O cego!

A madrugada abriu-se com um tapete cinza e uma chuva miudinha que mais se assemelhava a pó muito húmido. No casario apenas a velha padaria comunitária parecia estar acordada dando vazão aos pães e broas. Alguns bolos de leite também!


Um cão ladrou, logo outro devolveu para mais longe outro se intrometer no diálogo canino. Uma gata encostada à parede corria, logo perseguida pelas pequenas e indefesas crias. Diversos galos cantaram e toda a aldeia parecia finalmente acordar para mais um dia de trabalhos e canseiras.


A manhã acordara por fim mas ainda assaz fria, molhada e assolada por um vento que principiava a soprar. No empedrado das ruas podiam-se escutar passos pesados de quem buscava novas tarefas. Na velha igreja tocou o vetusto, mas competente relógio, as horas da vida aldeã que ora se abria para uma normal azáfama.


Ao longe um badalo suou semelhante aos que muitos rebanhos usavam. Na tasca do Ti’Acácio os homens já agarrados a copos de vinho ou aguardente iam discutindo assuntos banais. O badalo repetiu o som para logo um cliente entrar na taberna e anunciar quase com pompa e circunstância:


- Vem aí o cego!


- Outra vez? Ainda há pouco tempo por aqui passou.


- Agora faz a volta de regresso… a ver se abicha mais algum!


Entretanto, da igreja veio o toque a chamar os fiéis para a próxima missa. Pelas ruas estreitas e frias da aldeia vultos negros, encolhidos sob a chuva mudinha encaminhavam-se para mais um culto. A maioria eram idosas, viúvas. Benziam-se à entrada e à saída de igreja, juntavam as mãos em oração, faziam-se de beatas, para ali no adro e após ter terminado a eucaristia desancarem nas costas das comadres.


Assim que o padre abriu a porta do templo logo se sentou o cego num dos degraus e de mão estendida esmolava uma pobre moeda.


- Ajudai o ceguinho, por caridade! – apelava o invisual.


Devagarinho as moedas iam tinindo no fundo da caixa, para ainda antes da missa terminar o pedinte desaparecer, não fosse alguém arrepender-se…


O cego costumava pernoitar na casa do Ti’Bravo, que normalmente lhe dava comida, enxerga e algumas moedas. Certo dia o cego ousou quando estava à mesa:


- Se um dia for para os lados do Chão da Mouca pergunte por mim… teria prazer em recebê-lo na minha humilde casa.


O anfitrião achou estranho o convite, mas respondeu a contento:


- Se um dia a minha vida correr para aqueles lados assim farei. Mas creio que tal nunca acontecerá… É demasiado longe.


A Feira de São Bartolomeu era o centro da região por aqueles dias de festa. Ali chegavam muitos negociantes de cereais, gado, mantas, muitas alfaias e até calçado ou roupas. Já para não falar das  tendas erguidas onde se vendiam vinho e petiscos… Arribava gente de todo o lado, uns a pé outros montados nas suas bestas ou em carroças. Durante uma mão cheia de dias por ali tudo era palco de negócio.


Júlio Bravo fora um dos muitos forasteiros a aparecer na Feira. Adorava calcorrear por entre tendas presas ou redis de gado. Quem o conhecia sabiam-no homem honrado. Muito duro a negociar, quando estendia a mão o negócio não se escangalharia.


Havia algum tempo que o abastado lavrador andava em busca de novas sementes para lançar à terra e daí procurar cereal novo, especialmente pão. Mirando aqui e ali, enfiando a mão nos sacos cheios, estranhava que o centeio fosse todo igual ao seu! Até que encontrou algo diferente. Olhou o cereal, gostou do que viu e acima de tudo sento«iu nas mãos calejadas e experientes e negociou aquele regateando cada quilo e cada tostão. Para finalmente chegar a um acordo. Todavia havia um problema e que se prendia com o cereal pois este estava em casa do vendedor e assim o Ti’Bravo teve de partir para terras da charneca e onde nunca fora. Dois dias de jornada para cada lado seria o que lhe estaria reservado.


Já no regresso e com os animais carregados de boa semente para lançar à terra fecunda desviou-se para ir pernoitar numa aldeia. À entrada do povoado leu: Chão da Mouca!


- Olha… esta não é a aldeia do cego?


Desceu o caminho de terra batida e foi dar ao largo da igreja. A tarde descia já e Bravo entrou na capela pequena. Sentou-se e aguardou pacientemente. O pároco surgiu pouco depois e sentou-se ao lado do forasteiro.


- Boa tarde viajante. A que devo a honra desta visita tardia.


- A sua bênção Padre!


- Deus te abençoe meu filho! – o sinal da cruz desenhado na frente do homem.


- Preciso de descansar. Eu e os meus animais. O senhor deve conhecer alguém que me ajude…


- Claro! A aldeia está cheia de gente boa, mas o João é o melhor homem para tudo isso… Venha comigo!


Saíram ambos e encaminharam-se para o fim da rua que seguia ao lado da capela. A Lua surgia já no firmamento semi-obscurecido. Um enorme portão ferrugento parecia intimidar os intrusos, assim como o ladrar dos cães. Mas o padre empurrou o portão e entrou. Uma alameda ladeada por araucárias acabava na frente de uma casa enorme de dois pisos. O alerta fora dado pelos cães e na varanda surgiu uma mulher magra limpando as mãos ao avental.


