O fumador #3

Episódio 2


Valdemar não gostou nada da forma como a enfermeira se referiu ao defunto, no entanto deu para perceber que não seria pessoa simpática e muito menos querida. De súbito perguntou ao médico que consigo descia as escadas:


- Dr. conseguiu encontrar alguma identificação do tipo? – e lançou a cabeça para o lado apontando para a vítima. 


Não escutou qualquer resposta. Já na rua ambos retiraram as máscaras e respiraram com gosto o ar poluído da cidade.


- Nunca pensei gostar tanto de respirar ar poluído… Safa que aquilo estava agreste.


O médico provavelmente habituado a este género de odores apenas respondeu à primeira questão:


- Ninguém encontrou qualquer identificação. Nem um recibo de luz, água, qualquer coisa… E agora posso mandar levar o corpo?


- Sim, sim. Talvez passe mais tarde pela morgue.


- Se passar leva logo o tal anel!


- Isso, obrigado.


Um cumprimento simples e cada um seguiu o seu caminho não sem antes Valdemar avisar os elementos do INEM para levarem o corpo para a morgue.


Pegou então na bicicleta e estava para atravessar a fita delimitadora quando ouviu uma voz.


- Senhor, senhor…


O Inspector levantou a cabeça e percebeu que uma jovem agitava o braço para si. Aproximou-se já dos poucos mirones e questionou:


- É comigo?


- Não sei se é consigo… O senhor é polícia?


- Sou o inspector encarregue deste caso. Porquê?


- Sabe o que aconteceu ali?


- Sei mas não posso dizer… como imagina!


- É que ali vive um tio meu… de quem não sei nada há umas semanas…


Valdemar abriu os olhos e pegando no braço da jovem puxou-a para o seu lado.


- Em que andar mora?


- Mora no segundo esquerdo…


O inspector levou a mão à cabeça, olhou em redor em buscar de um sítio para se sentarem e encontrando um banco ali ficaram ambos.


- Encontrámos um corpo em avançado estado de decomposição nesse andar. Seria o seu tio?


- Oh não! – levou as mãos à cara e principiou a chorar.


Valdemar tentou amenizar a situação.


- Pode não ser ele!


- É certamente. Ele só se dava comigo pois era eu que lhe pagava as contas e lhe dava dinheiro para ele comprar o que necessitava. Como terá acontecido?


- Não sabemos menina… E como é que ele se chamava?


- Armelindo Lobato!


- Hummm! – pegou numa caneta e num papel e escreveu o nome.


Para logo a seguir insistir:


- Que idade teria?


- Praí uns 55 a 60 anos… Não sei bem… Só perguntando à minha mãe.


Agora seria a pergunta para a qual já sabia a resposta:


- Ele teria inimigos?


- Nem amigos ele tinha quanto mais inimigos!


Levantou uma nova questão para a qual também sabia a resposta, mas necessitava de uma confirmação:


- Sabe se ele fumava?


- Fumava e muito… Quase todo o dinheiro que lhe dava era para tabaco e bebida… Era um desgraçado. Tenho tanta pena dele.


- Sabe se era casado?


- Casado? – deu uma gargalhada semi triste. Devolveu:


- Quem gostaria de um homem assim?


- Pois não sei… A verdade é que tinha uma aliança no dedo!


- Uma aliança? Então não é o meu tio, com toda acerteza.


Valdemar passou a mão pela cabeça e vendo o corpo a entrar na ambulância sugeriu:


- Será capaz de o identificar?


A jovem pegou no lenço de papel, assoou-se, respirou fundo e aceitou o desafio:


- Claro! Mas creio que não será ele…


- Como é que tem a certeza disso?


Novo suspiro:


- Porque… porque… - gaguejou – o meu tio era homossexual…

Comentários

  1. bom dia, querido amigo.
    que bom que voltaste aos contos! o link para o capítulo 2 dá erro. vou já ler os capítulos anteriores. outra coisa, os homossexuais também usam aliança mesmo antes de poderem casar oficialmente. beijo grande e parabéns pela criatividade feliz dia

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  2. Viva amiga Ana,

    a ligação está emendada. Quanto à aliança... o futuro é incerto!
    A ver o que sai, mas poderá ser a chave do mistério. Ou talvez não!
    Obrigado pela visita!

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