Confissão


Ela olhava-o com aquela ternura que o meio século de casamento obrigava. Os olhos dele mantinham-se fixos em lugar nenhum. Sem expressão, frios, longínquos.




Sentado num velho sofá tinha uma manta a aconchegar-lhe as pernas inertes. Os sucessivos AVC's haviam-no atirado para aquele marasmo e imobilidade.


Sentada à sua frente, a mulher passava a colher numa espécie de papa que lhe punha na boca e que ele engolia, provavelmente sem saber.


- O que eu não dava, homem, para ouvir de ti uma palavra. Uma só que fosse.


Continuava a passar a colher na papa e a depositá-la na boca.


- Tu que eras tão tagarela, tão falador... que me disseste tantas vezes que me amavas...


Mais uma colher.


- Não sei se me ouves ou não. Os médicos dizem que não. Estou a falar para ti como se estivesse a falar para mim, mas não sei se me escutas... Gostavam tanto de saber!


Limpou-lhe a boca suja com doçura e carinho..


- Ao fim de todos estes anos só agora sou capaz de te dizer que te amo. E também sei que gostarias de me ouvir dizer isto.


Baixou lentamente a cabeça para o prato de papa, que continuava a mexer.


Por isso não viu uma simples lágrima cair no regaço do marido.


Comentários

  1. Maravilhoso!
    Impróprio para consumo nesta quadra natalícia, em que os sentimentos estão muito frágeis!

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  2. Histórias doloridas e comoventes de pessoas que já não vivem, apenas sobrevivem.

    Abraço, com desejos de um Bom Ano que agora se aproxima!

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  3. Sei bem o que isso é! Infelizmente...
    Mas temos de aceitar.
    Não há outra forma de ver a vida.
    Abraço e um óptimo 2023.

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