A fotografia

Cheirava a Natal na aldeia rude e fria. Rude nas suas pedras graníticas, pesadas e invioláveis por qualquer aguaceiro por mais forte que este se mostrasse. Fria por uma brisa que sorrateiramente parecia descer pelas encostas geladas da serra contígua

Em cada casa as mulheres afadigavam-se em criar. Doces… muitos doces. A boca do forno não parava de receber formas com pudins, bolos e finalmente aquele cabrito para a consoada. Muitas mãos, muitas conversas, algumas repetidas de outros anos.

Os homens fugiam às azáfamas domésticas… antes a enxada, diziam. Escapuliam entre dois carregos de lenha para a boca negra do forno, antes que algumas delas se lembrasse de os voltar a chamar.

No tasco do Quim Maravilhas os fugitivos reuniam-se num conclave único e raro. Copos de vinho, cerveja, aguardente e até alguns sumos conviviam sem bravatas e as discussões nem se assumiam muito acérrimas. Era Natal… ou quase!

Ao balcão encostara-se Anacleto, um militar da GNR que escapara ao serviço natalício. Do alto do seu metro e oitenta de envergadura e ajudado pelas sucessivas cervejas ingeridas apregoava a sua sorte por se ter livrado ao serviço na quadra.

A algazarra parecia a de um mercado enquanto o tasqueiro distribuía bebidas. As contas far-se-iam no final…

No extremo da aldeia um vulto surgiu em passo lento, pesado vindo do meio do pinhal que ano após ano, como por milagre, ia escapando à voragem dos incêndios. Quando entrou no centro do povoado a torre centenária da igreja assinalou qualquer hora que o homem nem contou.

De ouvido treinado e atento escutou o alvoroço na taberna e aproximou-se. Por uma pequena janela percebeu muitos homens num enorme chinfrim. Corajoso empurrou a porta lentamente e entrou.

Tal qual um interruptor a confusão desligou-se instantaneamente e os homens ficaram a olhar a visita, que no mesmo passo que o trouxera até ali chegou ao balcão:

- Boa noite! Desculpe esta entrada.

Quim o dono era bom tipo, mas quando não conhecia alguém tornava-se bem antipático. Assim, de maus modos perguntou:

- O que vai?

- Se houver aqui uma alma caridosa que me pague um copito agradeço. Se não houver, não há problema, saio já!

Anacleto nesse mesmo instante fez sinal ao taberneiro para servir o vinho. O homem beberricou e olhando o aldeão agradeceu:

- Obrigado senhor! Muito obrigado.

Despejou o resto do copo e virou-se para sair, mas Anacleto curioso como sempre fora não o deixou partir e ofereceu:

- Beba outro, homem!

. Não posso!

. Não pode porquê?

- Vai cair mal na minha fraqueza…

O silêncio quase esclareceu, mas continuou:

- Há três dias que não como nada… a não ser uns dióspiros que apanhei por aí!

- Três dias? Mas donde é que você vem?

A resposta pretendida não seria aquela:

- Não sei!

- Não sabe?

- Não…

- Então explique-me como aqui chegou?

O viajante olhou em redor e percebeu que todos aguardavam por uma ideia. Não sentiu medo, mas ficou desconfortável. Com os ombros puxou o casaco que já fora velho e devolveu:

- Vim pelo pinhal abaixo…

- Mas de onde?

- Isso não sei, senhor!

- Não sabe? Como não sabe?

Um mutismo cavo.

- Porque fugi do lugar onde estava a trabalhar…

- Fugiu?

- Sim!

À resposta tão peremptória colou-se o silêncio. Foi o fugitivo que acabou por esclarecer:

- É verdade… Fugi de uma quinta onde estava aprisionado. No princípio há uns meses pagavam e davam-nos comida e cama, mas depois fomos mudando de sítio e cada lugar era pior que o anterior. Ainda por cima sem darem um tostão.

Um arrepio, que não de frio, trespassou alguns dos presentes. Anacleto mostrava-se muito interessado e assumiu:

- Mas isso é escravatura…

- Pois não sei. Mas há três dias, dois dos meus colegas revoltaram-se e tentaram fugir pela estrada. No meio da confusão também escapei, mas vim pela floresta. Depois apanhei um ribeiro e entrei nele porque sei que os cães que eles têm perdem o rasto.

As vozes começaram a crescer numa espécie de revolta. Foi nessa altura que o GNR à civil desanuviou:

- Estamos aqui à conversa e não sabemos o seu nome.

- Também não sei…

- Ai homem que você é uma raridade…

- Não sei o que sou nem quem sou.

- Mas sabe ao menos onde nasceu?

- Ah isso sei… Lá para os lados de Oliveira do Bairro.

- Bolas…está bem longe de casa.

- Nem longe nem perto já que não tenho rigorosamente nada! Nem um curral…

- Então o seu pai e a sua mãe…

O pobre homem molhou os lábios no vinho para avançar:

- O meu pai morreu na guerra de África… E quando partiu deixou a minha mãe grávida de mim. Portanto nunca o conheci. Era eu pequeno, a minha mãe fugiu não sei para onde e deixou-me com a minha avó até ser mais espigadote. Nessa altura fui tomar conta de um rebanho de ovelhas e cabras e por lá fiquei até ir para França.

