Uma longa noite!

Acordou repentinamente. Olhou o despertador que iluminava 2 e 13. Ergueu-se e recostou-se na cama. Estendeu a mão, acendeu a luz da mesa de cabeceira e pegou no cachimbo. De seguida a bolsa de plástico com as farripas castanhas do tabaco e por fim o calcador e restantes utensílios.


Com as pontas dos dedos indicador e polegar foi retirando farripas castanhas e foi carregando o fornilho negro. De seguido calcou o conteúdo. Voltou a encher até ficar repleto e bem calcado. Por fim pegou no picão e espetou-o até sentir o fim do fornilho.


Foi o momento de o acender. Pegou num fósforo e ateou-o. Com a chama viva aproximou-a da boca do fornilho, levou a boquilha aos lábios e aspirou. A chama entrou então por entre as farripas secas acendendo-as.


O fumo começou a subir e finalmente recostou-se ainda mais à cabeceira da cama. Ao seu lado na cama residiam um monte de folhas brancas de tamanho A4, uns blocos quadriculados, uma velha máquina de escrever e uma série de lápis e canetas. Na outra mesa de cabeceira dormiam alguns copos sujos e no chão algumas garrafas vazias de vinho.


Mirou aquela feira e enterrou-se no meio dos lençóis que havia muito não conheciam lavagem. Continuou a fumar. Assim que esvaziou o cachimbo levantou-se da cama e acendeu a luz do quarto. Pairava no ar um cheiro nauseabundo e pestilento onde o aroma adocicado do fumo do cachimbo se misturava com o cheiro de vinho azedo.


Tinha pouco mais de seis horas para acabar o seu livro. Assim fora o último acordo após demasiados adiamentos. Mas a preguiça…


De súbito escutou o telefone a tocar. Ouvia-o, mas desconhecia onde estava. Quando o encontrou olhou o aparelho e viu escrito o nome do seu editor.


Para logo a seguir soar uma sinatética de uma mensagem. Leu:


Estou à tua porta. Já percebi que estás acordado porque vi luz no quarto. Deixa-me entrar”. Aproximou-se da janela e deparou com uma figura magra que encostado a um poste de electricidade, lhe acenou.


Decorreram mais de dez minutos até que franqueou a porta.


- Desculpa a hora, mas não posso deixar que um talento como o teu seja desperdiçado. Achas que falta muito para acabar o livro?


O escritor de cachimbo vazio na mão, sentou-se na beira da cama e devolveu:


- Falta-me o fim… Serão no máximo três folhas, mas são mais importantes que o resto do livro.


- Porra homem acaba isso caneco. Mesmo que não fique bem agora ainda podes corrigir antes da publicação…


De súbito ocorreu uma ideia ao editor. Agora passá-la ao escritor é que seria mais difícil. A cabeça fervilhava e poderia ser uma ideia brilhante, mas o autor teria de concordar.


- Escuta… tive uma ideia.


- Sobre?


- O final do teu livro…


- Como assim?


- Entrega-o sem fim…


- Tu estás louco! – ergueu-se da cama e aproximou-se uma vez mais da janela.


- Posso estar, mas pode ser uma ideia genial… Pensa nisso agora.


- Não posso porque o título do livro está neste final apoteótico.


- Mas isso é fácil… Basta mudares o nome do livro…


O escritor aproximou-se do editor e ameaçou-o de forma ríspida:


- Nem penses, nunca na vida! Isto não é “A história interminável”…


- Eu sei companheiro, eu sei! Então termina a porcaria do livro – respondeu o editor já visivelmente irritado.


Saiu batendo com a porta.


Eram 3 horas de uma madrugada!


Quatro horas mais tarde a máquina de escrever, finalmente, calou-se!

Comentários

  1. Adoro estes pedaços de histórias que nos deixam água na boca, vontade de mais...
    Estive naquele quarto, com todos os cheiros de desespero, tabaco e álcool retardado.

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  2. Bom dia Isabel,

    Acho interessante estes ambientes ébrios em que muitos artistas vivem.
    Vá lá saber porquê...

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  3. E X C E L E N T E ! adorei. a forma como descreves a preparação e o prazer de fumar um cachimbo é invejável.
    F A B U L O S O ! adorei mesmo

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  4. Sabes Ana fui fumador de cachimbo durante muitos anos.
    E nunca gostei de charutos.
    Obrigado.

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