A versão do Léo!

Por muito que me custe assumir a verdade é que a minha vida está por um fio. Falta apenas saber o seu tamanho, que tanto pode ser uma hora, um dia, uma semana ou quem sabe até um mês.


A meu lado está sempre que pode o meu amigo Leonardo. Um rapaz sensível, astuto e amigo do seu amigo. Não sei se sabem quem é… mas posso contar a minha estória com ele. Querem? Então lá vai.


No entanto e para tal devo principiar pelas minhas origens bem humildes já que nasci num barraco velho, a ameaçar ruir. Mas foi o único local que a minha mãe encontrou para me abrigar mais os meus manos.


Na minha ninhada éramos seis e cinco nasceram iguaizinhos à minha mãe, uma lindíssima perdigueira abandonada ou perdida, nunca o saberei, por um caçador humano imbecil ou inconsciente. Daí eu ter sido o cão mais feio o que equivale dizer que rapidamente me fiz à vida neste mundo cheio do animal homem que é um ser muito contraditório. É verdade, pois tanto demonstrou por mim ternura e compaixão, como ódio e repulsa sem que eu tenha contribuído para tal.


O curioso do meu relacionamento com o animal humano é que sempre entendi a sua linguagem vocal, mas mais que tudo conheci sempre a sua reacção através dos odores que exalava e que provavelmente ele nem percebia. Ah pois é… o homem exala cheiros diferentes conquanto as suas sensações. Quando está feliz, contente transmite um cheiro quase adocicado e muito agradável, mas se estiver triste ou zangado desenvolve um odor ácido e desagradável. Mas pior, pior é quando tem medo… Ui aí o animal humano destila um veneno, perante o qual eu demonstrei o meu desagrado.


Andei muito tempo sozinho, fugindo de quem me queria mal, mas aproximei-me sempre de quem se abeirava de mim para me brindar com uma carícia. Eheheheheh! Eram tãããããããão boas aquelas festas.


Sobrevivi porque sempre fui… mais astuto que muitos dos meus companheiros de rua. Não que enganasse alguém, mas em vez de andar rodeado de outros cães preferi estar sozinho.


Certa tarde encontrei um cantinho que não sendo muito quente pelo menos não apanhava chuva. Tinha comido qualquer coisa e adormeci naquele canto tendo como enxerga um pedaço de cartão que por ali estava.


Ao fim de um bom bocado fui acordado por duas fêmeas humanas que se entretinha a falar uma com a outra. Nem imagino o que teriam para dizer, mas pronto acordaram-me obrigando-me a sair dali.


Uma delas segurava uma espécie de aparelho que continha um animal humano pequeno. Passei à beira dele e quase sem querer cheirei-o. O pequeno debitou aquele odor alegre que tão bem conhecia. Sem muito que fazer acabei por ficar ali a brincar com aquela cria de humano.


A verdade é que passado pouco tempo uma das fêmeas afagava-me e pediu-me que fosse com ela. O cheiro era agradável e não me fiz rogado até porque o humano mais pequeno parecia estar muito contente comigo.


Fui bem recebido por todos e acabei por marcar convenientemente o meu território. A fêmea é que parece não ter gostado, mas depressa percebeu o que fizera. Entretanto principiaram a chamar-se de Léo.


Havia na casa outra cria, um pedaço maior a quem chamavam de Maria Ana e um animal humano crescido e barbudo. Todos me aceitaram e trataram bem, como se eu fosse um deles.


O Leonardo cresceu e desenvolveu-se. Principiou a falar, a andar e a fazer muitas outras coisas que o animal homem faz. À noite eu dormia com o pequeno humano na sua cama e sempre percebi que ele adorava a minha companhia.


Um dia levaram-me a um lugar esquisito onde pairava uma mistura de muitos cheiros. Alguns conhecidos como era de outros companheiros, mas havia outros simplesmente horríveis que imaginei serem daqueles peludos ranhosos e ingratos. Porém não vi nenhum…


Nunca mais tive fome e a minha relação com estes humanos era perfeita. Também era verdade que ninguém se aproximava deles sem que eu autorizasse e nunca foi preciso uma daquelas coisas que prendiam outros companheiros meus.


Provavelmente nunca souberam o que foi ser pobre e faminto.


