Hoje convido eu! #13

A MJP tem dois fantásticos blogues: o "Liberdade aos 42" e "Na sombra da luz". Uma amizade que não sendo longa no tempo, é nas raízes. Convidada também a desafiar-me lançou a palavra liberdade!


Eis mais um tema forte e sobre o qual escrevi o texto infra. Uma nota final para a estória que não sendo tal qual como foi descrita tem por base factos verídicos!


 


Com passo lento foi atravessando as inúmeras portas de grades. Só se abria uma quando a anterior se fechava. Atrás de si um guarda armado acompanhava-o em silêncio pelos corredores escuros, húmidos e tristes.


Surgiu finalmente o enorme portão de ferro tendo a meio o recorte de uma pequena porta. Após a derradeira grade estar fechada um dos guardas do portão abriu o recorte mostrando a luminosidade daquela manhã.


Entretanto aproximou-se do último guarda e tal como lhe haviam dito entregou-lhe um papel. Este pegou na folha e após confirmação retirou as algemas e disse:


- Está conforme Ivo… Pode sair! É um homem livre.


Passou a porta e entrou na rua deserta. Um par de viaturas estavam estacionadas num dos lados. Olhou o céu azul, recebeu o sol na cara e colocando a trouxa ao ombro partiu a pé já que ninguém o esperava à porta do estabelecimento prisional onde vivera os últimos 10 anos.


Após um crime que ele próprio confessara e com uma sentença de muitos anos, ainda assim saíra mais cedo do que supusera. Muito devido ao seu comportamento sempre impecável e à forma sempre reservada como geria os seus conflitos com outros prisioneiros. Sem vícios ou gostos especiais nunca fora um alvo de alguns grupos.


Durante dias caminhou devagar em direcção a casa. Carregava no bolso uns trocos suficientes para comprar um pão. Dormia num qualquer buraco que encontrasse e nunca incomodou ninguém. Estava somente desejoso de chegar a casa.


Ao fim do quarto dia avistou a aldeia que não obstante uma dezena de anos passados encontrava-se na mesma. Abriu o portão e penetrou no quintal antes de entrar na habitação. O pasto seco e muito lixo amontoava-se pelo terreno que fora a sua horta.


Escancarou a porta que estava destrancada e entrou. Um cheiro a bafio entrou-lhe pela narina e estava escuro. Deixou a porta aberta até que a luminosidade do dia entrasse naquele antro. Olhou em redor e percebeu que havia muito tempo que ninguém ali vivia. Um rato fugiu para detrás de uma velha mala.


Parado no meio da sala ficou sem saber o que fazer. Aproximou-se de uma janela e abriu-a com dificuldade. Mais luz num local onde o lixo parecia ser rei.


- Bom tenho de limpar isto!


Despiu o casaco, abriu mais outra janela e começou a retirar todo o lixo para a rua, amontoando-o para queimar.


Estava neste trabalho quando ouviu o portão a ranger. Ergueu-se e tentou perceber quem seria a visita. Uma figura esguia e alta assomou à porta:


- Pai!


- Olá Carlos - reconheceu.


- Que fazes aqui?


- Tento dar um jeito nesta lixarada.


- Xiii… tanta bodega. Como terá isto vindo cá parar?


- Não sei… nem me interessa… Mas poderias dar um abraço, não?


O filho mais novo aproximou-se do pai e abraçou-o com ternura. Quando o filho o envolveu declarou ao ouvido:


- Desculpa Carlos… Não deveria ter feito o que fiz!


O filho desprendeu-se do pai e olhou-o nos olhos:


- Nunca te acusei de nada…


- Ficaste sem mãe.


- Aquela não era minha mãe. Unicamente a mulher que me pariu…


- Está bem, está bem!


Tentou mudar de assunto:


- Há quanto tempo não vives aqui?


- Não sei… talvez há uns dois, três anos!


- Como soubeste que eu tinha regressado?


- Foi um vizinho que te viu chegar e chamou-me. Vim a correr…


- E os teus irmãos?


- Oh esses…


- Mau… que se passa com eles?


- Nada de mal, pai. Apenas saíram daqui foram não sei para onde, nem me disseram!


- E…


- Formaram-se… São uns doutores… Mas não ligam a ninguém!


- Deixa lá… Se estão bem na vida, tanto melhor. E provavelmente não querem ser ligados a alguém que cometeu um crime…


- Pai o que fizeste foi errado. Mas já pagaste o preço. Agora vives em liberdade!


Fez um ruído com a boca para depois acrescentar:


- Vivo em liberdade… dizes tu! Mas por dentro continuo preso. Tão ou mais preso de quando estava na penitenciária…


- Preso a quê?


- À consciência! Pior que estar entre grades é sentirmo-nos presos dentro de nós mesmo!


- Oh pai… Não te martirizes…


- A liberdade Carlos não está fora de nós, mas dentro do nosso coração. E este continua preso… aos acontecimentos daquele fatídico dia…


Carlos deu meia volta, saiu da casa e respirou o ar exterior. Ivo seguiu-o e encostado à velha e carunchosa aduela concluiu:


- E tu Carlos que fazes na vida?


- Tu não vais querer saber…


- Um dia saberei…


- Talvez!


- Vá diz lá o que fazes da vida?


- Sou… teu filho!


Virando-se para o antecessor, concluiu:


- E fico bem contente com isso!

Comentários

  1. 👏👏👏
    Gostei Muito do Teu texto!
    Muito Obrigada pelo convite para te desafiar a escrever!🙏
    Dia Feliz!✨🍀
    Cuida-te!

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  2. Bravo José!!!
    Muito obrigada por esta partilha de nos levar às lágrimas! Um texto muito emotivo!

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  3. Gostei, caro amigo! De facto a liberdade é relativa. Grande abraço

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  4. A história de vida de muitos!
    Como referi no post onde começaste este relato, tenho uma história semelhante que me pede para a pôr no papel. É uma coincidência tremenda apareceres com uma tão semelhante, e a prova em como se pode perdoar e deixar seguir a vida de quem um dia errou.

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  5. Bom dia,

    Eu é que te estou grato!
    Bom fim de semana!

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  6. Obrigado pela minha parte!
    Bom fim de semana, Maribel.

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  7. A história que começa no outro lado deu-se com um parente meu já afastado, mas que conheço bem.

    Venha de lá essa estória!

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  8. Obrigada!🙏
    Bom fim-de-semana!✨🍀
    Cuida-te!

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