arranjar!
    Abraço.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Ao fim de mim

O Bravão e o bravo!

Despedida!