A prenda de Natal

Resposta a este desafio


A noite na cidade, naquela véspera de Natal, ganhara diferentes contornos. Não eram unicamente as luzes e os enfeites luminosos alusivos à quadra, pendurados muitas semanas antes, era acima de tudo aquele espírito natalício, tão inexplicável quão perceptível, por um jantar em família, nem que fosse somente uma vez por ano.


João olhou o relógio digital à sua frente no tablier do carro e comentou para si mesmo:


- Dezanove e treze… daqui a três quartos de hora vou-me embora. Mais um ou outro serviço e está o dia ganho!
Conduzia devagar em busca de um eventual cliente. Uma mão surgiu do nada por entre carros, sinal evidente para parar. Travou e aguardou.


A porta abriu-se e deu entrada uma daquelas mulheres que só se vêem em revistas cor de rosa. Muito bonita, vestia um casaco comprido que tapava um vestido provavelmente mais curto que o devido, já que ao entrar este denunciou o que não deveria. Pelo espelho retrovisor olhou a cliente e cumprimentou:


- Boa noite! E já agora Boas Festas…


Ela respondeu simplesmente:


- Boa noite!


Nenhuma referência à quadra. Por fim:


- É para onde?


- Para lado nenhum. Basta que conduza…


O pedido era estranho e por isso João insistiu:


- Não quer que a leve a qualquer lugar?


- Já disse que não… – respondeu secamente enquanto olhava para a rua – conduza pela cidade por onde lhe apetecer até eu o mandar parar.


Arrancou devagar, desceu a avenida e foi de encontro ao rio. O silêncio dentro do táxi era sepulcral.


O taxista calculou que haveria ali algo por desvendar. Por fim encheu-se de coragem e questionou a passageira:


- Desculpe maçá-la… não sei se sabe, mas hoje é véspera de Natal…


- E depois?


- Que tal a família?


- Não tenho…


- Não tem ou não quer ter?


Pelo espelho reparou que a jovem desviara o olhar da rua e transferira-o também para o espelho. Disse então:


- Talvez a minha família não me queira ter… Já pensou nisso?


. Por acaso não… Mas que fez para a verem dessa forma?


- Não fiz nada.


- Hummm! Nada mesmo?


- Apenas tive sucesso… E há quem não lide bem com o sucesso dos outros.


- Como a entendo… Deixe lá… acontece a todos!


Regressou o silêncio. Entretanto o rio devolvia as luzes nocturnas em tons mais brilhantes. Era difícil resistir a não tentar perceber mais do que aquela mulher quereria dizer. Mas para isso seria necessário contornar as mágoas ou, quiçá, enfrentá-las.


- Não tem amigos, namorado, marido, filhos… - e após uma breve pausa - alguém?


Ela voltou a olhar para o motorista através do rectrovisor e devolveu:


- Mas o que lhe interessa isso? É a minha vida… Não tenho de lhe dar satisfações…


O tom de voz surgia agora arrogante, porém o taxista sentindo-se preparado respondeu com calma e serenidade:


- Sabe menina… A vida nem sempre é como a idealizamos. Ou melhor nunca é! Não lhe quero mal, nem tenho inveja do seu sucesso. Todavia lamento essa postura perante os outros.


Aguardou que ela dissesse algo, porém o silêncio manteve-se.


- Daqui a meia hora acaba o meu serviço. Depois irei para casa ter com os meus. Sabe porquê? Porque aceito!


- Aceita?


- Sim aceito o que a vida me tem oferecido. Mesmo que nem sempre sejam coisas maravilhosas.


- Por exemplo?


- Este trabalho. Considera fantástico andar 12 ou mais horas enfiado num carro, para trás e para a frente?


- Mas o meu problema não é o meu trabalho…


- Eu sei!


- Sabe?


- Sei… A menina não tem rigorosamente ninguém consigo, porque fechou-se e não está disponível para os outros!


- Como assim?


A conversa parecia ser referente a outras pessoas, todavia…


- O seu sucesso não foi partilhado…


A passageira interrompeu:


- Mas os outros, como diz, só querem de mim o meu dinheiro. Ganho com o meu trabalho e suor.


Não arranjou resposta. De certa forma ela era capaz de ter alguma razão. Se estivesse com alguém, provavelmente, seria como uma compra… de sentimentos!


Não desistiu. Abordou-a de outra forma:


- Tenho aqui uma ideia engraçada e que a envolve!


- Como assim ideia?


- Às oito desligo o taxímetro e vou para casa. A tal ideia é levá-la comigo… como minha convidada e jantar com a minha família. No fim da consoada levo-a a casa, imagino que tenha uma, e sem custos.


- Mas o senhor vai levar uma desconhecida para sua casa assim sem mais nem menos?


Um sorriso abriu-se e o taxista respondeu:


- Você não é uma desconhecida.


- Não? Então sabe quem eu sou?


- Não sei quem é, nem me interessa…


- Desculpe, mas não o entendo…


- A menina será a surpresa de Natal deste ano para a família. Todos os anos costumo levar uma…


- Olhe lá, eu não sou um objecto, ouviu?


