As manas!

1

Quando Armandina e Olegário já tinham desistido de serem pais, eis que certa tarde a esposa foi encontrar o marido a perceber como estava a latada de uva branca.

Num breve gesto de olhos o homem percebeu a novidade e exaltou de alegria quase bíblica. Nessa mesma noite convocou todo o pessoal não só para informar da belíssima notícia, mas também pedir que todos olhassem pela futura mãe.

A mulher ergueu-se para tomar da palavra:

- A minha mãe sempre me disse que gravidez não era doença, ela teve 13 filhos e sempre fez a sua vida. Mas prometo quando não me sentir bem pararei e pedirei ajuda.

Todos felicitaram os patrões e estes, já noite dentro, encontraram-se no quarto onde Olegário pediu:

- Mulher… toma cuidado contigo, por favor… Tanto sofreste para alcançar este estado…

- Homem, crê que eu terei o maior cuidado comigo e com quem aqui carrego.

Em Abril do ano seguinte Armandina deu à luz. Finalmente após uma gravidez um tanto complicada que obrigou a mulher a passar a maior parte do tempo de cama. O Dr. Ambrósio assim aconselhara.

Na hora foram chamadas diversas mulheres, entre elas a parteira, a mãe, a sogra e uma irmã. Do lado de fora do quarto o pai descascando umas laranjas sem sequer as comer. A noite fora longa quando saem do quarto duas mulheres carregando cada uma, as filhas. Sim… Armandina tivera gémeas, algo raro por aquelas zonas.

No instante seguinte o pai lembrou-se que uma tia, entretanto falecida, era irmã gémea de uma outra que optara pelo convento e da qual nunca mais tivera notícias. Se um filho era uma alegria, dois seria alegria a dobrar.

Mas o homem olhou para a nova avó e percebeu que qualquer coisa não estaria bem com as crianças. Aproximou-se das lactentes e antes de se debruçar perguntou à sogra:

- Que se passa minha mãe?

A avó deu-lhe a criança e avisou:

- Vê por ti!

Destapada a face da recém nascida Olegário, quase deixou cair a criança. Depois ficou a olhar para a gémea e percebeu o mesmo sentimento.

- Serão deficientes?

- Não meu filho… São feias como uma noite de tempestade.

- Quando forem mais velhas, verá, que tornar-se-ão bonitas.

A avó não pretendeu contrariar o genro e levou dali as crianças.

2

O tempo passou célere para Hermengarda e Hirondina, porém a fealdade das meninas manteve-se sem um naco de melhoramento, muito embora mãe e avós tentassem, em vão, dissimular o aspecto das cachopas.

Os pais lutaram para que as meninas convivessem com as jovens da mesma idade, mas na aldeia todos fugiam à sua passagem. Desse modo os pais acabaram por contratar diversos professores que lhes foram ministrando conhecimentos. Se bem que iguaizinhas no aspecto físico ambas tinham gostos muito diferentes. Hermengarda preferia área das ciências, matemáticas e químicas, enquanto Hirondina estava talhada para as letras com leitura de imensos clássicos, estudos aprofundados de história e filosofia, para além de línguas estrangeiras, especialmente Francês.

Para comemorar o aniversário dos dezasseis anos das filhas, os pais organizaram uma festa enorme, nos jardins da casa senhorial onde viviam. A ideia seria algum jovem se embeiçar de uma das filhas e daí nascer talvez maior relação com outras pessoas.

Para a festa foram convidadas todas as famílias de três léguas em redor, para além de uma orquestra, artistas diversos e muita e boa comida e bebida. À noite abriu-se o baile, mas as manas continuaram sentadas durante toda a noite sem que um rapaz se aceitasse delas convidando para dançar. Desiludidas as moças abandonaram o recinto da festa sem sequer partirem o bolo, que contudo não ficou por comer.

Anos mais tarde Olegário morreria de forma repentina para logo a seguir partir aa esposa incapaz de aguentar a dor do falecimento do marido.

As gémeas agora com 22 anos e prontas para a vida de professoras, profissão para que haviam sido ensinadas, estavam longe dessa vida quase académica. Até que certo dia uma criada as veio chamar:

- Meninas, meninas… está na biblioteca um senhor que deseja falar com vocês.

- E com qual de nós?

- Ai isso não sei menina… O senhor não deu preferência.

- Diz-lhe que já descemos.

Quando por fim entraram na biblioteca a visita quase se assustou. Era verdade o que diziam daquelas jovens, mas sem demonstrar qualquer constrangimento, avançou:

- Bom dia meninas! Chamo-me Alcibíades e venho da adeia ao lado. O que aqui me trás prende-se com o meu filho Zenóbio que tendo passado por um conjunto de colégios e professores, ninguém conseguiu meter-lhe alguma sabedoria naquela cabeça tonta. Ouvi entretanto que as meninas poderiam ajudá-lo e assim venho perguntar se estarão disponíveis para ensinar alguma coisa ao meu rapaz? Pagando claro… E o vosso preço será o meu preço.

