D. Gaudêncio, o Bravo!

Olhando para o edifício simples quase austero, Rafael tentava, em vão, descobrir a razão ou razões para alguém erigir uma habitação naquele local quase ermo. Bem ermo não seria o termo perfeito, talvez afastado do povo, definiria com melhor competência o local, até porque a casa podia ser vista facilmente da aldeia.

As oliveiras, laranjeiras, cerejeiras e demais árvores de fruto emprestavam à quinta um ar estranhamente acolhedor. Sentou-se devagar numa enorme pedra que fora com toda a certeza um batente de uma velha casa e matutou na sua decisão, meio precipitada, ao adquirir aquela pequena fazenda.

Tamborilava os dedos na pedra granítica assumindo a dúvida quando uma voz atrás de si o cumprimentou:

- Ora viva jovem Rafael!

O homem assustado olhou donde veio o cumprimento e deu conta do decano da aldeia. Um velho, velho como o Mundo, respondia Almiro quando muitos tentavam adivinhar a sua idade e à qual o astuto idoso conseguia sempre esquivar-se ao número correcto.

- Bom dia Ti’ Almiro!

Apoiado numa ireconhecível bengala aproximou-se do novo dono da quinta e estendeu-lhe a mão num cumprimento efusivo e sincero:

- Boa compra, este naco de terra, boa compra. E com tanta história…

- História ti’Almiro? Como assim neste ermo? Mas obrigado de igual forma!

O velho nem respondeu, para ir acrescentando:

- A quem compra terra, nasce-lhe o Sol, a quem vende põe-se-lhe o Sol

- Nem sei se fiz bem… - confessou - isto vai requerer muito trabalho

- E o que tem isso? Fazes devagar como o primeiro dono de tudo isto…

A ideia de uma estória estimulou Rafael:

- O Ti’ Almiro conheceu-o?

- Ohhhhhh, não! Foi o meu bisavô que me contou o que aqui se passou. Que lhe contou o avô dele.

- Ui isso dá muitos anos…

- Nem imaginas… Muito mais do que calculas, todavia é uma belíssima estória.

- Que adorava ouvir…

- Uma mui antiga daquelas que jamais se perdem.

- Conte lá que eu adoro escutar um bom relato!

O velho sentou-se ao lado de Rafael e erguendo a bengala numa atitude viril, principiou:

- Há muitos, muitos anos esta casa não existia e nestes terrenos cultivavam-se outros produtos.

A bengala dançou de um lado para o outro como se desenhasse no ar um mapa fictício. Rafael percebeu-lhe o silêncio e não pretendeu acelerar o relato.

- A Quinta não era só este bocado, mas tudo quanto o teu olhar alcança, desde aqui…

 - Isso parecia ser enorme.

- E era, meu filho, era!

No chão o idoso principiou a riscar uns traços, certamente o desenho original da quinta, para finalmente completar:

- Esta Quinta a que chamaram a “Quinta Nova” estava toda, mas toda mesmo, cercada por um muro altíssimo todo de pedra muito grossa, que dois homens um em cima de outro não alcançavam.

- Certo, ti’Almiro, todavia antes de continuar diga lá, se souber, quem foi o primeiro dono disto.

- Foi um fidalgo, D. Gaudêncio Torres, mais conhecido na época pelo “O Bravo”! Diziam que era aparentado ao Rei, mas como imaginas nunca ninguém confirmou esta ideia.

- Geralmente é sempre assim…

- Ora bem… naquela altura o país andava constantemente em bravatas. E quando não eram batalhas contra estes e aqueles inimigos eram os salteadores. Estes homens entravam nas aldeias e saqueavam tudo. Como as casas só tinham velhos, mulheres e crianças facilmente roubavam e fugiam antes que alguém avisasse os nossos militares!

Olhou o jovem a seu lado e percebeu-o atento às suas palavras. Continuou:

- Os dois filhos do fidalgo, já homnes feitos, foram apresentar-se ao Rei da altura, para combaterem a seu lado. O problema é que os rapazes eram valentes, corajosos, mas percebiam pouco de lutas. E deste modo facilmente foram mortos pelos inimigos.