- Peço perdão, não foi minha intenção magoá-la… O que pretendo dizer é que o seu exemplo de mulher bonita e de sucesso, todavia solitária será uma bela lição de vida para os meus filhos, que estão naquela idade parva…


- E eles irão acreditar?


- Acreditar? Como assim?


- Já percebi que não sabe quem eu sou…


- Nã… não! Deveria?


- Sei lá! Costuma ver televisão?


- Raramente… só o futebol.


- Decididamente não sabe quem eu sou. Bom sou uma actriz, daquelas muito conhecidas – afirmou a passageira sem pingo de humildade.


- Devo lamentá-lo?


A jovem desarmada, voltou a olhar para o motorista através do espelho, antes de confessar:


- Não, creio que não! Mas pagam-me e bem para fazer aqueles papéis!


João desviou a conversa:


- Ainda não disse sobre a minha ideia… Aceita?


- Talvez… mas necessito comprar algo para levar. Pode parar num supermercado, se fizer favor?


- Não é necessário. Não somos ricos, mas há sempre comida para muitos!


Deu uma gargalhada!


- Calculo que sim, mas não apareço em casa de ninguém para jantar de mãos a abanar!


- Oiça menina, eu nem sei como se chama…


- Isso interessa?


O taxista parou o carro, voltou-se para trás e encarando a jovem olhos nos olhos disse:


- Hoje serei o seu Pai Natal!


Desligou o taxímetro e encaminhou-se para casa. No caminho conseguiu enviar uma mensagem à mulher:


“A caminho de casa. Põe mais um prato na mesa. Levo alguém”.


A resposta veio célere:


“Quem é?”


Não respondeu. Chegou ao bairro e estacionou o táxi em lugar seguro para dizer à sua companhia:


- Chegámos!


A actriz saiu devagar. Um ar frio pairava no ar, assim como o cheiro a comida. A rua estava deserta e assim com calma ela pode caminhar sem medo de ser reconhecida. Entraram no prédio de três andares. João segurou a porta da rua e depois desculpou-se:


- Não temos elevador… Mas é só um andar.


Quando meteu a chave à porta ouviu uma algazarra vinda da cozinha.


- Oi pessoal, cheguei! E trago uma visita.


De súbito a filha surgiu de algures e dando de caras com a estranha levou a mão à boca num pasmo. Depois fugiu para a cozinha, donde saiu uma mulhar a limpar as mãos ao avental. Vendo a jovem visita, não reagiu como a filha e cumprimentou:


- Boa noite, boas Festas e bem vinda à nossa humilde casa.


- Boa Noite e... Boas Festas Dona…


- Aldina, Aldina Reis.


A rapariga entrou e a esposa ficou para trás. Nas costas do marido perguntou baixinho:


- Mas esta é a… ?


- Sei lá quem é! - e encolheu os ombros.


João levou a visita para a sala de jantar que sabia de antemão estar preparada. Depois e de uma forma cavalheiresca pediu o casaco. A visita despiu-o denunciando o que previra. Finalmente:


- Sente-se aqui, se fizer favor menina… - e num gesto meio parvo – é que ainda não sei o seu nome.


- Alice Mendonça.


- Menina Alice, faça favor - mostrando-lhe o lugar.


Os filhos de 13 e 15 anos estavam entusiasmados com a presença de tal ilustre pessoa, mas cedo perceberam que ela era igual a eles.


Sentaram-se todos à mesa e antes de iniciarem a comer, João disse:


- Vamos agradecer a Deus esta comida – e virando-se para Alice – Não necessita rezar se não quiser.


Mas ela quis e o jantar seguinte correu de forma magnífica. A determinada altura Alice virou-se para a filha de João e perguntou-lhe:


- Por acaso não tens um fato de treino que me sirva?


- Tenho sim… vou buscá-lo.


Alice foi à casa de banho vestiu a roupa emprestada, mas limpa e voltou para a mesa. Quando chegou a meia-noite João desapareceu, para surgir minutos depois vestido de Pai Natal. A alegria veio ao de cima e sob a árvore de Natal onde residiam os embrulhos os dois filhos dedicaram-se a abrir os presentes.


Finalmente João entregou a Alice um embrulho. Esta admirada com a oferta, aceitou e abriu-o:


- Um livro! Ohhhh há quanto tempo que não recebia um livro como prenda!


- Espero que goste.


- “Contos de Natal”… Quem escreveu?


- Muita gente… boa. Contudo esta é a sua Prenda de Natal!

Comentários

  1. Lindo!!!!
    Muito bom! É um prazer saber que o nosso livro agradou a tão ilustre convidada.

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  2. Ahahahahaahah!
    Sabes quem é?
    Mais a sério... outro conto escrito há muito tempo e que encontrei num caderno.
    O fim era diferente, mas quando estava a passá-lo para o papel lembrei-me de meter mais uma bucha.
    Espero que sinceramente tenhas gostado. Achas que ainda irá a tempo da coletânea deste ano?

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  3. Obrigado!
    Continuo a ser aquele que escreve mais contos de Natal!

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