“A ONDA” de Katsushika Hokusai
Resposta ao desafio da Fátima
Havia tempos que andava com anseio de ir a um antiquário. Acima de tudo porque necessitava de comprar uma estante e as modernas durariam menos que nada.
Entrou na loja repleta de tanta coisa velha e antiga. Pairava no ar um aroma onde se misturava a cera, cânfora e bafio.
Por detrás de uma velha secretária ergueu-se o vendedor que, não obstante as evidentes cãs, parecia mais novo do que aparentava.
- Boa tarde…
- Boa tarde – respondeu o cliente – posso dar uma volta?
Conhecia bem a forma de comprar algo mais barato neste tipo de lojas.
- Com certeza… Esteja à-vontade… Procura alguma coisa especial?
- Não, nem por isso – mentiu – mas gosto de ver este tipo de lojas.
- Então... sinta-se em casa.
Foi tricotando por entre muitos móveis loiças, faianças, relógios ou rádios velhos. O dono seguia-o à distância não fosse alguém mais… estranho e quiçá amigo do alheio. A determinada altura o eventual cliente perguntou:
- Diga-me este lustre é de vidro banal ou cristal?
- Vidro antigo… Tem mais de 150 anos!
- Qual o preço?
Aproximando-se retirou de um godé do lustre um pequeno papel onde marcava trezentos euros. Mostrou-o, mas acrescentou:
- Para me estrear hoje vendo por 250 euros…
O cliente nada disse e continuou a procurar o tal móvel que não confessara. Viu discos de vinil e bobines de fita magnética para gravadores, estatuetas, cachimbos, cómodas do tipo D. José, cadeiras em pau-santo, umas caixas de charão, uma grafonola e um gramofone de campânula de madeira que assumiu ser bem antigo, diversos vidros em casca de cebola e uns pratos da antiga Fábrica Ratinho. Por cima de alguns móveis pode perceber umas travessas Miragaia e noutro uma terrina que lhe pareceu razoavelmente antiga, quiçá da Real Fábrica de Sacavém. Nalgumas vitrines conseguiu também descobrir diversas garrafas licoreiras, algumas completas, outras sem tampa e outras ainda com os cálices em anexo.
Pelas paredes, para além de uns espelhos velhos, alguns relógios ingleses e diversos quadros. No chão havia outros. Meteu as mãos e foi folheando as diversas molduras encostadas umas às outras e em cada uma das gravuras espreitava. Até que percebeu algo diferente. Puxou o quadro para fora.
Endireitou-o com ambas as mãos e ficou a mirá-lo. Poisou-o em cima de uma trinchante e afastou-se para ter uma melhor perspectiva.
O lojista aproximou-se e perguntou:
- Gosta?
- Gosto… sabe o que é?
O outro fez uma espécie de careta e devolveu:
- Quem não conhece...?
- A “Onda” não é uma peça fácil de encontrar.
Percebeu que tinha falado demais já que o homem iria provavelmente aproveitar-se do comentário para acrescentar alguns euros ao preço. Deixou o quadro e prosseguiu pela loja. Finalmente viu ao longe a estante que lhe serviria. Aproximou-se, mas em vez de se mostrar interessado no móvel voltou as suas baterias para uma secretária ao lado.
- Sabe o tamanho desta?
Num passe de magia surgiu uma fita métrica nas mãos do vendedor e num ápice estendeu a fita e respondeu:
- Tem um metro e vinte… - virou a fita… - por oitenta!
- E quanto quer por ela?
- Setecentos euros… Mas olhe que isto é de pau-santo…
- Já vi que sim.
- E esta estante?
- Essa é barata… Duzentos euros… - respondeu de cor.
Era um preço interessante, mas aquela gravura de Katsushika Hokusai ficara-lhe no goto!
- Bem se calhar em vez da secretária levo a estante…
- Fica bem servido… é um bom móvel. Quer que lho entregue em casa? - perguntou o lojista contrariado por não vender a secretária.
- Mas ainda não acordámos no preço…
- Olhe que duzentos euros é barato…
O cliente virou as costas como se desinteressasse e dirigiu-se para a saída. De súbito o vendedor propôs:
- Duzentos euros pelo móvel e leva a “Onda”…
A alma do cliente quase saltava de alegria, todavia nada demonstrou e com a calma de quem está habituado a fazer negócios estendeu a mão dizendo:
- Negócio fechado!
No desafio Arte e Inspiração, participam Ana D, Ana de Deus, Ana Mestre, bii yue, Célia, Charneca em Flor, Concha, Cristina Aveiro, Gorduchita, Imsilva, João-Afonso Machado, Jorge Orvélio, Luísa De Sousa, Maria, Maria Araújo, Marquesa, Mia, Marta, Olga, Peixe Frito, Sam ao Luar, setepartidas
Bolas José, isso é que foi um texto de conhecimento de antiguidades, gostei.
ResponderEliminarQue delícia de texto a-d-o-r-e-i!
ResponderEliminarObrigada, meu amigo
Eheheheheheh!
ResponderEliminarTenho algumas dessas coisas.
Sempre ao dispor de Vossa Majestade.
ResponderEliminarApeteceu-me continuar a descobrir tesouros na loja...
ResponderEliminarMuito bom!
Isabel,
ResponderEliminarnão sei se escrevi sobre um antiquário ou sobre a minha casa...
Parabéns José pelo excelente texto ... ai como gostei de "ir" à loja de preciosidades antigas contigo
ResponderEliminarBeijinhos
Feliz Dia
Obrigado Luísa.
