Desafio de escrita dos pássaros #3.0 - Tema 3

Mote:  Não aguento mais contigo! - afirmou, enquanto o atirava para longe.


Havia longas horas que Valdemar não tirava os olhos do velho monitor que lhe ocupava metade da secretária. Esta também parecia quase nem existir tal era o profusão de processos que se alastravam por cima do tampo, uns em cima dos outros, em torres de papel pouco equilibradas, não obstante haver um recado permanente e preso num dossier escrito em letras garrafais por ele próprio e que dizia: amanhã dia de arquivo.


Porém todas as manhãs o inspector quando chegava lia o papel e exclamava para si a sorrir: ah é só amanhã. E assim continuava a bagunça. Alguns colegas brincavam com ele por causa daquela desorganização, essencialmente pedindo-lhe informações de crimes resolvidos, mas que poderiam estar relacionados com outros mais recentes, no intuito único de o verem vasculhar no meio de tanta celulose. No entanto Val rapidamente sacava do fundo das resmas do tal processo, deixando os colegas quase sempre muito desconfortáveis.


Mas naquele serão não eram processos para relatar e arquivar que Valdemar buscava, mas tão-somente algo que lhe desse uma indicação, que lançasse alguma luz sobre o crime que tinha entre mãos.


- Que caneco… mas este tipo ou tipa não tem qualquer informação nesta base de dados… nem uma multa de estacionamento… Nada! – desabafou quase zangado.


Sentiu bater no seu ombro e deu um salto na cadeira. Adormecera sem dar por isso a olhar para aquele monstro informático.


- Bom dia Val… ficaste aqui a noite toda ou vieste directamente da borga? – perguntou-lhe o chefe acabado de chegar à Brigada.


Valdemar sentiu-se levemente ofendido, mas nada devolveu ao chefe, a não ser:


- Bom dia Aquiles, fiquei aqui à procura de algo sobre o assassínio de há um mês… e nada! É desesperante…


- Val… vai para casa! E se não conseguires resolver não serás o único. O que falta no arquivo são casos por resolver…


- Ó chefe parece que não me conhece. Eu quando pego numa coisa não a largo até esmiuçar a situação. Mas esta… tem dado água pela barba.


- Ouve… aceita um conselho… vais para casa, dormes umas boas horas, comes devidamente e quando estiveres recomposto regressas. Estás a perder tempo sem ganhar conhecimento. Vá pira-te daqui!


- Mas chefe…


- Em vez de conselho passa a ser uma ordem! Desaparece daqui! Chispa!


Valdemar ergueu-se da sua secretária devagar pegou na capa do processo pouco volumoso e…


- Não aguento mais contigo! - afirmou, enquanto o atirava para longe.


As folhas soltas voaram então pela sala e por cima de uma série de secretárias obrigando-o, antes de regressar a casa, a reunir toda a papelada.

Comentários

  1. É o que mais detesto ver nas mesas: papelada.
    E também detesto arquivar.
    Bom texto.

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  2. Por vezes dá mesmo vontade de atirar com a papelada pelo ar. Não fosse já ter aprendido a lição e seria ver as folhas a voar pelo escritório com maior regularidade.

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  3. Por isso é bom mudarmos de gabinete. Fica muito papel no caminho...
    Sei do que falo.

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  4. O nosso Valdemar fez o que tantas vezes temos vontade!
    Belo texto José!
    Bom fim de semana

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  5. Obrigado Cristina.
    Se puderes vai ao teu mail. Provavelmente no Spam estará um mail meu.
    É verdadeiro.

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  6. Não tenho nada no mail, nem no spam... Manda de novo se puderes, estou curiosa! Desafios?

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  7. Gostei, mas estava à espera que quando as folhas caíssem, uma delas sobressaísse e apontasse uma pista...

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  8. Se calhar até havia mas o Val nem reparou....
    Ahahahahahahaah. Bom resto de domingo.

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  9. No fundo o Valdemar é o protótipo do organizado na sua desorganizaçao

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  10. a vida do Valdemar não está fácil, mas a sua determinação promete.
    beijinhos e feliz semana

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  11. Promete pouco Ana, que estes exercícios são tramados.

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  12. ai miúdo, se te apanho bato-te por teres o hábito de desvalorizares-te
    beijos e feliz dia

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  13. Neste caso o problema é mesmo o tema seguinte.
    São cada vez mais complicados.

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  14. Neste caso o problema é mesmo o tema seguinte.
    São cada vez mais complicados.

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