Hoje convido eu! #16

Responsável pelos blogues "Pássaro sem poiso" e "Amar Portugal" a Isa foi também convidada a lançar pistas para a minha escrita. Ora bem esta bloguer desafiou-me com a seguinte frase: querer esquecer é lembrar.


Uma frase fantástica, assumo! Jamais me teria ocorrido algo assim. Todavia ousei escrever isto.


 


Valentim desde muito cedo se destacou dos outros miúdos na escola muito por culpa de uma inteligência e memória acima do normal. Conforme foi avançado na escola mais se notava essa diferença em relação aos restantes colegas de escola. Daí ter sido no secundário uma vítima atroz dos medíocres da escola. Mas havia um que era sempre o mais aguerrido. O Fausto!


Entrou numa faculdade e novamente se evidenciou. De tal forma que quando terminou os estudos universitários foi convidado a leccionar na faculdade. Foi um passo para o Doutoramento que haveria de terminar anos mais tarde com notas excepcionais!


Dono de um forte carisma tornou-se conhecido e reconhecido no país e fora dele. Palestras, aulas noutras universidades faziam o seu mundo, onde se sentia muito bem.


Certo dia apresentou-se numa Conferência como orador principal. No final do certame houve um costumado beberete. Estava Valentim à conversa num grupo quando sentiu um breve toque nas costas. Virou-se e deu de caras com alguém que não via havia muitos anos:


- Joel?


- Sou mesmo… há quanto tempo… Professor…


- Deixa-te disso, pá! Valentim “for ever” – deram ambos um forte abraço rindo com vontade.


O professor desculpou-se às pessoas com quem conversava, pegou no antigo colega e levou-o para um local mais calmo de forma a matarem saudades e colocarem alguma conversa em dia.


- Que fazes na vida Joel?


- Criei uma “startup” e estou a vender serviços para uma série de empresas. Nacionais e internacionais…


- Boa! E família?


- Casei-me, separei-me, voltei a casar e agora espero ficar por aqui… Mas não tenho filhos! E tu?


- Eu ando por aí, dou umas aulas, aconselho umas empresas, faço conferências… Entretanto nunca me casei, mas tenho três filhos e vivo com a mãe deles.


Riram-se ambos. Depois foi o momento de recordar tempos de escola. Foi nesse momento que Valentim soube da morte de Fausto. Nada comentou, mas Joel percebeu no amigo um certo alívio.


Passados uns dias estava Valentim a brincar com o filho mais novo quando a companheira chegando por trás o abraçou para lhe perguntar:


- O que se passa contigo, amor? Andas distante desde há uns dias…


- Oh… impressão tua!


- Conheço-te há demasiado tempo para saber que algo não está bem contigo. Temos de falar sobre isso… Não te quero a definhar.


- Ando cansado, somente!


- És mesmo nhurra… safa! – zangou-se a companheira.


No noite seguinte Valentim, após ter contado as histórias aos filhos e tê-los deixado a dormir, chegou-se junto da mulher no quarto, enquanto esta se preparava para se deitar e confessou:


- Tens razão, não tenho andado bem… Desculpa.


- Mas o que te aconteceu para ficares assim?


- A mim nada! Soube que um antigo colega de escola morreu recentemente.


- Oh lamento! Era teu amigo?


- Não… era o inverso! Detestava-o…


- Espera aí que não percebi – espantou-se a companheira.


- Deixa-me contar. Este colega que agora morreu era um chato comigo quando estávamos na escola. Mau aluno, cábula, rufia… atentou-me muitas vezes… Demasiadas! Entretanto fiz a minha vida na faculdade e jamais me lembrei dele… Parecia ter sido um pesadelo, nada real!


A namorada aproximou-se e afagou os cabelos carinhosamente. Manteve-se, todavia, em silêncio aguardando a continuação do relato.


- Agora que sei da sua morte acreditas o tipo não me sai da cabeça. Isto é, quando o Joel me contou lamentei a sua morte apenas como ser humano. Do resto não lamentei nada, porque era um pulha.


- Que coisa querido! Parece que aquela frase que diz "querer esquecer é lembrar" faz todo o sentido.


Valentim ergueu-se e após a última frase respondeu:


- É isso mesmo! Quanto mais quero esquecer aquele desgraçado mais me lembro dele.


- Sabes que o nosso cérebro consegue controlar isso na perfeição. Como nunca te preocupaste com ele a tua mente não mais se ligou a ele. Mas com o que soubeste já não é o teu cérebro a mandar, mas o teu coração. No fundo, no fundo tu gostarias que ele assistisse à tua vitória na vida.


- Nem sei se é isso realmente que gostaria… Tenho pena dele, porque imagino que tenha sido um desgraçado com um emprego de porcaria a ganhar ordenado mínimo.


A mulher pegou no roupão que o companheiro tinha vestido e retirou-o depositando em cima de uma cadeira. Depois concluiu:


- Li uma vez que a melhor qualidade do ser humano é saber esquecer! Parece que não tens essa valência.


- Pois não…


- Mas tens outras!


E apagou a luz!


 

Comentários

  1. Bom dia José
    Obrigada pela partilha. De facto, todos nós temos alguém que gostaríamos de não lembrar tanto!….
    Feliz semana

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  2. Ai, como tu consegues dar conta destes textos!!!
    Muito bom!

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  3. Olá Maria,

    é verdade! E são essas figuras que muitas vezes n os atentam!
    Obrigado pela visita!
    Bom resto de semana.

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  4. Bom dia José, muito obrigada por este presente tão bom. Gostei muito. Sinto que a criação desta história envolveu uma viagem de reflexão interna. Espero que tenha sido uma viagem positiva, porque o conto está excelente.

    Parabéns! Abraço forte.

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  5. Olá Isa,

    Temi que não gostasses da forma como peguei no tema.
    Por vezes as nossas vidas andam repletas de fantasmas e é preciso exorcisá-los.
    Nem que seja comnum peqyenobtecto.
    Obrigado por me desafiares.
    Resto de boa semana.

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