A lagartixa!
Leotilde acordou cedo ainda o Sol não despontara por detrás da serra. Andou pela casa a arrumar as parcas roupas que a filha, Gabriela, deixara espalhadas e quando o astro-rei surgiu foi acordar a miúda.
- Gabi, querida! Acorda sim? A mãe precisa de ir trabalhar e tu tens de ir comigo.
A menina virou-se na cama sem vontade de acordar. A mãe insistiu:
- Vá lá amor… Acorda! – e agitou-a tão devagar que quase parecia um embalo.
Gabriela abriu um olho para finalmente se levantar. Na ínfima casa de banho tratou da sua higiene para depois seguir para a cozinha onde se vestiu. Aqui a mãe tratava de lhe preparar o pequeno almoço e uma bucha para ambas comerem ao meio-dia.
Enquanto terminavam o pequeno-almoço a filha perguntou:
- Onde vamos mãe?
- Combinei que iria hoje cavar a terra do senhor Florentino.
- E é longe daqui?
- Um bocadinho. mas eu levo-te ao colo.
- Não preciso mãe… eu gosto de andar nas terras! Gosto de ver os bichinhos…
- Eu sei querida e fico muito contente por gostares de tratar bem a Natureza. Mas agora despacha-te que tenho de passar por casa do patrão buscar uma enxada.
Após uma longa caminhada Leotilde largou a pesada alfaia na terra e comunicou:
- Pronto chegámos! Deixa o farnel pendurado nessa oliveira e a infusa sob aquela carrasqueira - e apontou ambos os lugares à filha – enquanto cavo isto podes ir brincar e procurar os teus bichos. Mas não vás para muito longe…
- Sim mãe!
A cachopita pendurou o saco de pano num pequeno galho partido no pé da oliveira e foi esconder a infusa repleta de água fresca no imo mais fresco da viçosa carrasqueira. Depois foi brincar.
Por entre pedras e arbustos a pequena Gabi tentava encontrar os seus bichos. Ali um monte de terra denunciava uma entrada para uma toca de formigas laboriosas e irrequietas. Mais à frente um coelho correu fugindo apressado. Entretanto no ar esvoaçavam muitos pássaros, especialmente cartaxos, pardais, melros e um ou outro pisco. Olhando o céu anilado e cortado pelos vôos das aves, Gabriela sentia-se também uma ave. Não voando é certo, mas sentia também aquela liberdade. O curioso é que os passaritos preferiam a presença da mãe à dela. Procurou-a de enxada na mão ferindo a terra vermelha e seca.
- Mãe porque é que os pássaros gostam mais de ti do que de mim?
Leotilde poisou a alfaia e descansou. Passou o braço pela testa para depois devolver à filha:
- Eles não gostam mais de mim que de ti… Mas como estou a cavar faço vir ao de cima alguns bichinhos especialmente minhocas que os passaritos levam para os ninhos para dar de comer aos filhos…
- Ahhh! – e virando as costas à mãe foi em busca de mais natureza.
O calor principiava a apertar e Gabi já cansada sentou-se num pequeno penedo à sombra de um frondoso medronheiro. Depois com uns pauzitos e demais folhas que foi recolhendo construíu uma pequena casa como se os pássaros ou outros animais lá quisessem ficar.
Estava nesta azáfama quando percebeu a aproximação de uma lagartixa. Pequena, ligeira e desconfiada, o réptil parecia procurar o calor emanado pelo Sol. Subiu a um conjunto de pedras cinzentas e sentindo aquelas já saborosamente quentes parou. E ali ficou longos minutos a observar e a ser atentamente observada pela menina curiosa.
Gabriela nem se mexia. Encantada com a nova companhia ali ficou longuíssimos minutos em modo estátua, evitando com isso que a lagartixa fugisse. Mas a mãe haveria de estragar tudo.
- Gabi querida, onde estás?
Tapada por uns arbustos a mãe não a veria e daí a menina tentou sair do lugar lentamente. Todavia a lagartixa ao mais pequeno gesto da menina desapareceu no meio da vegetação que crescia espontaneamente. Finalmente respondeu:
- Estou aqui, mãe. Estou a ir!
Já perto da Leotilde, esta perguntou:
- O que estavas a fazer, querida?
- A tentar fazer amizade com uma lagartixa! Tão bonita. Chamei-lhe Clotilde!
A antecessora deu uma sonora risada para logo avançar:
- E conseguiste?
