Hoje convido eu! #3
Num comentário o meu amigo Manuel dono deste recente blogue lançou a ideia "A vida é uma doença incurável" para mais um escrito. Desde aquele dia a cabeça anda num turbilhão para dar a volta ao desafio.
Que ficou como segue:
Assim que introduziu a chave na porta nem necessitou rodar pois aquela abriu-se de repente, surgindo a D. Hortense naquele seu vozeirão de pregão de rua e braços no ar para o abraçar e pespegar-lhe diversos beijos repenicados enquanto dizia:
- Parabéns doutor Olímpio, muitos parabéns! Já soube da novidade!
- Ei… ei… ei… D. Hortense, calma aí… como me chamou esta manhã?
A antagonista parou, franziu o sobrolho como lhe surgisse uma dúvida e respondeu:
- O… Olímpio!
- Muito bem… e porque me chama outra coisa?
Fez-se luz na senhoria gorda e simpática…
- Já percebi… Mas o que quer que jhe diga? Fez-se Doutor… tenho de o tratar assim.
Olímpio fez um gesto quase de enfado para ela regressar:
- Foi assim com os outros… há-de ser consigo também…
- D. Hortense… oiça… eu agradeço, mas não sou diferente da pessoa de hoje de manhã… Compreende?
- Compreendo… - baixou então os olhos, pegou no sujo avental e levou-o à cara.
O estudante fechou a porta atrás de si e seguiu-a até à cozinha onde numa velha cafeteira fervia café. Olímpio abraçou a dona do quarto onde nos últimos cinco anos passara os dias e as noites e confessou:
- Fui rude consigo, mas eu só quero que entenda que sou a mesma pessoa. Com ou sem curso. Vá não se zangue comigo. Até porque amanhã parto para a aldeia.
- Já amanhã?
- Sim, claro! Acabou-se a faculdade… agora tenho de ir em busca de sustento e não posso gastar mais dinheiro aos meus pais.
- Ó Do… Olímpio… pode ficar mais uns dias… Eu não vou alugar o quarto tão depressa.
- Agradeço, mas preciso de descansar e de estar com a minha família. Tenho saudades, sabe?
Hortense retirou a cafeteira velha e negra do fogão sujo, colocou-a em cima de um descanso para depois confessar:
- Nunca cá tive um estudante como o Do… menino!
- Oh simpatia sua D. Hortense. Há aí pessoal bom para além de mim… - defendeu o licenciado.
- Está a brincar, não menino?
- Nem por isso… É o que eu sinto…
- Pois sente mal. Estudava tanto que não via mais nada.
- Tinha de ser…
- Por isso não viu as vezes que muitos dos seus colegas chegavam tarde e a más horas completamente embriagados…
- Soube de alguns… Gostavam mais de gozar a vida que estudar!
- Diz muito bem… gozar a vida! Mas os outros é que cá ficam para limpar essa vida… de boémia.
O tom de voz da arrendatária subiu de tom para uma contida revolta. Entretanto o jovem tentava apaziguar o espírito da senhora.
- Pois… é verdade o que diz D. Hortense. Mas sabe… tive um professor que disse a determinada altura que a vida é uma doença incurável.
A senhora voltou-se para o jovem e de dedo em riste atirou:
- Incurável disse o professor?
- Sim!
De súbito a dona Hortense, dona de uma casa onde alugava quartos a estudantes sacou do peito de um enorme e grosso fio de ouro que terminava numa caixa que abriu e apresentou a Olímpio. Este olhou para dentro da caixa e viu a fotografia a preto e branco de um jovem.
- Também este meu filho gozou a vida quanto quis! A tal que lhe disseram que é incurável… Mas um dia a Morte veio e curou-o.
Fechou a caixa de ouro e concluiu:
- E para sempre!
O que é que queres que comente? Que é um belíssimo texto? Pronto, já disse!!!
ResponderEliminarObrigado Isabel. Sempre simpática.
ResponderEliminarO que dizer mais da tua criatividade?!
ResponderEliminarObrigada pela partilha, José!
Que dizer? A verdade!
ResponderEliminarObrigado!
E pronto, foi tiro e queda, parabéns!
ResponderEliminarViva,
ResponderEliminarProvavelmente ficou aquém do que esperava. Se assim foi lamento não ter conseguido ser mais competente.
Forte abraço.
Caro amigo, não seja modesto. Eu tenho por hábito seguir apenas os que são melhores que eu! Abraço
ResponderEliminarUi caríssimo.
ResponderEliminarEste seu comentário carrega em cima dos meus ombros uma enorme responsabilidade.
Creia-me, no entanto, que tudo farei para não o defraudar!
Forte abraço.
Boa tarde José
ResponderEliminarExcelente texto, duma bela história .
Obrigada pela partilha .
Feliz Natal
Feliz Natal Lúcia.[<<-]
ResponderEliminarObrigado pela visita!