O galo

Deitou-se a desoras! Algo que vinha fazendo havia algumas semanas. A morte recente do seu avô, no fundo o homem que o criara e educara após a morte prematura dos seus pais num trágico acidente de viação, deixara-lhe profundas marcas.


Afogava assim as mágoas em inúmeras garrafas de cerveja ou outras bebidas. Depois já alcoolizado pedia um táxi e atirava-se para a cama tal como vinha.


Naquela manhã, porém, acordou mais cedo do que imaginaria. Um cantar de um galo despertara-o. Num segundo pensou que estava novamente na velha aldeia com o avô, onde os animais eram bem madrugadores. Olhou em redor e pela desarrumação do quarto percebeu que estava em casa, na cidade onde nascera e agora aterrara contra vontade.


Entretanto o galaró não se calava e Nuno pretendeu saber onde estaria tal animal já que estava no meio de uma cidade. No fundo a sua relação com a vida rústica ainda não se diluíra no álcool bebido.


Ergueu-se a custo da cama e foi à casa-de-banho enfiar a cabeça debaixo da torneira de água fria. Já reactivo vestiu uma roupa informal pegou nas chaves de casa e foi em busca do cantar do galo.


Na rua curiosamente deixou de o ouvir e andou para trás e para à frente para tentar perceber de onde viria aquele vozeirão. Ouvi-o de novo e palpitou que estivesse na rua debaixo da sua e para lá se encaminhou. À entrada do arruamento um sinal indicava uma rua sem saída. À esquina uma moradia ainda em construção para logo pegado com esta, um longo terreno cheio de erva verde que em alguns locais chegava à altura de um homem. Percebeu então que a parte de trás do baldio dava para as traseiras do prédio onde vivia, daí ouvi-lo bem.


Ao fundo do terreno erguia-se, o que parecia ser, um barracão. Com a vegetação tal alta logo assumiu que se desejasse ali entrar teria de se munir de ferramentas apropriadas.


Regressou a casa, desceu à garagem onde em tempos existira um carro e buscou uma enxada rasa, um serrote e uma tesoura de podar. Retornou ao terreno e com saber foi raspando o chão devagar de forma a criar um pequeno carreiro que o levasse ao barracão. Curioso é que o galo deixara de se ouvir. Quiçá com medo da estranha visita e para não denunciar o seu poiso.


Lentamente Nuno desbravou o terreno até que chegou à entrada do velho barracão. Sem qualquer porta, o telhado ainda assim estava bem montado e provavelmente não choveria lá dentro. Estava escuro e Nuno deixou que os olhos se habituassem à escuridão. Depois conseguiu ver uma enorme desarrumação com algumas caixas de madeira, em tempos teriam levado fruta, muitos sacos velhos e algumas alfaias em péssimo estado.


Parou à entrada e esperou o galo, que deveria andar por ali, surgisse. Mas o que escutou foi um cacarejar dolente e quase inaudível.


Devagar, muito devagar o jovem foi-se aproximando do local de onde surgira o barulho e tentou destapar retirando algumas caixas amontoadas. O cacarejar repetiu-se e Nuno percebeu que estava no sítio certo. Outra caixa retirada e logo ali surgiu uma galinha branca cpomo a neve, que parecia estar no choco e voltou a colocar as caixas mais ou menos como estavam.


Eis que no instante seguinte algo voou para cima da sua cabeça e picava-o. O rapaz sabia quem era e tentou, não afugentá-lo, mas segurá-lo. A luta parecia renhida e o galo não dava tréguas. Sentia que o sangue lhe corria pela cara, mas Nuno não desistiu.


Vendo-se por fim em desvantagem o galo voou o que pode para cima de um monte de lixo e como que aguardou o que o rapaz iria fazer. Nuno passou a mão pela cabeça que veio cheia de sangue.


- És valente, Óscar! Safa que me deixaste a cabeça em sangue. Mas acredita que não te quero fazer mal.


A ave parecia entender o que o jovem estava a dizer. Depois esticou a garganta e cantou agitando ao mesmo tempo as asas.


- Espera que eu já te digo o que vou fazer… Fica aí, toma conta da tua gente – e apontou para o sítio onde estava a galinha, continuando – que eu vou buscar comida para vocês.


Pela primeira vez em algumas semanas Nuno sentia o pulsar da vida dentro de si. Voltou a casa, tratou da cabeça e partiu em busca de mantimentos para os bichos.


Quando de braços carregados regressou ao barracão não deu pelo galo, todavia a galinha mantinha-se no choco. Lentamente e como tantas vezes fizera na capoeira do avô estendeu a comida à frente da ave e esta logo principiou a debicar o milho partido. Ao lado uma taça velha com água e um monte de palha que colocou mesmo encostada à ave.


Sentiu-se bem no seu gesto e partiu para regressar no dia seguinte e voltar a dar comida à futura mãe. Uma acção que foi repetindo até perceber que os pintos já haviam nascido.


De todas as vezes que Nuno visitou a galinha sentiu que Óscar estava a espiá-lo. Não percebera onde, mas que estaria perto isso tinha a certeza. Certa vez fez uma amálgama de couves bem migadas, ao que acrescentou sêmeas, milho e pão duro. Depois deitou um pouco de água e finalmente levou tudo até ao barracão.


Os pintos, ao invés da galinha e do galo, aproximavam-se de Nuno sem receio e este deu-lhes aquela comida. E ficou uma vez mais a olhar aquela vida que ajudara a nascer. Para no instante seguinte sentir o ar a agitar-se. Percebeu que seria o Óscar e não se mexeu.


O galo veio então poisar no ombro de Nuno. Bem quieto para não o assustar, o jovem sentiu de forma vibrante o vozeirão do galo a cantar.


E sorriu (havia tanto tempo que não sorria!).

Comentários

  1. Olá caro Luís, como habitualmente, gostei muito. Isto de dar palco e voz aos animais, para além de ser um espaço cultural, é uma atitude humanista que destaca e enaltece a relação entre o homem e o animal, dando-lhes voz e promovendo-lhes os seus instintos e necessidades. Parabéns por isso e, curiosamente, por ser hoje o dia dedicado a todas as mães, nada mais melhor do que lembrar que também as galinhas são mães. Grande abraço

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  2. Bom dia caríssimo,

    a ideia da galinha neste dia especial foi apenas uma coincidência. Quanto ao resto só coisas da minha imaginação.~
    Entretanto quando estiver na Margem Sul e vir as janelas abertas toque à campainha pois tenho um novo livro e teria muito gosto em oferecer ao meu amigo.
    Abraço e óptimo Domingo.

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