A versão do Óscar
Vocês podem não acreditar, mas a minha Flauzina era a galinha mais bonita lá da quinta. Quando a vi pela primeira vez, já era assim um rapaz meio espigado, dono de um belo vozeirão e com muita saída entre as cachopas que por ali cirandavam. Só que naquela manhã quando a vi… ui… foi paixão à primeira vista.
Só que ela não estava muito virada cá para o jovem. Preferia um galo pedrês, muito mais velho, com uma crista vermelha enorme e aquela imensa penugem, que quase nos assustava quando abria as asas. Estranhamente desapareceu de um dia para o outro, sem deixar rasto e nunca mais lhe pusemos a vista em cima.
Todos os dias e mais do que uma vez, uma velhota aparecia com sacos e alguidares velhos para distribuir comida por todos nós. Ali naquele enorme espaço vedado por uma rede alta e muito fina, conviviam sem qualquer problema nem bravatas coelhos, patos, gansos, perús, galos e galinhas. De vez em quando aparecia um gato matreiro na esperança de filar algum pinto, mas os gansos davam logo sinal e nunca nenhum felino conseguiu levar algo dali. Noutras noites havia muito reboliço tudo por causa de uma raposa manhosa que por ali também tentava a sua sorte. Os gansos eram os primeiros a dar sinal para logo acorrerem os cães, fazendo com que a raposa fugisse sem ceia.
O estranho foi que um dia a velhota humana deixou de aparecer. E não fosse um vendaval por esses dias ainda lá estaríamos presos ou se calhar mortos. Pois foi… o temporal de chuva e vento foi tão grande que a rede caiu fazendo com que todos fugíssemos da quinta.
Ora nesse dia procurei na confusão da partida a Flauzina e perguntei-lhe se queria ir comigo ao que ela respondeu que sim.
Cada um dos outros partiu para seu lado completamente à nora. Vale a pena confessar que eu a princípio também não sabia se havia de ficar ou partir, mas depois com o sim da Flauzina, pusemo-nos a andar. Só que não segui pelos caminhos mais abertos, escolhendo preferencialmente trilhos fechados com erva alta e também com a probabilidade de encontrar melhor comida.
Quando chegava o fim do dia arranjávamos um lugar mais abrigado e ali dormíamos. De madrugada voltámos ao caminho. Até que ao fim de uns dias encontrei um velho barracão.
Estava a chover, mas lá dentro estava tudo seco. Óptimo local para já… pensei eu! Depois logo se veria, que a vida, mesmo para nós galináceos, é mesmo assim. Quase sem saber e de um momento para o outro perdemos a cabeça…
Andámos por ali uns dias com muita comida e ninguém para nos aborrecer, nem sequer um gato ou um cão esfaimado… Nada! Local perfeito… ainda por cima a Flauzina começou a dar sinais de começar a chocar os ovos.
Todas as manhãs subia para cima de uma madeiras que estavam da parte de fora e toca a acordar a malta em redor. Não sei se acordei algum humano, mas a verdade é que um dia surgiu um homem meio jovem e que devagar entrou no barracão. Depois começou a retirar as caixas onde se acoitava a Flauzina.
Ora foi nesse instante, tentando defender a mãe dos meus ovos que saltei para a cabeça do humano e ferrei-lhe umas bicadas valentes. O tipo bem que me tentava apanhar, mas eu consegui escapar sempre. Finalmente e após muitas bicadas acabou por sair do barracão. Ainda me disse qualquer coisa, todavia eu só desejava é que ele se fosse embora.
Só que, pasmem-se, passado um bom par de horas ele reapareceu com comida e água que colocou à frente de Flauzina que estava cheiinha de fome. Eu vi aquilo á distância e percebi que o jovem tinha bons instintos.
O que aconteceu a seguir explica-se bem… O humano todos os dias vinha ali trazer comida e água. Mas eu jamais apareci não fosse ele cravar-me as unhas.
Mas um dia os meus pintos saíram da casca e para além da mãe viram-no a ele. E nem fugiam já que eles tomaram o humano como um deles.
Certa manhã ele chegou, deixou os mantimentos e ficou a li a olhar os pequerruchos a devorarem a comida que trouxera. Foi por isso que acabei por fazer um ínfimo vôo e aterrei no ombro dele.
O humano nem se mexeu e parece ter gostado.
Que a criatividade esteja contigo por muitos anos!
ResponderEliminarBeijinhos aí para casa
Bom dia José!
ResponderEliminarCriatividade sem limites, não sei como consegues.🤔 Deves ter uma caixa mágica , ondes vais tirando estas preciosidades .Já agora porquê Óscar ?😁
Uma boa semana.
Luisa Faria
ResponderEliminarObrigado. Faz-se o que pode.
Olá Luísa,
ResponderEliminarÓscar já era o nome do galo no episódio anterior.
Tive de manter.
Boa semana.
(Já começaste a ler o livro?)
Sim eu sei.Já tinha lido a outra versão por isso mesmo , porquê Óscar?
ResponderEliminarJá comecei a ler o teu livro.
E logo fiquei fascinada com os Cinco sentidos. Adoro a descrição ,os pormenores de uma autenticidade tal que consegui passar para dentro da narrativa .
A natureza, os animais, sons e cheiros entre outros, uma simbiose perfeita. Muito bonito.
Li algures que "Quem escreve um livro,cria um castelo,e quem o lê ,mora nele" foi o que senti.
Isto ainda é só o princípio
Uma boa semana
Sim eu sei.Já tinha lido a outra versão por isso mesmo , porquê Óscar?
ResponderEliminarJá comecei a ler o teu livro.
