"Sobreiro" de Malhoa

Resposta ao desafio da Fátima


Entrou na loja devagar. Uma espécie de sino muito agudo tocou, para logo aparecer o dono do estabelecimento que ao ver o cliente logo saudou:


- Ora viva, boa tarde como está? – e estendeu o punho para o cumprimento pandémico.


O cliente respondeu também com o seu punho direito respondendo:


- Vamos andando!


- Que tal a estante, ficou bem?


- Ah optimamente!


- Já agora o tal quadro?


- Esse é que ainda não está montado. Nem sei se alguma vez será… pendurado!


A conversa parecia boa, mas o antiquário percebeu que aquele cliente tinha alguma coisa na ideia. Portanto valeria a pena investigar:


- Então o que o trás por cá? Não me diga que é por causa da cómoda?


- Ai não, não… desta vez ando em busca de uma moldura para um quadro que a minha mulher está a desenhar.


- Temos cá muitas… algumas são bem antigas e verdadeiras pechinchas…


- Ok então vamos lá vê-las…


O lojista virou costas e o cliente segui-o. De súbito este pára e fica a mirar um relógio em cima de uma cómoda. O outro reparou e voltou para trás. Depois foi dizendo:


- Um relógio de aniversário… esse!


- De que marca: Kundo ou Schatz?


Mais uma vez o antiquário ficou surpreso.


- Um Schatz! Creio que dos finais dos anos 40.


O cliente baixou-se e ficou a olhá-lo atentamente. Depois tentou procurar algo mais que o identificasse.


- Posso rodá-lo!


- Claro… ele nem trabalha!


O outro virou-o. Ligou a lanterna do telemóvel e após atenta inspeção disse:


- Hum, tem razão é um Schatz, está lá o símbolo dos elefantes, mas depois não diz mais nada. É estranho para ser dessa data que disse…


- Sinceramente de relógios percebo pouco. Mas venha lá ver as molduras… É que por coincidência chegaram ontem umas de um espólio que comprei… Ei-las…


O cliente aproximou-se e foi retirando uma a uma. A maioria delas envolviam telas com gravuras coladas, de papel banal e sem qualidade. Outras nada traziam ou apenas desenhos que eram réplicas de má qualidade de outras gravuras. Até que pareceu ver uma moldura que lhe agradou. Envolvia esta uma réplica de uma aguarela.


- Olha, olha o que temos aqui…


O antiquário aproximou-se e não percebendo o que o cliente pretendia dizer, foi avançando:


- Que tem essa gravura?


O cliente pegou na moldura e colocou em cima de uma mesa. Depois esclareceu:


- O original desta tela encontra-se em Vila Viçosa e faz parte do património da Casa de Bragança. Chama-se “Sobreiro”, mas é mais conhecido nos meios artísticos como “O Sobreiro da discórdia”.


- Então porquê?


- Porque a assinatura é do Rei D. Carlos I… mas os especialistas dizem que foi Malhoa que o pintou…


 


No desafio Arte e Inspiração, participam Ana DAna de DeusAna Mestrebii yue, Célia, Charneca em FlorCristina AveiroImsilvaJoão-Afonso MachadoJorge OrvélioLuísa De SousaMariaMaria AraújoMiaMartaOlgaPeixe FritoSam ao Luarsetepartidas

Comentários

  1. Obrigada pela partilha José!
    Sempre com ideias interessantes!

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  2. É maravilhoso este antiquário destas tuas histórias. Não é de estranhar que o quadro seja do Rei D. Carlos, pois existem vários, e o homem tinha veia artística.

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  3. Adorei lê-lo, será de Malhoa? Não acho que é mesmo de D.Carlos.
    Bjs

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  4. Mais um excelente texto
    Parabéns , José.
    Luisa Faria

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  5. Olá Ana,

    O quadro e depois o fim e semana atribulado não deu para mais.
    Pode ser que no próximo quadro consiga escrever algo diferente.

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  6. Exactamente, mas pelo que sei preferia coisas náuticas!

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  7. É mesmo!
    O qye se estranha porque o Rei D. Carlos preferia temas marítimos.

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  8. Obrigado!
    Texto fraquinho!
    Não tive inspiração para mais!

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  9. Gostei, adoro ir contigo a este antiquário!
    O (raio do) quadro ia-me queimando o miolo, é, não é, é, não é... Canudo!

    B'jinhos

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  10. Olá bom dia José!!!
    Que bela história, ainda fiquei na dúvida mas já percebi que é mesmo do rei D. Carlos l eh eh eh
    Parabéns por mais uma história bem escrita
    Beijinhos

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