- Quem vem aí?


- Ó Etelvina não te apoquentes… sou o padre Horácio com um viajante que necessita guarida por uma noite. Consegues?


A mulher ainda jovem desceu as escadas, beijou as mãos ao Padre e respondeu com alegria:


- Claro senhor Prior. O meu marido João ficará muito contente. Venham, subam!


Escalaram devagar a escadaria de pedra e entraram numa casa enorme, onde nada parecia faltar. Depois:


- Desculpe a desarrumação, mas os miúdos são traquinas.


- Não se preocupe minha senhora. Eu é que peço desculpa pelo incómodo… - atalhou o viajante.


Uma voz pareceu vir do fundo da sala e perguntou:


- Quem está aí?


De uma sala lateral surgiu João. Segurava um pau da mão e que não era nem mais nem menos que uma bengala com a qual tentava adivinhar o caminho. Bravo levou a mão à boca num espanto e voltou a olhar a casa.


- João, sou eu o Prior… e mais um viajante que pretende descansar por uma noite.


- Seja bem vindo forasteiro à minha humilde casa! Sou o João um pobre cego…


- Sei bem quem é… João!


Atento o cego ergueu a cabeça. Por fim disse:


- Eu conheço esta voz! Deixa-me pensar… Já sei Bravo, é o ti’Bravo!


- Eu mesmo! Que grande coincidência!


E um abraço juntou-os.


Entretanto o padre olhava para ambos:


- Mas já se conheciam?


João adiantou-se:


- Claro… é um dos meus melhores clientes e até já dormi na casa dele diversas vezes. Agora é a minha vez de retribuir…


Bravo nada disse. Percebeu logo ali que desconheciam a sua vida de pedinte. Ajudou à mentira:


- Ora bons fornecedores originam bons clientes!


- É isso mesmo! Mas sentemo-nos… A minha mulher irá já preparar algo para comer. Deve estar esfomeado.


- Obrigado João, mas comi ante de virar para aqui. Os animais é que devem ter fome. Se tiver um lugar onde possam pastar…


- Melhor que isso… Ficam no palheiro e será dado uma belíssima ração.


Acomodaram-se todos como podiam e por ali ficaram a conversar. João nunca referiu o que fazia, Bravo muito menos e o Padre falava apenas da sua vida na aldeia.


Aposentos arranjados, animais livres da pesada carga foram todos descansar. Todavia Bravo teve dificuldade em adormecer. Havia ali muita coisa mal explicada e intangível. Custava perceber como um homem com uma casa daquelas andava de terra em terra, às portas das igrejas a mendigar uma moeda.


Na manhã seguinte e não obstante não ter dormido muito bem Bravo levantou-se logo que escutou o primeiro galo a cantar. Lavou-se, vestiu-se e finalmente desceu ao andar de baixo onde fora a sala de refeição na noite anterior.


Daquilo que parecia ser a cozinha escutou barulho e para lá se dirigiu devagar. Etelvina parecia afadigada de volta dos tachos:


- Bom dia Dona Etelvina!


A dona da casa deu um salto assustada para logo se recompor. Por fim cumprimentou:


- Bom dia senhor Bravo. Tão cedo!


- Pois tenho de ir até casa que ainda fica longe.


- E não come?


- Um pedaço de pão e queijo é suficiente.


- Só?


- Chega! Mas obrigado! Tenho mesmo de ir…


- Já vai amigo Bravo?


Era João que perguntava ao aparecer na cozinha.


- Tenho de ir… a sério.


- A minha mulher vai arranjar algo para o caminho…


No momento seguinte Etelvina entregou um bornal ao viajante dizendo:


- Aqui tem… espero que goste.


- Gostarei com toda a certeza. Obrigado pela hospitalidade. Agora vou carregar os animais e vou indo.


- Os animais já estão carregados! – disse a mulher.


Admirado com tanta eficiência Bravo devolveu:


- Não era necessário incomodar-se… Mas obrigado!


Finalmente as despedidas.


Júlio já estava na rua quase a atravessar o grosso portão quando ouviu o seu nome. Parou e olhou para trás vendo a mulher que corria para si.


- Ajude-me, ajude-nos!


- O que aconteceu?


- Por favor fale como meu marido… convença-o… ameace-o… faça qualquer coisa…


Atemorizado por aquele insistente pedido Bravo questionou:


- O que se passa dona Etelvina. Diga-me!


- O meu marido… o João…


- Siiiiiim…


Ela respirou fundo, enxugou as lágrimas ao avental e por fim declarou:


- Convença-o a não cegar os filhos.

Comentários

  1. Sinistroooo!!!
    Nada sabemos do que se passa detrás das portas das casas nem dos olhos de quem vê e não vê
    Desejaria noite tranquila para ti, mas mais o farei para mim que esta história é de arrepiar e muito pensar. Quais seriam os motivos do João? Muito mistério e também uma pitada de...terror
    Boa semana! Beijinhos 🐦

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  2. Há uma ideia por detras desta estória que se prende com o proprio cego!
    A ver se descobres!

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