E logo fiquei fascinada com os Cinco sentidos. Adoro a descrição ,os pormenores de uma autenticidade tal que consegui passar para dentro da narrativa .
A natureza, os animais, sons e cheiros entre outros, uma simbiose perfeita. Muito bonito.
Li algures que "Quem escreve um livro,cria um castelo,e quem o lê ,mora nele" foi o que senti.
Isto ainda é só o princípio
Uma boa semana
Luísa Faria.
Obrigado Luísa.
ResponderEliminarNão conhecia essa definição, mas está bem apanhada.
Espero que continues a gostar.
Ficas a saber que há no livro diversas estórias baseadas em factos reais. Logo aa segunda "Pão e água" foi o meu pai. Depois há outras.
Bis, bis, bis!
ResponderEliminarAcontece-me taaaaaaaaaaaaaaaaanta vez isto que nem imaginas!
Estou a escrever uma estória com um grilo. Ficas incumbida de me arranjar um nome, faxavor.
Estou a falar a sério!
Sinceramente não sei o que fiz para
ResponderEliminaraparecer em duplicado.
Escolher um nome para o sr. Grilo, teu novo personagem isso é uma grande responsabilidade.Eu nem conheço o Sr. E se ele não gosta?
Vou pensar.
Luísa Faria.
Ok. Fico à espera!
ResponderEliminarBoa tarde, Zé da Xã
ResponderEliminarAinda não tive a oportunidade de retomar a leitura do "Pela Noite Dentro", mas gostei muito de ler estes seus dois últimos contos...
Há quem diga que não há acasos, mas eu sou uma daquelas pessoas que acreditam nos acasos e se deliciam quando eles são curiosamente divertidos, como é o caso deste seu galaró que me fez lembrar um momento recente que passou de aborrecidíssimo a muito, muito divertido. Estava eu, havia muuuuito tempo, frente à porta do hospital a aguardar a chegada da viatura dos bombeiros que me traria de volta a casa quando me decidi aventurar a ir, sempre bem agarrada ao meu andarilho com rodas, até à rede que separa o hospital do jardim do Instituto de Higiene e Medicina Tropical e, qual não é o meu espanto quando vejo o galito mais bonito que já vira em toda a minha vida. Deixei de poder cantar porque perdi toda a beleza da minha voz e não consigo assobiar porque me arrancaram todos os dentes, mas não resisti a imitar, com surpreendente perfeição, o canto de um galo... e foi aqui que começou a diversão porque o galito, de peito amarelo vivo e cauda negra como o carvão, acordou da sua aparente meditação, enfunou tudo quanto era pena, avançou uns metros e, claramente, desafiou-me lançando um altíssimos e agudo cocoricoooooooó. Daí em diante, nem dei pelo passar do tempo, ora lhe respondia com o meu melhor cocoricó, ora imitava o cacarejar de uma galinha. Fosse qual fosse o som que eu imitisse, o galito enfunava as penas e, invariavelmente, respondia-me. Penso que apesar de pequenote, o maroto me teria atacado se não fosse haver entre nós uma rede metálica...
Bem, só lhe digo que encontrei maneira de tornar menos pesadas e cinzentas as horas que constantemente passo naquele hospital. E, em sua honra, passarei a chamar Óscar ao galito que mora nos jardins do I.H.M.T.
Um abraço
Ahahahahahahahahahah!
ResponderEliminarDesculpe Maria João, mas não pude evitar uma salutar gargalhada. No fundo são estes singelos eventos que temperam a nossa vida.
Eu fico muito honrado por escolher o nome deste galito que eu inventei. Não sei é se a ave ficará honrada por esse baptismo.
Agora estou a escrever sobre um grilo para logo a seguir vir uma lagartixa de nome Clotilde!
Venham o grilo e a lagartixa Clotilde, que eu espero bem ainda poder ler as suas aventuras, José da Xã.
ResponderEliminarQuanto ao "meu" galito, nunca cheguei a perceber bem se ele me queria assustar ou fazer-me a corte, rsrsrsrs... é que eu, modéstia à parte, cacarejo magnificamente
E, a propósito da sua lagartixa, já tive cá em casa uma osga a que dei o nome de Justina. Infelizmente era ainda jovem e aventureira, não fixou residência e partiu sem um adeus ao fim de poucas semanas...
Um abraço
Maria João,
ResponderEliminarpermita-me um resposta assim:
Serei de lagartixa
Amigo sem problema.
Longe de uma rixa
Por causa d'uma dama.
Mas por favor... osga não,
Bicho que nunca gostei
Sei gostarem do Verão,
Que eu sempre adorei.
Manias estas minhas
de não gostar de osgas.
São ideias comezinhas
Antes as chatas pulgas.
Resto de óptima tarde!
Ai, de pulgas eu não gosto
ResponderEliminarQue sugam o sangue à gente,
Como os mosquitos*. Aposto
Contra eles, com repelente
*
Mas uma osguinha, senhor,
Em vez de mal, faz-nos bem...
De mosquitos come um ror
E de mosquinhas, também...
*
Nem mesmo as malvadas traças
Vão conseguindo escapar-lhe:
Eu, à osga, dou mil graças
E mais mil inda hei-de dar-lhe!
*
Resto de óptima tarde também para si, amigo. Eu deveria estar agora no centro de saúde ou no hospital, mas estou tão cansada... Enfim, se não melhorar, talvez vá amanhã...
Abraço
Boa noite Maria João,
ResponderEliminarnão necessita responder e espero e desejo as suas francas melhoras.
Um abraço de amizade.
Sincero!
Obrigada e outro abraço para si, amigo José da Xã. Sincero, pois claro, que eu sou de dar abraços a torto e a direito, mas... só aos que mo merecem
ResponderEliminar