Salvador!
O silvo agudo ecoou na charneca. Os corpos endireitaram-se gemendo. Aquela dor sempre ali ferrada... nas cruzes!
Salvador no alto dos seus nove anos ainda não sofria das maleitas dos mais velhos, mas imaginava o que seria andar a vida toda a trabalhar de cabeça virada para a terra, enquanto o capataz burro e bruto andava de costas direitas e ganhava quiçá o dobro.
O sinal avisara o pessoal da hora de comer. O miúdo largou a enxada e correu lesto para a frente da fila onde a cozinheira Arminda distribuia a sardinha da barrica, uma a cada homem e mulher.
O miúdo tinha por hábito receber um pedaço de broa que a mãe lhe costuma entregar àquela hora da bucha. Porém naquele dia no horizonte não viu ninguém. O tempo de comer escasseava e Salvador vendo-se sem outro conduto acabou por comer a sardinha seca sem mais nada.
Vingou-se na água-pé que a patroa fazia questão de fornecer aos trabalhadores e num caldo desenxabido onde umas reles meias folhas de couve boiavam. Mesmo assim o jovem comia tudo... e o mais que houvesse que era... nada!
Quando ao pôr do sol o silvo soava Salvador partia novamente a correr, não para sua casa, mas para as traseiras do solar do patrão onde se situava a cozinha. Aqui chegado aguardava escondido atrás de uma enorme vasilha de barro transformada em canteiro, que a cozinheira viesse à rua despejar as sobras.
Assim que a cozinheira assomava à porta Salvador saía do seu esconderijo com uma suja gamela na mão que ali ficara de propósito escondida logo pela madrugada.
- Ponha aqui, ponha aqui D. Arminda.
- Isto não presta Salvador... nem para os porcos é bom quanto mais para ti.
- Não faz mal. Enquanto comer isso não passo fome. Nem os lá de casa...
Depois espreitou para dentro da panela negra e acabou por acrescentar:
- Só o fio de azeite que tem!
Um retrato tão duro e ao mesmo tempo tão emotivo!
ResponderEliminarTinha saudades das tuas narrativas.
Isabel,
ResponderEliminarjá não há desafios como antigamente|
Tempos do nosso tempo, que fazem parte da nossa história recente.Hoje, talvez os vários "Salvadores deste país, estejam a partilhar com os seus filhos e netos, que no nosso país, há umas dezenas de anos, era assim. Parabéns por esta escrita de cheiro a terra!
ResponderEliminarO meu pai foi um dos Salvadores deste país. De pés descalços até ir para a tropa, calcorreava terra e veredas.
ResponderEliminarUma côdea de broa era por vezes (ou na maioria) a única refeição diária.
Obrigado pelo comentário.
Ninguém deveria viver assim, das sobras e da exploração dos outros. Infelizmente, neste mundo pseudo-civilizado, há tanto disto e mesmo no nosso país onde ainda há escravatura, moderna.
ResponderEliminarBjs
Boa noite Olga,
ResponderEliminarO meu pai foi um dos Salvadores deste Mundo.
E como ele houve e há ainda muitos!
Infelizmente!
Parabéns pelo texto. Retrata épocas difíceis de muitos. Abraços
ResponderEliminarTempos que o meu pai também viveu!
ResponderEliminarObrigado pelo comentário e desculpa o atraso da resposta!