As manas não esperavam aquela oferta e ficaram um pouco indecisas. Foi Hermengarda que erguendo-se do vetusto “fauteil” declarou:

- Aceitamos essa incumbência, mas só com uma condição!

- E qual é?

- Se daqui a umas semanas o senhor não vir melhoramentos no seu filho não recebemos o dinheiro e o seu rapaz pode partir.

- Como queiram. E quando poderá vir?

- Quando quiser. A minha irmã dará as partes das letras de manhã e de tarde darei eu as ciências. Três horas de manhã e três de tarde… Que nos diz?

- Óptimo! Amanhã pelas nove estará cá. Será boa hora?

- Sem dúvida. Cá o esperaremos!

No dia seguinte às nove em ponto Zenóbio entra no solar das "Gémeas Feias” preparado para as aulas.

O jovem de quinze anos parecia ter muito mais idade. Um olhar vivo e um sorriso contagiante ainda assim insuficiente para agradar às manas professoras. Na biblioteca reservaram-lhe um lugar e Hirondina deu início às aulas.

3

Durante muitos meses as gémeas mostraram que podiam não ter qualquer beleza física, mas conseguiam bons resultados com os alunos. Zenóbio foi um deles. A fama de competência das feias professoras acabou por se alastrar a toda a região, originando uma procura inusitada.

Certo dia Hirondina chamou a irmã ao quarto. Hermengarda estranhou o pedido, mas foi lesta a apresentar-se defronte da irmã:

- Que se passe mana?

- Sinto-me estranha…

- Como assim estranha?

- Hoje de manhã estava nauseada e fui lá fora ao jardim apanhar ar, mas acabei por vomitar. E depois veio o cheiro da comida da cozinha e ainda fiquei pior…

Hermengarda levou as mãos à boca dizendo:

- Ai mana… o que fez?

- O que eu fiz? Não fiz nada!

- Mana… há quanto tempo a boca do seu corpo não vomita as tristezas?

- Ah… isso… sim… há umas semanas. Mas porquê?

- A mana Hirondina está grávida!

- Eu grávida? Não pode ser… Só se for por obra e Graça…

- Do Zenóbio, não?

- Não mana, não!

Hirondina agachou-se defronte da irmã e pegando-lhe nas mãos comunicou:

- Não sei como aconteceu, mas a mana está grávida e eu vou ser tia!

- Ai que vergonha… mas como aconteceu isto, como?

Hermengarda levantou-se puxou de outro tom de voz e descarregou:

- Não me faça de parva, mana. Aconteceu a si e há-de acontecer a muitas mulheres neste Mundo. Agora só gostaria de saber com quem foi? Vá lá desembuche…

Hirondina deixou que as lágrimas inundassem a sua face para finalmente confessar.

- Há uns meses entrei atrasada na missa e sentei-me cá atrás. Quase a começar a eucaristia veio um cavalheiro e sentou-se a meu lado. Pareceu-me simpático e trocámos umas palavras. Na missa seguinte lá estava outra vez. Depois perguntou-me quem eu era e quando lhe disse que era professora ficou entusiasmado, porque gostaria de saber ler e escrever.

Um lenço alvo afagou as lágrimas.

- E depois?

- Assim quando a mana dava aulas de matemática eu fui a casa dele ensinar-lhe a ler e a escrever.

- Pronto já percebi… mas agora necessito saber quem é ele? E não vale a pena enganar-me…

Hirondina chorava, para num momento de pausa por fim confessar:

- Foi o João…

- João, qual João? Deve haver muitos cá na aldeia…

- O João Pardal! O cego!

Comentários

  1. Sto. Abrenúncio! Prendes-nos com uma história prendada, e a seguir, esbugalhamos os olhos para ver se lemos bem.

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  2. Ai “jasus”! Só mesmo de ti, José!
    Mas há uma coisa que me deixa a pensar, sabes que adoro as tuas estórias e a criatividade dos lugares e enredo, mas os nomes… penso para comigo -“onde irá o José buscar esta catrefada de nomes?!”. Alguns conheço, até me são familiares, mas outros… o que me rio com eles, perdoem-me as pessoas que os têm

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  3. Olá minha boa Amiga de

    Há em todos os locais deste país uma Base de nomes.
    Só temos de lá ir buscar. Ainda por cima não são nomes inventados.
    O local chama-se... cemitério. É verdade! Não estou a brincar.
    Beijos e obrigado.

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