Serafim!

Nasceu numa noite de tempestade. No quarto para além da parturiente, a parteira que mais não era que a própria avó.


Serafim cresceu ao Deus dará! Nunca foi registado, nem baptizado. Quando chegou à idade escolar não apareceu pois nem sequer existia não obstante todos o conhecerem na aldeia.


Cedo procurou trabalho para ganhar uns cobres. Guardar umas ovelhas aqui, limpar as camas das vacas ali, descamisar milho acolá.


Quando morreu o pai e logo a seguir a mãe ficou sozinho na velha e pobre casa, já que os irmáos haviam partido para outros destinos.


Um dia Serafim viu-a ao longe. Parecia um anjo, igual aos que surgiam na procissáo das Festas em Honra de Nossa Senhora das Dores que nunca ia mas via passar. Seguiu-a e percebeu onde morava. Teria mais ou menos a sua idade e era linda, linda, linda!


À noite na sua enxerga sonhara com ela. E viajara!


Não lhe conhecia nome e cedo percebeu que ela vivia fora da aldeia, talvez na cidade. Mas ainda assim sentia-a como dele.


Certa tarde quando regressava a casa após ter sachado um chão de batatas, percebeu que ela caminhava no sentido contrário ao seu e que se cruzariam. Baixou então os olhos na sua humildade e sujidade e apressou o passo. Ao passar por ela cumprimentou numa interjeição incompreensível. Ela devolveu para logo vir atrás dele.


- Boa tarde, sou a Juliana - estendendo-lhe a máo.


A sua voz era ainda mais bonita do que imaginara. A mão branca, límpida assim esticada parecia quase um crime sujá-la. Mas ela manteve-a diretita. Ele então bateu com a sua mão nas calças de forma a afugentar a sujidade e tocou apenas no ponta dos dedos:


- Serafim, o meu nome é Serafim!


Ela olhou aquele monte de terra ambulante e descaradamente convidou:


- Hoje na festa irei dançar consigo já que náo o conheço.


Atrapalhado o jovem nem soube o que dizer, apenas:


- Eu não posso ir!


- Não pode porquê?


Teria de dizer a verdade, mas não sabia como.


- Porque não posso.


Virou as costas à menina repentinamente e seguiu de passo ainda mais apressado até casa.


Após ter comido umas batatas frias quase negras com uns tomates demasiado maduros estendeu-se e quase chorou. Nem sabia se era de vergonha...


Adormeceu para acordar com alguém a chamá-lo:


- Serafim, ó Serafim, estás em casa, home'?


- Já vou, já vou.


Junto à cancela de madeira meia partida o Asdrúbal, o seu único amigo, aguardava. A noite caíra e ouvia-se ao longe os sons da música.


- Que me queres?


- Mandaram-me vir buscar-te para ires à festa.


- Já disse esta tarde que não vou... nunca fui a nenhuma festa.


- Pois esta terás de ir.


- Não vou, já disse - e virando as costas ao amigo entrou em casa.


Depois pegou num velho balde e foi até à fonte buscar água. Colocou esta em cima de uma velha bacia e iniciou uma espécie de lavagem das mãos e da cara. Estava neste preparo quando bem perto de si escutou atrás de si aquela maviosa voz.


- Serafim, pedi-lhe para vir á festa. Porque não vem?


O jovem virou-se devagar, olhou-a bem no fundo e por fim assumiu:


- Menina... não vou porque sou um pobre diabo de quem todos fogem.


Não convencida Juliana rematou:


- Serafim vai agora comigo a minha casa que há lá quem trate de si.


Todavia o jovem não foi, recusou-se peremptoriamente.


Entretanto no dia seguinte o jovem foi visto a tomar banho no rio quase gelado.

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