- Não! Tu chamaste-me…
Boa noite, José da Xã
ResponderEliminarGostei, como sempre gosto, de ler mais uma história. Desta vez fala-nos de uma menina que tenta fazer amizade com uma lagartixa e eu não o estarei a enganar se lhe disser que, quando menina, o consegui. Claro que, enquanto bicho humano, aquilo era para mim uma amizade, não faço a menor ideia do que a lagartixa pensaria sobre a nossa harmoniosa convivência... A verdade é que ela vinha comer à minha mão e não se ensaiava nada de dar uns passeiozinhos pelos meus braços que eram para ela fontes de calor, já que a temperatura corporal dos humanos é muito superior à desses pequenos répteis.
Boa noite e um abraço
Adorei!
ResponderEliminarFez-me lembrar a minha prima, que também se chama Gabriela, Gabi, como nós dizemos. Quando era pequenina tinha um balde da praia onde guardava caracóis... Hoje tem 19 anos
Uma privilegiada essa sua lagartixa pois pode estar em contacto com uma excepcional poetisa.
ResponderEliminarPois Maria João e agora um pouco mais a sério os animais têm a percepção do ser humano... como um animal.
Dizem que se prende com o medo, que faz com que o nosso corpo destile a adrenalina, coisa que tem cheiro e que os animais detestam.
Se eu soubesse teria dado o seu nome à lagartixa. Mas teria de convencer a minha neta antes, já que foi ela que baptizou este bicho fictício.
Desejo-lhe um óptimo serão.
(Ando com saudades das nossas trocas de galhardetes, mas nunca sei do seu estado de saúde e longe de mim pensar que a estaria a obrigar a algo!)
E já comeu os caracóis?
ResponderEliminarBoa noite, Zé da Xã
ResponderEliminarNão creio que a minha amiga lagartixa se importasse muito com as minhas quadras e sonetos, rsrsrsrs...
Mas deixe a sua fictícia lagartixa ficar com o nome que a sua netinha lhe deu que é bem bonito. A irmã da minha avó paterna também se chamava Clotilde, embora toda a família lhe chamasse Clou - deve ler-se Clu, porque ela, tal como a minha avó e dois dos meus tios avós, era filha de uma francesa.
Não estou segura de que essa coisa da adrenalina funcione com todo o tipo de animais, mas sei que funciona com os cães, embora nunca tenha passado por essa experiência porque gosto imenso deles e por isso eles não podem sentir o cheiro de uma substância que não estou a segregar.
Quanto à minha saúde vai tudo aos altos e baixos, com muitos mais baixos do que altos, mas cada vez são mais longos os intervalos que faço na minha produção poética e se em parte posso dizer que ler e escrever no computador me faz arder e até doer os olhos, não posso dizer que seja só esse o motivo das minhas ausências.
Espero que tudo vá correndo pelo melhor consigo e com a sua família
Um abraço
Não creio
ResponderEliminarOlá boa noite,
ResponderEliminarPor aqui vamos vivendo um dia de cada vez. Umas vezes dói a perna outras as mãos .
Valem os "piquenos".
Cuidado com o calor! Cuide-se, SFF!
Obrigado pela amizade!
Abraço.
ResponderEliminarBoa noite, Zé da Xã.
ResponderEliminarCalor, hoje? Só se for na sua zona que aqui, em Nova Oeiras, faz um vendaval desgraçado, capaz de envergonhar muitos vendavais de Inverno... Já tive de vestir uma camisola e um casaquinho de malha.
Não me agradeça pela amizade porque ela funciona quase sempre na base da empatia: ou há, ou não há...
Boa noite e um abraço
Olá boa tarde/noite,
ResponderEliminaro vento por aqui é uma constante. Por isso a trás da minha casa há dois moinhos, naturalmente deactivados.
Mas hohe esteve também vento e algum calor. Forte mas ainda assim suportável!
Quanto à amizade... é isso mesmo: empatia!
Uma noite descansada e cuide-se sff.
Obrigado.
Boa noite, Zé da Xã!
ResponderEliminarEu hoje estou a precisar de cuidar mais da minha Mistral do que de mim... Creio já lhe ter dito que ela - a minha amiga gata - é diabética e tenho de lhe administrar duas injecções de insulina por dia. Nada disto é bom, mas ela estava-se a aguentar bastante bem até hoje, quando cheguei a casa e vi que ela estava na mesma exacta posição em que a tinha deixado e não havia tocado na água nem na ração. O meu remendado coração quase rebentou de susto pois pensei que estava morta. Felizmente, não, mas tive de ser eu a levar-lhe a ração e a água à cama. Como ela vai ao hospital veterinário na segunda-feira, vou hoje diminuir um pouco a dose de insulina por receio de que ela esteja hipoglicémica.
Depois lhe voltarei a dar novas dela.
Bom descanso e um abraço
Nós apegamo-nos aos animais e é um dor forte quando os vimos partir.