- Os dois?

- Os dois! Uma desgraça tamanha que deixou os pais completamente destruídos! De tal forma que passado pouco tempo a esposa do fidalgo morreria de desgosto, ficando apenas D. Gaudêncio para uma quinta enorme, imensa e muito trabalhosa.

- O homem não tinha pessoal?

- Tinha, tinha, mas era pouco e quase todos viviam fora daqui. Ora bem... foi isso mesmo que o fidalgo resolveu. Certo dia mandou chamar todas as pessoas que viviam por aí em barracos pobres e podres e comunicou-lhes que passassem a viver dentro da quinta, até passar o tempo das guerras. Deu-lhes casa, comida, trabalho e pediu que todos trouxessem os animais que tinham e acima de tudo todas as escadas de madeira.

- Escadas?

- Já vais perceber… Quando tudo estava na quinta D. Gaudêncio distribuiu as famílias por diversas casas que tinha, a maioria palheiros que ele mandou limpar e arranjar aos aldeões mais velhos que não haviam ido para a guerra. Feito este trabalho pediu a quem fosse capaz, especialmente ferreiros, que fizessem na bigorna muitas facas sem cabo. A razão seria distribuí-las depois pelo cimo do muro de maneira a quem quisesse entrar, tivesse ali algo que os magoasse. Daí a necessidade das escadas.

- Boa ideia do fidalgo!

- Pois foi e quando um dia na aldeia ao longe, quase ao anoitecer, ouviram tocar a rebate os que estavam foram dos muros correram para dentro. Depois fecharam a entrada com um portão que não sendo enorme era assaz pesado. 

- Daqueles à moda antiga…

O velho Almiro esboçou um sorriso, para continuar:

- Quando finalmente caiu a noite escura, escutaram a chegada de muitos cavalos trazendo soldados estrangeiros ou, quem sabe, salteadores. Fosse quem fosse tentaram, em vão, forçar o portão, mas incapazes de entrar por ali ousaram subir ao muro muito alto.

- Ui estou a imaginar…

- Pois imagina que nenhum dos atacantes conseguiu entrar na quinta, por lado nenhum… E o mais engraçado é que tentaram de tudo para forçarem a entrada pelo portão, que lhes pareceu a parte mais frágil. Empurraram, puxaram deram com troncos… nada. O portão não cedeu. Depois foram à procura de escadas e... elas estavam dentro da Quinta! Desencorajados partiram quase de madrugada deixando muitos companheiros para trás estropiados e muito feridos.

Respirou fundo, pegou num lenço sebento ao qual de assoou e manteve o ritmo:

- Quando finalmente vieram os soldados do Rei ajudar o fidalgo já nada restava do inimigo a não ser corpos mortos. Foi uma criança que, a pedido do fidalgo, abriu sem esforço o pesado portão aos soldados amigos. Para espanto de todos.

- Bolas, grande estória, safa! Gente corajosa essa.

- Mas isto ainda não terminou!

- Não? Então?

- Quando as guerras terminaram D. Gaudêncio estava muito velhinho, muito mesmo. Os homens que sobreviveram às batalhas regressaram a casa e foi ele que pediu para construírem esta casa.

- Então a velha casa?

- A velha casa e todos os muros em redor da quinta foram deitados abaixo e entregues a cada família para erigirem uma aldeia. As terras foram também distribuídos pelas famílias de forma a terem sustento.

- Espere lá a ver se eu entendi! A nossa aldeia foi feita com as pedras da Quinta Nova?

- Todinha!

- Ena… E o fidalgo ficou aqui?

- Sim até morrer. E sabes o que as pessoas construiram primeiro antes das suas próprias casas?

- Não imagino!

- Uma capela. A nossa capela onde D. Gaudêncio seria mais tarde sepultado.

- Realmente esta é uma estória fabulosa…

- Eu não te avisei?

- Falta saber um pormenor…

- Qual é?

- Quem ficou com o tal portão dos milagres, alguém saberá?

- Essa é fácil responder…

- Então?

- É aquele que ali tens debaixo da varanda. Com as rosetas brancas!

Casa_portão.jpg 

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