"A persistência da memória" - Dali

Resposta a este desafio


A noite negra caíra havia muito sobre a cidade. Corria um vento que principiava a gelar quem se afoitava na rua. Jorge ajustou melhor o sobretudo ao corpo evitando a brisa fria. Caminhava devagar para um encontro para o qual fora convocado por um amigo de longa data, mas que não via há muitos anos.


Estranhou o convite, mas como não tinha nada para fazer, aceitou. Enviaram-lhe a morada por correio postal o que lhe fez logo desconfiar da proposta. Porém como sempre gostara de desafios, ei-lo a caminhar pelas ruas desertas da cidade no sentido de uma morada meio estranha.


No instante seguinte ouviu uma viatura a aproximar-se, mas não ligou. O carro passou por ele para parar um pouco mais à frente. Abriu-se a porta traseira e de lá alguém o chamou:


- Jorge Gouveia?


- Sim sou eu.


- Entre no carro. Rápido.


- Desculpe, mas tenho mais que fazer que brincar aos raptos.


- Isto não é rapto. Não vai a um encontro ali à frente com o Dário?


Desconfiado começou a recuar… Não estava nada a gostar da brincadeira. Entretanto o interlocutor saiu e antes que Jorge fugisse, declarou:


- Não tenha medo, não pretendo fazer mal, mas é uma mera questão de segurança. A sério… E se tem dúvidas eu vou ligar ao Dário e fala com ele.


Jorge aceitou ainda deveras desconfiado. O outro fez a ligação, colocou em voz alta, quando responderam:


- Diz!


- O seu amigo está um tanto apreensivo…


- Jorge!


- Dário… há quanto tempo.


- Entra no carro e vem ter comigo. Não temas que não queremos fazer-te mal. Vá despachem-se que não tenho a noite toda.


Quando meia hora depois entraram num apartamento, o amigo veio receber Jorge de braços abertos. Depois de uns bons minutos para visitar memórias de ambos, Dário avançou:


- Bom sabes porque te convoquei?


- Não imagino…


- Estou numa brigada internacional que tem como função salvaguardar o património mundial das mãos alheias…


- E…


- Roubaram há dias um quadro num museu. Já o encontrámos todavia estamos desconfiados que não é o verdadeiro, mas uma cópia…


- Que quadro foi esse?


- Um Dali… “A persistência da memória”…


- Bolas bom gosto… Terá sido mesmo roubado? Ainda por cima do MOMA?


- Pois esse é que é o busílis da questão. Esse quadro estava em trânsito para um local secreto pois o Museu recebeu uma ameaça de que o iriam roubar…


- Ahahahahahah! Deixa-me rir antes que me esqueça. Quer dizer recebem a ameaça e em vez de redobrarem a segurança retiram-no do Museu… Isto é, colocaram-se a jeito…


Dário coçou a nuca para finalmente devolver:


- Tens razão, mas não tens…


- Mau… então!


- O quadro não saiu do Museu, mas eles simularam que havia saído…


- Ena que confusão…


- Pois… americanices… E agora sobra para a gente. Pois o verdadeiro desapareceu mesmo… lá dentro. Entretanto encontrámos um… mas… não sei! E sendo tu um especialista nestas coisas lembrei-me de te convocar!


- Tu arranjas cada sarilho… Mas pronto vou tentar perceber se o quadro é genuíno. Onde está?


Dário chamou-o e levou para outra sala onde em cima da mesa encontrou uma manta. Puxou por esta e deixou perceber a beleza da pequena tela. O especialista mirou e declarou rápido:


- Dário, isto é uma falsificação muito grosseira…


- Bem me quis parecer. Não sei porquê desconfiei... Como descobriste?


- Fácil… porque o quadro original tem formigas num dos relógios e este tem… pulgas!


 


Demais participantes: Ana D.Ana de Deus, Ana Mestrebii yueCéliaCharneca Em FlorCristina Aveiro, ImsilvaJoão-Afonso MachadoLuísa De SousaMariaMaria AraújoMiaOlgaPeixe FritoSam ao Luar, e SetePartidas.

Comentários

  1. Tanto mistério, para acabar com pulgas???
    Bela imaginação!

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  2. Prendeste-me ao texto

    Pulgas? As minhas crianças que nem ouçam...

    B'jinhos

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  3. Maravilha! Pulgas e não Formigas! Já tinha saudades do teu humor e do espírito detetivesco da tua escrita.
    É bom estarmos de novo juntos!
    Mal posso esperar pelo próximo!

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  4. Olá Cristina,

    na verdade nem sabia o que escrever... fui esgalhando e as ideias foram surgindo devagar. Até este resultado final. Poderia ser melhor mas para isso tinha de ter mais tempo para rever!
    Obrigado pela visita.
    A gente lê-se por aí!

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  5. Adorei, pulgas em vez de formigas, tão bom.
    Espectacular como sempre.

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  6. Obrigado.
    Mas não tendo uma sensibilidade pictórica como tem muita gente... foi a melhor forma qye tive para me desembaraçar deste desafio.
    Segundo li Dali detestava formigas mas pintou-as no quadro como metáfora.
    Portanto após ler isso foi mais ou menos fácil escrever o texto.
    Continuação de boa escrita.
    (Um aparte: preciso da sinopse para os contos de natal, vê o mail sff).

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