Esta é assim a estória da minha vida. Uma vida que principiou na rua e que me levaria a estes animais humanos. Durante anos cuidei deles, especialmente dos mais pequenos. Agora é Leonardo que todas as noites se deita a meu lado no chão enfiando-se dentro de um saco, já que eu não tenho forças para subir e descer da sua cama.


Logo ou amanhã não sei como estarei, mas aconteça o que acontecer tenho de reconhecer que os humanos têm razão quando dizem que nada acontece por acaso.

Comentários

  1. Boa noite, Zé da Xã!

    Cá temos, então, a estória de Leo, o cão.

    Não sei onde foi buscar o Xavier, a menos que esse seja o seu nome verdadeiro e que o que usa para assinar seja um pseudónimo. Será? De qualquer forma gostei muito da versão narrada pelo canito. É uma bela estória, comum á de muitos outros cães vadios que um dia acabam por encontrar um humano disposto a partilhar o seu tecto com eles, mas com uma pequena/grande diferença: nem todos os cachorros têm o privilégio de ajudar uma cria humana a sair de uma postura autista. O Leo conseguiu em pouco tempo aquilo que nenhum humano conseguira até então e isso deveria conferir-lhe - e conferiu! - o direito a ter a sua estória narrada na primeira pessoa.

    Quanto a mim, acredito que há milhões e milhões de coisas que acontecem por acaso, mas quem sou eu para contradizer um canito que conseguiu o que conseguiu?

    Parabéns e um abraço!

    PS . Estive fora todo o dia, fui almoçar com uma amiga, uma das suas filhas, o seu companheiro e uma outra amiga.

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  2. Maria João,

    Fico contente por ter passado uma tarde boa.
    Cá por casa os quatros netos e muita algazarra. Mas foi bom.
    Quanto ao Xavier e sua estória tenho de esclarecer o seguinte:
    Três verdades.
    - a tia Rosa existiu e era cozinheira na avenida de Roma (era irmã da minha avó Joana):
    - havia na casa um gato siamês cujo nome não me lembro:
    - o rapazito seria eu mas quando lá fui uma única vez ver a tia teria 4/5 anos

    Quanto ao resta da estória uma pura invenção... Todinha! Até o nome Xavier (sinceramente parece-me um belo nome para um felino!!!)

    Quanto ao Léo... tudo inventado, se bem que a minha mãe tenha um cão parecido com o Léo, mas não é feio.
    Mas na relação entre animais e crianças há uma enormíssima evolução. E os cães têm mesmo cheiro para as pessoas.
    Então o sentimento de medo é muito pouco apreciado pelos cães.
    Agora vou pensar noutro animal... quiçá uma galinha, ou um coelho! Logo verei!
    Uma noite descansada.

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  3. Ahhhh!!! È verdade, Zé da Xã, agora já me lembro muito bem do gato Xavier... Tem de desculpar-me, que o raio da memória já me começa a pregar partidas.... Pois, o xavier foi o gato que "voou" janela afora atrás da petinga, ou do carapauzinho, eheheheh...

    Sim, eu sei muito bem quão apurado é o olfacto de um cão. Agora vai-se rir de mim, mas eu não me importo:
    Sabe aquela expressão "Não é nariz de santo" que se utiliza para dizer que não é uma coisa que exija muito trabalho e correcção? Pois eu só há poucos meses aprendi a dizê-la correctamente. Passei 70 primaveras a dizer: "Não se preocupe muito com isso que não é nariz de cão..." Achava eu que o faro de um cão era absolutamente infalível e, como tal, nunca me apercebi de que estava a dizer algo que não fazia sentido e, diga-se, também nunca houve uma alma caridosa que me corrigisse...

    Noite serena, amigo

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  4. Olá boa noite Maria João,

    neste dia escrevi e publiquei um conto com outro animal. Espero que goste.
    Quanto aos faros dizem que os gatos é melhor que dos cães...
    Bom descanso e bom fim de semana.

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  5. Boa noite, José da Xã!

    Sim, é verdade que o faro dos gatos é ainda mais apurado que o dos cães, mas não há quem tire disso utilidade pois é impossível ensinar um gato a parar e a ficar a apontar com o focinho para o local onde a caça se encontra: um gato só faz aquilo que quer e quando muito bem o entende. Pode-se conquistar o amor de um gato, mas não se pode transformar um gato num servidor dos nossos desejos...

    Já vou ver que animal aqui nos traz

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