Mensagens

A mostrar mensagens de dezembro, 2025

A última pergunta!

Seis da manhã. Dia de Natal. João percebe movimento no corredor. Estremunhado imagina ser um sonho, para no instante seguinte escutar conversas em surdina. Devagar acorda a mulher e faz-lhe um sinal de silêncio e pede para se levantar. Depois ambos escondem-se atrás da porta do quarto. No corredor continua um diálogo em tom muito baixo mas que ainda assim o pai consegue escutar: - Vai tu Santiago és o mais velho... - Não posso, vai o Simão que é o mais novo! - Não quero, tenho medo! - Pronto vou eu - avançou Salvador. O rapaz do meio entra no quarto meio escuro, todavia encontra a cama vazia. Recua e nem sequer repara nos pais escondidos. - Não estão cá! Os miúdos olham-se e temem o pior. Simão palpita: - Foi o Pai Natal que os levou? - Deixa-te de ideias parvas miúdo. O Pai Natal não existe, pá! - Existe sim... eu já o vi! - Viste nada, os pais levantaram-se mais cedo e devem ter ido para baixo. Os três rapazes de 12, 9 e 5 anos descem as escadas e aparecem na cozinha. M...

O Presépio!

Assim que saiu do aeroporto Vera entrou no táxi e deu a morada de destino: - Boa noite, é para a rua Nova do Calhariz, se fizer favor! - Com certeza menina. Chegou ao destino, pagou a corrida e dirigiu-se ao prédio de três andares e empurrou a porta de fora, mas esta não se abriu. - Olha queres ver que o senhorio já a arranjou? Contudo logo a seguir lembrou-se do segredo para abrir e experimentou. Bingo! A porta abriu-se sem esforço e Vera subiu os dois andares onde tocou à campainha. Ouviu uma voz: - Quem é? - Sou eu a Vera – todavia estranhou não conhecer a voz da mãe. - Desculpe, mas não sei quem é a senhora… Atarantada Vera olhou em redor e percebeu que alguém a olhava pelo óculo da porta. Voltou a tocar: - Diga! - Não mora aqui a dona Odete? - Mora sim! - Ora eu sou a filha. - Vou-lhe perguntar. Aguarde se faz favor! Vera estava irritadíssima por estar a falar com alguém com uma porta pelo meio. Temeu o pior com a mãe. Finalmente: - A Dona Odete afirma peremptori...

A pedido do amigo Zé Onofre

Mataram o Natal Nos tempos antigos de usar calção, Saía a pequenada, das duas salas, Cantando afinados na emoção, Desafinados nas vozes engalanadas. Corria pimpona a pequenada, Saltando em fintas alegres, “Aulas acabadas, férias começadas, Vamos para casa comer rabanadas.” Em dezembro pelos vinte e dois, ou e três, Depois de tanto espreitar pelo nevoeiro Anunciava-se o quase, quase já, Do dia mais mágico do ano e do mês. Toda a pequenada abalava até casa Pegar em cestos e carrinhos Depois, entre mato e pinheiros, Colhia o melhor musgo p’r’ó presépio Todos sabíamos de antiga tradição, Vinda dos pais dos nossos avós, tão velha, Que aquele dia era de enorme encanto De fazer presépios no canto da sala. Mesmo os olhos daqueles que viviam tristes, Nos outros dias do ano inteiro, Naquele dia incendiavam-se Como se lá se acendessem candeeiros. Ó meus amigos de antigas pernas nuas, Cobertas de picos e arranhões. Hoje olhamos pelas janelas da vida E tudo se desmorona aos atropelões. É uma rua qu...

A mãe!

Maria Justina era uma mulher já com alguma idade, que vivera momentos fantásticos na sua vida e outros menos brilhantes que ainda assim não a ensombravam. Mãe de três filhos e avó de meia dúzia de cabeças era uma mulher independente, não obstante ter o pensamento na idosa mãe com quase 90 anos que vivia  sozinha. Todos os dias lhe ligava. As conversas não variavam: - Bom dia mãe! - Bom dia Ju! Que se passa? - Nada! Só quero saber como estás… - E para isso é necessário ligar todos os dias? Não obstante o discurso seco por parte da antecessora, Justina preocupava-se genuinamente com a mãe a ponto de ter contratado uma senhora para estar com ela durante o dia. À noite ficaria sozinha, mas a idosa nunca fora pessoa para sair. Até ao dia que a companhia diária da mãe lhe ligou, logo pela manhã, comunicando entre lágrimas e fungos nasais o falecimento daquela, durante o sono. Uma tristeza profunda que não sentia desde a morte prematura do marido, havia seis anos. Agora a mãe... Entre...

A fotografia

Cheirava a Natal na aldeia rude e fria. Rude nas suas pedras graníticas, pesadas e invioláveis por qualquer aguaceiro por mais forte que este se mostrasse. Fria por uma brisa que sorrateiramente parecia descer pelas encostas geladas da serra contígua Em cada casa as mulheres afadigavam-se em criar. Doces… muitos doces. A boca do forno não parava de receber formas com pudins, bolos e finalmente aquele cabrito para a consoada. Muitas mãos, muitas conversas, algumas repetidas de outros anos. Os homens fugiam às azáfamas domésticas… antes a enxada, diziam. Escapuliam entre dois carregos de lenha para a boca negra do forno, antes que algumas delas se lembrasse de os voltar a chamar. No tasco do Quim Maravilhas os fugitivos reuniam-se num conclave único e raro. Copos de vinho, cerveja, aguardente e até alguns sumos conviviam sem bravatas e as discussões nem se assumiam muito acérrimas. Era Natal… ou quase! Ao balcão encostara-se Anacleto, um militar da GNR que escapara ao serviço natalíc...