ResponderEliminarJá me aconteceu com uma cadela. Ela era realmente a dona da casa, pois nada se fazia sem que ela estivesse primeiro.
I amor pelos animais é uma dádiva. Não compreendo como alguém possa fazer mal a um cão ou a um gato.
Uma noite descansada e as melhoras da Mistral (adoro o nome!).
Eu nunca entendi muito bem como é possível que haja pessoas que deliberadamente fazem mal a outras pessoas ou a animais, mas tenho de aceitar que elas existem e, infelizmente, não são poucas... Já dei a injecção - reduzida na dose - à Mistral. Dei-lha enquanto ela comia, para reduzir o risco de hipoglicémia e, até agora, parece estar bem, embora muito dorminhoca... Passo a vida a acordá-la fazendo-lhe festas, para ter a certeza de que não está em coma e ela responde sempre com umas lambidelas, o que é bom sinal.
ResponderEliminarEnfim, é como diz, uma enorme dor de alma quando eles partem e eu vou fazer tudo o que puder para a manter por cá mais uns tempos. Não vai ser fácil, é bem possível que tenha de ficar acordada toda a noite para a vigiar, mas ela merece bem esse pequeno sacrifício.
Obrigada e outro abraço
Boa tarde, José da Xã
ResponderEliminarCá estou, conforme prometi, para lhe dar novas da Mistral que chegou há pouco do hospital.
Empenhei metade da minha pensão do mês que vem, mas foi feito um exame rigoroso e a glicémia dela até estava baixa - 80 - o que significa que fiz muito bem em seguir o meu instinto e que o que ela teve foi mesmo uma hipoglicémia que só não foi fatal porque lhe reduzi a dose de insulina. De qualquer forma, continua muito sonolenta e quase não consegue andar pelo que o veterinário propôs uma ecografia que vai ter de ficar para depois sob pena de morrermos ambas à fome, ou de ficarmos sem gás, água e energia eléctrica. De qualquer forma, as funções renal e hepática estão bem e não há sinais de infecção.
Bom serão e até breve
Boa tarde/noite Maria João,
ResponderEliminarFolgo em saber da sua gatinha. Espero que ela se mantenha por perto de si de quem recebe o carinho e o conforto necessário. Mas reconheço que os gastos com os animais são absurdamente caros. A minha Lupi morreu há uns anos mas perto do fim nunca gastei mensalmente menos de 500 euros.
Morreu na sua cama, coitadinha e ainda tenho espalhado pela casa fotos dela. Era uma pessoa de família.
Estimo muito as suas melhoras e da sua Mistral.
Obrigado peloi cuidado que teve em me informar!
O prometido é devido, Zé da Xã, e eu lembro-me bem de lhe ter prometido notícias dela.
ResponderEliminarJá tive muita sorte em me ter sido permitido pagar para o mês que vem, mas aos 500 euros não posso chegar, a menos que vamos ambas viver para debaixo da ponte.
O subsidio de férias deste mês foi à justinha para pagar a conta do mês passado e o raio do IMI, que não deveria pagar por auferir da pensão mínima, mas como a reavaliação das habitações elevou muito o preço do meu T1 fiquei na triste posição de "pagante". Pudesse eu levar a casa ás costas por alguns quilómetros e deixá-la num local menos sobrevalorizado, safar-me-ia do IMI. mas eu nem comigo mesma vou podendo...
Outro abraço
Maria João,
ResponderEliminarno meu caso foi o IRS. O ano passado recebi devido às cirurgias da minha mulher. Este ano irei pagar 2500 euros só de irs. Se não fosse um pé de meia que fiz durante o tempo que trabalhei a minha conta entraria em relaxe.
E para o ano vai ser igual. Não descontam tanto na retenção da fonte mas depois cobram tudo unto.
Enfim é o que temos.
ABraço e as melhoras das meninas aí de casa!
Caramba, que fortuna vai pagar, Zé da Xã!
ResponderEliminarFelizmente, recebo tão pouco - ai que nunca pensei ser capaz de escrever uma coisa tão paradoxal! Mas, continuando, recebo tão pouco que estou isenta de IRS. Valha-me isso.
Obrigada e tudo de bom para si e família
Boa noite Maria João,
ResponderEliminardesculpe só agora responder, mas eu e mais uns amigos abrimos um blogue novo e aquilo tem sido complicado.
Posto esta desculpa esfarrapada venho perguntar essenoialmente pela sua saúde e da sua Mistral:
Espero que ambas vivam melhor cada um destes dias de enormíssimo calor!
Cuide-se e cuide da sua companhia!
Que bom! Os contos que nos enchem a alma. Vou já ler o resto.
ResponderEliminarBom dia.
ResponderEliminarHá quem não aprecie...