Hoje convido eu! #19

Desta vez convidei o Vagueando do blogue Generalidades para me desafiar. Respondeu rapidamente ao meu convite apresentando a palavra: anemia.


Ui pensei eu... E agora? Agora... é só lerem o que segue. Não sei se corresponde ao solicitado, mas como aqui não há regras... Mas tive de puxar pelo bestunto!


 


Entrou na estrada de terra batida bem devagar e foi percorrendo o caminho até ao largo espaçoso que servia de estacionamento. Parou o veículo, desligou e saiu.


O vento soprava do lado do mar que ele podia ver na sua anilada plenitude. Avançou uns passos até à cerca de madeira para perceber como no fundo da falésia o mar sovava as rochas negras. A espuma branca desvanecia-se com outra onda, mas aquele vaivém tinha a sua beleza.


Aspirou o ar marítimo para depois retirar do bolso do casaco um envelope donde descobriu um papel. Desdobrou-o, foi lendo para de vez em quando olhar o horizonte.


Dobrou a carta e enfiou-a no bolso do casaco. Depois virou-se e reparou que bem encostado ao seu carro encontrava-se alguém. Todos os pensamentos foram desviados para a visita e de forma decidida aproximou-se.


Era um homem e teria mais ou menos a sua idade, vestindo uma roupa ligeira. Tinha o cabelo claro e sorria para ele.


- Bom dia, necessita de alguma coisa?


- Bom dia… Eu não preciso de nada. Talvez o cavalheiro…


- Eu? Que eu me lembre… não nos conhecemos.


- Verdade! Mas independentemente de não nos conhecermos até este momento eu sei tudo sobre si… Rigorosamente tudo.


Olhou em redor à espera de perceber alguém conhecido e vendo-se sozinho com aquele personagem, desconfiou.


- Há aqui algo que não entendo. Como pode saber algo sobre mim se nunca nos cruzámos.


- Oiça... vou direito ao assunto. Esse papel que carrega no bolso é uma choruda dívida que tem para uma Já lhe entidade financeira e que o estará a ameaçar!


- Mas… mas… como sabe?


- Já lhe disse... sei tudo! Sei também que está na dúvida entre assumir o problema definitivamente ou acabar de vez com ele atirando-se da falésia…


O outro olhou para a paisagem marítima e devolveu:


- Não sabe nada de mim. Está somente a especular… Ainda gostaria de saber qual o seu intuito nesta farsa.


A visita encostou-se ainda mais ao carro e olhando para o dono acrescentou sem dar qualquer resposta, continuou:


- Não interessa saber como chegou a este ponto da sua vida. O seu passado, se quiser, escreva-o num caderno para que um dia recorde como foi… Agora oiça-me como deve ser.


O outro esbracejou, mas nada disse.


- A sua vida começou como começam tantas doenças, por exemplo, de sangue: uma ligeira anemia! É como esta sua! Encontra-se anémico e economicamente debilitado.


O outro abanava a cabeço num consentimento.


- No fundo você estudou na universidade, teve fantásticos professores, mas não aprendeu nada, sabe? É o mal das nossas escolas superiores. Bom… mas este é outro problema. Entretanto há que pensar em resolver a situação…


- Mas quem é você para me dizer estas coisas? Que mais sabe da minha vida? Quem lhe pagou para isto?


- Calma, calma, calma… Antes de si muitos vieram aqui despedir-se da vida… mas eu que ando sempre por perto acabo por os dissuadir de tal decisão.


- Como é que sabe que estou falido, que devo dinheiro? Explique-me…


- Posso explicar! Porém deixe-me acabar o meu raciocínio… Como disse usei a expressão anemia para classificar a sua situação financeira. Porque é disso que se trata. O caríssimo gasta mais que recebe, paga as dívidas mais antigas criando outras mais recentes… e maiores!


O jovem atormentado baixou-se e tapou a cabeça com ambos os braços num assumido acto de desespero.


- Até parece um antigo primeiro ministro que disse publicamente que as dívidas do país não se pagavam… Mas você vai resolver isso. E já! Por que não posso admitir que um jovem se perca só porque não teve cabeça…


- Desculpe, mas explique-me de uma vez por todas quem é o senhor?


O outro sorriu mostrando uns dentes bem tratados e apontou para uma tabuleta à entrada do parque de estacionamento. O condutor quase correu até chegar ao local.


- Vá, leia em voz alta para eu saber que você percebeu…


- Largo da consciência!


- Ora viu… Tomara eu que muitos dos nossos políticos por aqui parassem. Infelizmente nunca aqui nenhum parou!

Comentários

  1. Infelizmente, muitos políticos, ao meterem a mão na consciência, só encontram a carteira!

    Melhores cumprimentos,
    Manuel Pereira

    ResponderEliminar
  2. Mais um desafio concluído com imaginação e criatividade!

    ResponderEliminar
  3. Mais um excelente desafio!!!
    Beijinhos
    Bom fim de semana!!

    ResponderEliminar
  4. Confesso, na qualidade de desafiante, que o desafio foi superado pela qualidade a efabulação.

    Gostei dessa do Largo da consciência.

    Infelizmente a Anemia que retratou (ao abrigo do desafio) , deve andar a passar pelo Largo das Inconsciência.

    Quem passa neste último Largo? Pois eis o mistério e não é da fé!

    Parabéns.

    ResponderEliminar
  5. Boa tarde José
    Adorei o “Largo da Consciência “.
    Muito bem superado.
    Bjs

    ResponderEliminar
  6. Adoro ficar a sorrir ao ler os teus contos Usaste a palavra-chave não uma, mas duas vezes!
    Gostei muito.
    Quanto mais exercitas a escrita nestes desafios, mais aprimorada fica

    Mas gostei especialmente do "bestunto" pelo qual tiveste de puxar, até hoje só conhecia a cachimónia!
    Bom fim de semana José.

    ResponderEliminar
  7. Boa noite caríssimo Vagueando,

    O seu tema foi complicado de desbloquear na minha cabeça. Mas depois de muito pensar foi o que saiu... Obrigado pelos elogios.
    Forte abraço e bom fim de semana.
    (Quanto ao Largo da Consciência foi uma ideia de última hora).

    ResponderEliminar
  8. Obrigado Maria.
    Entretanto já foste ao teu mail?
    Há lá um convite meu para participares também neste desafio.

    ResponderEliminar
  9. Olá Isa,

    tocaste no ponto principal: quanto mais se escreve... melhor se escrever!
    Quanto ao bestunto... gosto de palavras invulgares ou pouco usadas.
    Bom fim de semana!

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Ao fim de mim

O Bravão e o bravo!

Despedida!