Resposta ao Pai-Natal

(Mais um para o rol da Isabel)


A algazarra do dia anterior de crianças e adultos transformara-se num silêncio cavo, apenas cortado pelo som da chuva que caía com força.


Lúcia estava no seu quarto de volta dos presentes que recebera no dia anterior. A mãe estranhando a quietude (quando estão calados estão a fazer o que não devem!!!) aproximou-se da filha e vendo-a tão entretida deixou-a ficar sem nada dizer.


Só que Lúcia viu a mãe e correndo para ela abraçou-a pela cintura. Depois disse:


- Obrigado mamã por teres escrito a carta ao Pai Natal. Ele trouxe tudo o que eu pedi…


Riu-se a mãe.


- Portaste bem durante este ano e o Pai Natal brindou-te com essas prendas.


Só que Lúcia ficou a olhar para a mãe e devolveu:


- Agora tenho de lhe escrever outra carta…


- Outra? A pedir mais coisas?


- Não mamã. Só quero agradecer as prendas…


Atrapalhada a mãe acrescentou:


- E quem irá escrever essa carta?


- Tu mamã!


A mãe voltou a sorrir. Depois foi buscar um bloco de papel e um lápis e sentou-se no chão ao lado da filha.


- Pronto querida estou preparada para escrever a carta ao Pai-Natal.


Diz logo Lúcia desempoeirada na sua linguagem:


Querido Pai Natal,


Mais uma vez não te vi porque estava a brincar com os meus primos. Mas para o ano vou ficar à tua espera para te dar um beijinho e fazer uma festa na tua barba branca.


Gostei muito das prendas que me deste… foi mesmo aquilo que eu pedi. A boneca é muito bonita com os olhos azuis que abrem e fecham, eu pedi que fossem castanhos, mas eu gosto dela na mesma.


Gostei também daqueles jogos e dos livros para eu pintar. Há tantos animais…


Também adorei a camisola com a ovelha branca… é tão quentinha.


Só faltou uma coisa Pai Natal. Eu sei que não podias trazer contigo, mas podias fazer com que o meu pai viesse para casa. Há muito tempo que não o vejo. Tenho saudades dele...


Sabes Pai Natal eu gosto muito do meu pai… E a minha mãe também. Nem sei por que se zangaram.


No instante seguinte a menina percebeu que a mãe chorava. Agarrou-se ao pescoço e apertou-o num abraço que só as crianças sabem dar. Depois disse:


- Mamã não mandes a carta ao Pai Natal.


- Porquê meu amor? – as lágrimas corriam pela face bonita.


- Porque estás triste e eu não quero que o Pai Natal também fique triste!


Um sorriso sobreveio às lágrimas:


- És um amor, minha filha.


A campainha da porta tocou acordando ambas daquele momento.


- É o avô e a avó que vêm almoçar.


Ergueu-se do chão, carregou no botão para abrir a porta de entrada e voltou ao quarto de Lúcia sem que esperasse pela chegada dos pais. A porta fechou-se e a menina levantou-se do chão em busca dos avós.


Um grito de alegria soou então pela casa:


- Pai!

Comentários


  1. Lindo! Era tão bom que os afastados voltassem, os zangados se reconciliassem, os infelizes se tornassem felizes...mas as pessoas são complicadas, às vezes só milagres poderiam acontecer.
    Tudo de bom José, uma excelente semana.
    bjs

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  2. Belo começo de semana cheio de doçura!

    Vai já para o seu sítio!
    Beijinhos

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  3. Obrigado Olga,

    há demasiados lares desfeitos e que poderiam estar intactos.
    Este texto é em honra de quem consegue recuar de um decisão tão radical como largar a família.
    Óptima semana!

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  4. Boa noite José!!.
    Este tocou bem fundo .
    Muito bonito e com o final feliz.
    Por vezes também é bom sonhar .
    Luisa Faria

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  5. Ouvi queixas que os meus contos de Natal são sempre tristes!

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  6. Boa noite
    Sem palavras… adorei.
    Obrigado pela partilha.
    Feliz 2022💫⭐️

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