Hoje convido eu! #11

Dono deste fantástico blogue, o Cumplice do Tempo apresentou-se também a terreiro nesta minha aventura para me desafiar. Pois... só poderia ser a palavra... cumplicidade. Poderia ter escrito muita coisa, mas recorri à continuação de uma estória escrita há uns anos, para outro desafio.


A ver o que sai!


Malquíades olhava embevecido para Eva que dormia sossegada no carrinho, para de vez em quando fugir com om olhar para o movimento daquela praça da capital catalã. Havia naquele seu olhar perante a filha uma cumplicidade que jamais imaginara que sentisse.


Só se lembrava de algo assim quando fora detido após aquela estória do baile...


Depois de ter sido apanhado, foi levado para o jipe da GNR que o transportou para o posto. Foi nesse longo caminho que percebeu a cumplicidade do outro agente consigo. Cedo descobriu que havia, naquela recambolesca aventura, algo que não batia certo.


Era o cabo que o detera que conduzia o veículo, resmungando durante todo o caminho algo imperceptível. O colega sentado defronte de Malquíades encolhia os ombros.


Chegados ao posto sairam os três e o jornalista sentou-se por ordem do cabo, num bando corrido.


- Agora ficas aqui até vir o sargento às oito horas da manhã. Canalha, malandro.


Ia para dizer qualquer coisa em sua defesa, mas o outro agente acenou-lhe com a cabeça negativamente. Não abriu a boca. Mais tarde encostou a cabeça a uma parede lateral e acabou por adormecer.


Acordou dorido da posição em que dormira e principalmente das algemas.


Quando o sargento chegou e vendo Malquíades perguntou com maus modos:


. Que temos aqui, cabo?


O subalterno aproximou-se, fez a continência habitual e declarou:


- Apanhei o detido em flagrante!


- A fazer o quê?


- A entrar numa casa. 


- E conseguiu entrar?


O cabo percebeu que fizera asneira, mas não o denotando continuou:


- Não meu sargento, pois apanhei-o antes de o fazer... - e depois em forma de desculpa - estes conheço eu bem!


O graduado olhou para o segundo agente e perguntou:


- Foi assim...


- Mais ou menos!


- Como mais ou menos? Ou foi ou não foi!


- O detido estava a tentar entrar numa casa que não era a dele...


- E como sabe que não era a dele?


O soldado olhou para o cabo e meio a gaguejar devolveu:


- Porque era a casa aqui do cabo Flores!


O sargento olhou para o outro e questionou de uma maneiro menos simpãtica:


- Então o detido não roubou apenas estava a entrar em sua casa, certo?


- C... certo meu sargento... mas, mas...


. Deixe-se disso, homem! Já é o terceiro esta semana a vir para aqui pela mesma razão... Bolas cabo... controle a sua mulher... que os rapazes não têm culpa...


Era a vez do cabo bufar! Depois dirigiu-se ao detido e libertou-o das algemas, dizendo:


- Sai daqui aventesma...


Porém Malquíades, que acabara por assistir ao diálogo de forma divertida, virou-se para o cabo que o detera e comunicou:


- Não lhe levo a mal o que me fez, mas deixe-me colocar uma questão: que cumplicidade há entre si e a sua esposa?


 


- Então homem que olhar é esse para com a Eva? - perguntou Beatriz retirando a criança do berço.


Malquíades ergueu-se lentamente do seu lugar, pegou nos ombros da namorada e olhando-a bem nos olhos, perguntou:


- Sabes o que é a cumplicidade numa relação?


- Eu sei, Malquíades, eu sei. E tu sabes?

Comentários

  1. Gostei tanto de ler , e também fui ler a outra parte obviamente, bem este Don Juan de nome Malquíades, consegue ser suspeito, réu e cúmplice tudo na mesma historia, a parte do "Bolas cabo... controle a sua mulher... " foi a cereja no topo do bolo.
    A cumplicidade do desafio foi perfeita.
    Obrigado por esta inspirada partilha
    Abraço cúmplice

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  2. Obrigado pelas suas palavras tão simpáticas.
    A aventura do Malquíades é de se tirar o chapéu.
    (Confesso que há muito de biográfico em ambas as estórias).
    Grato por ter alinhado nesta brincadeira.
    Abraço cúmplice!

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