Castanho Escuro

Nasceu debaixo de uma velha e rasgada albarda que cobriu em muitas e longas jornadas uma burra assaz teimosa. O palheiro do ti’Xico Favinha era um local propício e óptimo para se nascer. Debaixo das telhas de canudo, velhas como o mundo, os pombos, os pardais e sazonalmente as andorinhas nidificavam com serenidade.


Com ele nasceram cinco irmãos, todavia desde cedo mostrou-se mais ágil e afoito para fora do círculo maternal, que os demais. Fosse por isso ou por outra razão que ele desconhecia, a verdade é que rapidamente alcançou a liberdade de andar pelo barracão.


Quando atravessou pela primeira vez a velha e esburacada porta com acesso à rua cresceu nele uma emoção. Nesse dia conheceu o Sol luminoso, o céu azul, a terra batida e sentiu o cheiro intenso das lareiras acesas e demais outras estranhas fragâncias. Uma delas veio de um animal que não conhecia até àquele instante. Alto, muito alto tinha quatro membros como ele, mas deslocava-se somente em dois. Depois veio outro semelhante, mas mais pequeno. Depois mais outro...


Sentiu medo, muito medo e assim correu para o aconchego do seu buraco onde a mãe carinhosamente o lambeu. Quando lhe deu a fome procurou no chão alguns restos de um borracho que, descuidado caíra do ninho ou outro pássaro qualquer. Tudo servia para matar a fome.


Depois mais ou menos saciado deitou-se junto dos irmãos e dormiu serenamente.


Certo vez afoitou-se ainda mais na rua. Os odores bizarros cresciam, mas havia outros que sentia serem fantásticos. Ao longe pareceu escutar um barulho e reparou noutros animais grandes iguais aos da primeira vez e fugiu veloz para o barracão.


Todavia todos os dias voltava à rua e atrevia-se a ir cada vez mais longe. Fugia sempre que podia dos bichos grandes temendo que lhe fizessem mal.


Até que um dia um desses animais deu por ele e escutou:


- Papá, papá que cão tão giro. Já viste a cor dele? Castanho tão escuto que parece um chocolate.


Seria dele que falavam? Não percebia o que diziam, mas pareciam amistosos. Um deles, o mais pequeno, estendeu-lhe mesmo um osso. Hummmm! Como tinha bom aspecto e cheirava bem! Temeu o risco de se aproximar, mas provavelmente valeria a pena.


Lentamente aproximou-se do outro bicho, que nem sabia como ficara agora quase à sua altura. Perdeu o medo e num ápice ferrou o dente no enorme osso e escapou a toda a velocidade para o seu barracão, onde resguardado dos irmãos, ficou a ratar nele o resto do dia.


Na manhã seguinte voltou a encontrar o animal grande que após o ter visto escutou:


- Pai olha ali o Chocolate. Podemos levá-lo connosco, podemos?


Nem teve tempo para fugir para junto dos seus, pois no segundo seguinte estava num colo e numa viagem para muito longe do barracão do ti' Xico Favinha.


 


- Terá sido esta a tua história, velho companheiro? Se não foi, ficou a ser...


Chocolate, um cão rafeiro de cor castanha-escura ouviu a questão proposta pelo amigo, deu um breve latido como se tivesse percebido, bocejou e voltou a enterrar o focinho por entre as suas patas dianteiras e preparou-se finalmente para adormecer em cima do bonito tapete persa.


 


Texto escrito no âmbito do desafio da "caixa de lápis de cor" da  Fátima,. Entram também a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Peixe Frito, a Isabel, a Luísa De Sousa, a Maria, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor, a Miss Lollipop, a Ana Mestre, a Ana de Deus, a Cristina Aveiro, a bii yue, o João-Afonso Machado , a Marquesa de Marvila e a Olga Cardoso Pinto.


 

Comentários

  1. Ah, que ternura!
    Acho que já tinha dito, mas repito: gosto tanto da tua prosa

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  2. Fátima,

    após o último exercício que não foi muito bonito achei que seria tempo de acabar com alguma ternura.
    Faz-me falta um canito. São daqueles amigos que jamais nos atraiçoam.
    Obrigado pelo convite a este desafio e pergunto se o branco é para seguir?

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  3. É sim! Amanhã é dia de brainstorming - e sexta feira apresento o desafio dos quadros, que foi o que reuniu preferências...

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  4. Hei-de debruçar-me sobre isso amanhã
    Logo vou lembrar ao pessoal o branco e perguntar se querem fazer uma pausa ou seguir logo na quarta feira seguinte... eu acho que devíamos deixar pelo menos uma semana de intervalo, em que podíamos aproveitar para fazer o balanço das treze semanas do desafio.

