O retrato

Ergeu o olhar para o lado oposto da mesa, mas a cadeira, tantos anos ocupada, encontrava-se agora vazia. Cinquenta e cinco anos em conjunto! Mais de meio século. E os últimos anos haviam sido de suplício, luta permanente contra uma doença que teimava em evoluir drasticamente.


Lembrou-se da promessa de ambos feita muitos anos antes de qualquer enfermidade...


- Nunca me leves para um lar, quero morrer na minha cama   - pedira Adelina um dia.


Eduardo prometera que assim faria. E fez...


- Avô não comes?


A neta agitou-lhe a mão esquerda acordando-o daquele marasmo. Na mão direita a colher da sopa poisada no prato enquanto os pensamentos e as lembranças voavam.


- Sim minha querida, desculpa, estava distraído.


O avô fora sempre um exemplo para toda a família. A valentia, a corajem e a tenacidade haviam feito dele uma pessoa admirável e admirada. E a doença de Amélia viera mostrar quão forte era aquele homem.


- Agora pai, vai viver finalmente connosco? - perguntou a filha mais velha.


O velho recostou-se colocou as mãos em cima da mesa e como de uma sentença se tratasse, declarou:


- Meus filhos... A minha vida sem a vossa mãe jamais será a mesma. Por enquanto vou descansar dos anos que ela involuntariamente me brindou.


Uma lágrima correu pela ruga mais funda que Eduardo nem se preocupou em esconder. Continuou:


- Depois, se tiver saúde e alguma genica, vou visitar uns amigos que tenho longe...


- Onde meu pai?


- Não interessa. Eu sei onde eles estão e daqui a uns tempos vou lá passar um tempo.


- Vai sozinho?


- Achas que tenho medo? Mas continuando... antes de tudo isso aconteça vou deixar as coisas todas arranjadas para vocês, em termos de partilhas.


- Oh pai deixe-se disso... Ainda ontem sepultámos a mãe...


- Minha filha eu sei o que faço, acredita. Não tenhas medo... Mas as coisas são para ser resolvidas quanto antes.


A neta levantou-se abraçou o avô e finalmente disse inocentemente:


- Fico contente por ires viajar. Sempre gostaste disso.


O avô acariciou os cabelos sedosos da neta e exclamou:


- Viajar é sempre bom! - e esboçou um sorriso enquanto olhava o retrato da mulher quando nova, pendurado na parede do fundo.

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