- França?

- Sim. Um amigo lá da quinta arranjou-me trabalho em França e por lá fiquei uns anos. Ganhei algum dinheiro, mas tive de o gastar para regressar a Portugal pois fomos todos despedidos. Sem casa nem papéis lá conseguimos arranjar quem nos trouxesse para cá… mas tive de gastar o dinheiro todo que ganhara.

- E onde foi parar? – ouviu-se.

- Onde haveria de ser? À minha aldeia… Como não havia ninguém da família acabei por ir trabalhar com uns ciganos.

Anacleto pegou no homem sentou-o a uma mesa e disse para o Maravilhas:

- Trás pão, queijo e mais o que tenhas aí no frigorífico. Não quero que este senhor passe fome. Vá trata disso.

- E quem paga? És tu?

-Tens dúvidas?

- Só se for hoje… és um coça para dentro.

Anacleto quase chegou a vias de facto com o taberneiro e foi o desgraçado que amenizou:

- Por favor não se zanguem por causa de mim… Era o que mais faltava. Prefiro pôr-me a caminho…

- Vai'nada… isto é com a gente. Mas agora diga-me lá como se chama… ou pelo menos como o chamavam.

- Ora isso é fácil. A minha avó disse-me um dia que a vontade do meu falecido pai era que eu me chamasse António, como ele! Mas a minha velhota gostava de Francisco que era o nome do marido. Quando fui para a Quinta da Amoreira passaram a chamar-me Peralta que era o apelido do meu pai.

- E sabe ler?

- Nem ler, nem escrever! Como dizia a minha avó se não existes para ter um nome também não existes para a escola.

Um coro soou no salão.

- Bolas como pode ser possível alguém não existir?

Os petiscos apareceram na mesa e todos os presentes participaram no singelo repasto comendo, bebendo e exigindo ao tasqueiro mais coisas.

- O chouriço que tinhas aí onde anda?

Lá veio o enchido e vinho, cerveja, pão!

Finalmente na tasca da aldeia vivia-se o verdadeiro espírito de Natal. Partilhar comida “buída”, estórias… Até o Quim acabara por se sentar e alinhar no convívio.

- Mas a sua casa na aldeia ficou para quem? – perguntou Anacleto.

- A minha irmã vendeu-a por tuta e meia. Ainda lá passei a ver se havia alguma coisa de interessante para levar, mas apenas encontrei loiça partida e uma fotografia a preto e branco com alguns militares. Imagino que um deles seja o meu pai… mas não sei qual deles é!

Com gestos lentos meteu as mãos negras e calejadas na roupa suja e malcheirosa e retirou um pedaço de papel. Colocou-o em cima da mesa e com cuidado foi desdobrando até se encontrar a dita fotografia.

- É esta!

A curiosidade alastrou a toda a sala e foi o próprio Peralta que se dirigiu a cada um dos presentes e mostrou a foto. Quando o velho Zé Gentil pegou na fotografia e a observou exclamou:

- Não pode ser, não acredito…

Os homens acorreram céleres ao idoso.

- Então ti Gentil que se passa? Sente-se bem?

- Chegue aqui homem.

O viajante aproximou-se com medo do que viria a seguir. Mas o Gentil ergueu-se da sua cadeira e com as forças que ainda tinha ergueu a mão e fez uma continência que a todos admirou. No instante seguinte olhou a foto e devolveu o olhar para o homem sujo, pobre, de barba de muitos dias, quiçá semanas que tinha à sua frente. Meteu a mão no peito e sentou-se. Havia agora ali um mistério… que o velho iria certamente desvendar.

- Senhor Peralta este aqui é o seu pai António – apontando para um dos soldados – E este aqui ao lado sou eu!

Todos se olharam num misto de alegria e surpresa.

- Tem a certeza senhor?

- Certezinha absoluta, já que tenho uma foto igual! Os outros dois que aqui estão eram o Camões e o Belmiro.

- Isto merece um aplauso. Safa que grande Natal este! Nunca pensei – assumiu alguém.

O velho mandou baixar as mãos para rematar:

- Este António é o meu único herói. Entregou a sua vida para salvar a minha. Jamais o esquecerei.

Peralta ouviu, comoveu-se e sentou-se lentamente na cadeira para, pela primeira vez na sua estranha vida, chorar!

Comentários

  1. Agruras que muitos passaram, tenho a certeza. Belo final para este conto de Natal! [º<:}}}]

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  2. Sinto que está inaugurado o nosso mural de Contos de Natal... e começou tão bem!!!
    Beijinhos

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  3. Obrigado, pela partilha. Estórias sempre desconcertantes, como o José sabe contar. Extremamente humanas. Consegue também comover-nos. Feliz Natal, com saúde e paz. Gostei muito de ler.

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  4. Obrigado Francisco.
    Sabe... não sou eu que escrevo estes textos, mas o meu espírito, alma, pensamento o que lhe quiserem chamar.
    O que eu faço realmente é juntar as palavras.
    Óptima semana!

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