ResponderEliminarJá o disse à Isabel se foi a descrição breve de uma casa de velharias ou se da minha própria casa.
Resto de óptima semana.
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ResponderEliminarJá agora poderias fazer um postal onde colocavas os textos daqueles que participam no exercício.
Ou queres que seja eu a fazê-lo?
Grande ideia!!!
ResponderEliminarPodes ser tu, está semana? Tenho de fazer um sorteio para o próximo quadro, preparar o post de amanhã e tratar da votação dos seguintes para sexta - acho que é o que a maioria quer mas tenho de verificar.
Para a semana decidimos quem faz, ok?
Obrigada, 'migo
Fátima,
ResponderEliminarEu não coloco os textos... apenas as ligações.
Mas vou escrever no LadosAB! Pode ser?
José boa tarde!!
ResponderEliminarMAGNÍFICO..🌊🌊⛤⛤⛤⛤⛤
ADOREI. Mesmo sem tempo, não resisti a ler o texto todo.
Acho mesmo que entrei na loja.
[
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Luísa Faria.
eu tinha percebido!
ResponderEliminarClaro que podes pôr no LadosAB!
Obrigado!
ResponderEliminarGostei também muito de o escrever.
Resto de óptima semana.
Belo negócio ahah Adorei!
ResponderEliminarEssas lojas são uma fonte de riquezas! Sabedoria escondida, pérolas maravilhosas. Sou daquelas que gosta de andar a chiriquitar, a ver que desencanto
Beijinhosss
Obrigado!
ResponderEliminarSão uma fonte de riqueza essencialmente para os donos.
ResponderEliminarAgora é que falaste bem!!
ResponderEliminarEu falo sempre bem. Escrevo é mal.
ResponderEliminarAdoro!
ResponderEliminarBeijos meu querido!
Obrigado.
ResponderEliminarQue é feito de ti? Pensei que estavas em trânsito para Marte.
E estava, mas ali para os lados de Jupiter fiquei sem gasoil e tive que voltar
ResponderEliminarTinha lido à hora do almoço, mas não comentei, comento agora:
ResponderEliminarfizeste-me recordar as tuas "velharias".
Muito conhecimento de...
Parabéns.
Como é sempre a descer chegaste num instante...
ResponderEliminarE ja viste a última aquisição?
ResponderEliminarObrigado.
Mais ou menos isso
ResponderEliminarJá calculava!
ResponderEliminarO móvel.
ResponderEliminarNão... uma telefonia restaurada!
ResponderEliminarFui buscar ao teu texto o que poderias ter comprado.
ResponderEliminarEscreveste algum post sobre a telefonia?
São lindas, as telefonias
Precisamente hoje!
ResponderEliminarFoi uma coincidência!
Então, vais escrever sobe ela.
ResponderEliminarAté amanhã.
Escrevi hoje canudo!
ResponderEliminarAqui!
https://ladosab.blogs.sapo.pt/uma-velharia-nova-1182564
Obrigada por me levares ao antiquário! Que pintura de palavras perfeita e que belos personagens. Adorei
ResponderEliminarPrimeira semana e cinco nos mais comentados
ResponderEliminarE parabéns, o teu merece completamente a posição que ocupa!
B'jinhos e um bom dia
Cristina,
ResponderEliminarDiria que bastou passear pela minha casa para poder descrever estas coisas...
(Não, não tenho nenhuma ONDA)....
Fátima,
ResponderEliminarparte dos comentários foram troca de mensagens. Mas ainda assim muito obrigado.
Entretanto vou enviar-te um mail por causa da lista de participantes.
E já agora parabéns pelo destaque nos Recortes.
É sempre tão bom falar contigo, até parece que ouço a tua risada ao antecipar a pergunta obvia da Onda?! Há coisas assim, gente que nos responde antes de perguntarmos e sabe sempre bem!
ResponderEliminarTambém vi querida Fátima, somos uns Sapos Unidos! Gostamos de nos ler e de escrever guiados por um farol comum que nos leva a paragens tão dispares, tão bom!
ResponderEliminarObrigada
ResponderEliminarEstá mesmo a ser fantástico
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ResponderEliminarassim se vê a careca de um descarado!
o texto está excelente
beijinhos e feliz dia
Careca? Descarado? Quem? Eu?
ResponderEliminarObrigado Aninhas. Adorei escrever sobre as minhas coisas
Oh... mas que enorme elogio. Não sei se sou dele merecedor!
ResponderEliminarMas obrigado. Sou uma pessoa genuína já que há muuuuuuuuuuuuuuuito deixei de mentir a mim mesmo.
Beijos e bom fim de semana!
ResponderEliminarAdorei!!! Encontras sempre as mais brilhantes soluções para os temas. Este texto é muito instrutivo se eu fôr a algum antiquário no futuro. Acho pouco provável porque velharias não me faltam cá em casa .
ResponderEliminarHá tantos anos que não ouvia/lia a palavra chiriquitar. Adoro.
ResponderEliminarAcho que transmite mesmo o significado
ResponderEliminarBeijoquinhas
Bem vinda ao clube.
ResponderEliminarMas ainda assim consigo ter coisas mais velhas que eu!
Interessante, gostei de todos os detalhes do texto. Abraço bom fim de semana
ResponderEliminarObrigado Célia!
ResponderEliminarregatear disfarçadamente, portanto. :)
ResponderEliminarMuito bom.
Beijinhos,
Carina
Exactamente.
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