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A mostrar mensagens de abril, 2025

A versão do Jeremias

Acontece-me cada uma que, por vezes, só me apetece auto imolar pelo fogo. O que vos vou relatar foi um evento idiota e jamais deveria ter acontecido e não teve piores consequências porque alguém cuidou ao pensar em mim. De outra forma agora já estaria na barriga de algum estúpido gato e de uma cobra matreira. Sou um pequeno canário nascido com mais três miúdas numa gaiola, nem sei onde! No entanto nunca me faltou nada: o calor da minha mãe, a animação das manas, comida e água. Ora desde muito cedo mostrei mais genica que qualquer das minhas irmãs. Mas calculo, depois do que me aconteceu, que elas teriam sido mais inteligentes que eu ou, no mínimo, mais perspicazes. Por causa da minha hiperactividade a minha mãe um dia avisou-me: tu vais dar-te mal com essa precipitação . Mal sabia ela ou melhor ela sabia, eu é que não! Cresci e principiei a treinar a minha voz. De tal maneira o fiz e com tanto sucesso que num instante estava noutra casa e noutra gaiola… sozinho. Com tudo do bom e do me...

O canário

Desde muito pequena que os pais de Margarida perceberam que a filha não era como as outras meninas. Enquanto as crianças da idade dela queriam ver desenhos animados e demais distrações, Guidinha preferia ver os bichos que o avô, nas duas ruas abaixo, tinha na enorme horta. Não interessava se eram caracóis (os preferidos!), lesmas, minhocas ou formigas. Adorava também as lagartixas e olhava para as osgas coladas ao tecto do barracão com imensa ternura. Depois os pássaros que ela insistia em tentar dar de comer espalhando sementes pelo chão que pedia aos pais para comprarem. Certo dia Margarida olhando para o canário, amarelo e excelente cantador, da avó Olímpia perguntou-lhe: - Vó’, porque é que este passarinho está preso numa gaiola? - Ó querida este pássaro é um canário. Chamei-lhe Jeremias e canta tãããããão bem. Ora como nasceu numa gaiola, se o deixasse sair iria ter muita dificuldade em se alimentar lá fora e provavelmente morreria muito depressa. - Mas eu não gosto de ver o passari...

A versão do Léo!

Por muito que me custe assumir a verdade é que a minha vida está por um fio. Falta apenas saber o seu tamanho, que tanto pode ser uma hora, um dia, uma semana ou quem sabe até um mês. A meu lado está sempre que pode o meu amigo Leonardo. Um rapaz sensível, astuto e amigo do seu amigo. Não sei se sabem quem é… mas posso contar a minha estória com ele. Querem? Então lá vai. No entanto e para tal devo principiar pelas minhas origens bem humildes já que nasci num barraco velho, a ameaçar ruir. Mas foi o único local que a minha mãe encontrou para me abrigar mais os meus manos. Na minha ninhada éramos seis e cinco nasceram iguaizinhos à minha mãe, uma lindíssima perdigueira abandonada ou perdida, nunca o saberei, por um caçador humano imbecil ou inconsciente. Daí eu ter sido o cão mais feio o que equivale dizer que rapidamente me fiz à vida neste mundo cheio do animal homem que é um ser muito contraditório. É verdade, pois tanto demonstrou por mim ternura e compaixão, como ódio e repulsa sem...

O cão

Para Ana Maria a vida era uma caixa de surpresas. Quase sem ter bem noção no que se estava a meter viu-se aos 30 anos com uma menina nos braços. Desejada é certo, mas tornara-se uma aventura criar uma criança que lhe enchia as medidas. Entretanto o pai da menina e seu companheiro desfazia-se para a pequena Maria Ana, agora com cinco anos. A relação entre ambos nascera serena e muito comprometida sem que alguma vez tivessem pensado em casar. Ana considerava que o papel não traria qualquer incremento à relação. Ele concordou! Dois anos depois da filha, nasceu Leonardo. Um bebé sem qualquer problema a não ser… lentidão. A verdade é que o pequeno rapaz não se desenvolvia, nem se despachava a andar, a falar, a tornar-se mais independente. Por causa dele Ana Maria acabou por abandonar o trabalho como consultora e entregou-se à maternidade de alma e coração. Percorreu diferentes hospitais e um sem números de médicos especialistas para perceber a causa daquele atraso do filho. Ou na pior das h...

A versão do Xavier!

A primeira coisa que tenho a dizer é que detesto o animal homem. Retirando algumas honrosas excepções o humano é um bicho em quem não consigo confiar. De todo. Porque cada um pensa de maneira diferente, enquanto nós, os gatos, temos mais ou menos a mesma ideia: comer, dormir e de vez em quando uma festita, mas não muito longa. A minha memória não me leva à infância, mas recordo-me de ter chegado a esta casa e ser recebido por uma senhora anafada mas simpática, que me fez uma quantidade de festas. Sinceramente gostei do que me fez, mas não foi por isso que sou amiga dela. Pois, nem quero ser! Reconheço que sou um oportunista! É verdade! E ao invés do que vão por aí dizendo não sou um animal doméstico. Convivo com o homem por puro interesse. Geralmente são as fêmeas humanas que gostam mais de mim ou de nós, que os machos, sinceramente tanto se me dá que seja um ou seja outro, desde que não me maltratem e não me faltem com a comida! Neste instante estou pachorrentamente sentado nesta pare...

O gato

Há muitos, muitos anos, era eu um terrível gaiato quando conheci uma tia-avó paterna cozinheira de profissão numa família abastada e que vivia num volumoso segundo andar na Avenida de Roma, em Lisboa. Daquela minha parente lembro-me bem de ser gorda, quase redonda muito próxima de um boneco que uma marca de pneus imortalizou. Tinha uma queda especial para a cozinha de tal maneira que nunca tinha necessidade de provar um prato ou a sopa para saber se estava salgada ou insossa. Bastava, para tal, passar a mão sapuda pelo vapor e levá-la ao nariz para perceber como estaria o tempero. A maioria do tempo a minha tia passava-o entre aquelas quatro paredes forradas a azulejo branco. Quatro não, apenas três já que havia uma que fora substituída por uma enorme marquise. Apenas a um metro do chão estava o que restava da parede... depois para cima uma vitrine imensa. Quando lá entrei a primeira vez, pela mão dos meus pais, a tia Rosa sorriu naquele seu ar simpático que só os gordos sabem ter e de...