    E tu, já pensaste num quadro para sugerires? Eu gosto de um punhado deles...

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  5. Tenho diversos!
    Mas deixo aos outros o direito de escolherem primeiro. "Ladies first".

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  6. Vou pedir o envio de um por pessoa. Somos vinte, mas acho a tua sugestão de que sejam doze quadros é excelente, pelo que se todos concordarem, depois de os receber, ponho os nomes no randomizer, e os primeiros doze serão os que ficam...

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  7. Uma escrita reconfortante, bonita, e fofa como o Castanho. Belíssimo texto.

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  8. Isabel

    Pretendi acabar este desafio de forma serena. Mal sabia eu do branco...
    Obrigado.

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  9. Não apareces nos destaques do desafio porque falta-te o "de" de; caixa de lápis . Confirma.

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  10. ohhhhhhhhhhhhhhhhhhh, tão bommmmmmmmmmmmmm.... quero esse cão....


    Beijinhos

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  11. E de certeza que o Chocolate teve uma vida muito feliz cheia de brincadeiras. Tão bom !!!
    É sempre um prazer enorme ler a tua escrita meu querido José.

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  12. Também eu...
    Beijos e obrigado por teres regressado.

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  13. Obrigado Miss,

    Mas sao as tuas histórias que irei ler um dia à minha neta.

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  14. Gosto muito do teu chocolate José! Bela história, gostei muito.

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  15. Adoro cães.
    Daí a escrever sobre eles foi um salto.
    Obrigado Cristina.

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  16. A minha filha mais nova deixou-me uma pequena cadela que foi o "meu" primeiro cão, veio cá para casa já eu estava a caminho dos 50. Conquistou-nos a todos, é uma Senhora, toda calma, estilo e com uma capacidade de entender os nossos estados que escapa a uma boa parte dos humanos. Não preciso de dizer que a adoro!

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  17. Cristina,

    Tive uma cadela assim, que morreu há dois anos.
    Relembro um texto que o meu filho mais novo escreveu sobre ela.
    https://obmf.blogs.sapo.pt/um-adeus-a-senhora-de-negro-91773
    Simplesmente sublime.

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  18. Façamos votos para que os irmãos da ninhada do Chocolate tenham tido sorte idêntica.
    Abraço.

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  19. Por acaso caríssimo João-Afonso estive para acabar o conto com essa questão.
    Depois achei que era melhor não.
    Abraço.

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  20. Oh, que delícia. Até me apeteceu fazer uma festa ao Chocolate .

    Já agora, faço a percunta tens um dicionário de palavras estranhas e invulgares?! É que aprendo sempre palavras novas quando passo aqui .

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  21. Charneca

    Qual a palavra desconhecida?
    Nao imagino qual seja.

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  22. Meu querido José. Babo-me toda quando me dizes isso.

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  23. Se necessitares de um babete avisa que tenho aqui alguns da minha neta.
    Mas o que escrevi é a pura das verdades!

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  24. Cor de chocolate/ castanho escuro, nos cães é linda!
    Eu adoro.

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  25. A minha mãe teve um dessa cor ao qual chamámos "Brown".
    Acho que até publiquei fotos por aqui.

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  26. Que rico Chocolate e que sorte teve! Houvesse mais meninos assim.
    Boa noite amigo José.
    Bjs

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  27. Um chocolate fica sempre bem com um café!
    Não fica menina Olga?

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  28. Que bom !!!! Eu adoro animais. Adorei. Abraço amigo e um bom dia!!!

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  29. Olalá se fica! Ainda agora marchou o café e uns 3 (ou seriam 4, 5?) bombons de chocolate?
    Boa noite.
    Bjs

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  30. Eu gosto muito de café.
    Mas bebo-o sem açúcar porque não gosto que este me saiba a café!
    E nunca fraco!

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  31. Uma noite descansada que vou escrever o desafio... branco!

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  32. Consigo ver daqui o Chocolate. E desde que o deixem dormir...

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  33. O Chocolate assemelga-se ais novos ricos da actualidade.
    E sim deixem-no dormir q0

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  34. lindo, lindo, lindo e adoro o pormenor (que tantos esquecem quando se sentem donos de outros animais) o pormenor de que os humanos também são bichos. obrigada pela partilha, amigo José. beijinhos e feliz dia

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  35. Que linda história, adorei ler! e que sorte a do chocolate!

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  36. Até para se ser cão é necessário ter sorte!

    Obrigado!

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  37. Então não é! tenho uma amiga que foi buscar um cachorro encantador ao canil, o animal já lá estava há 3 anos. Quando ela o levou para casa, o pobre não podia ver nada que refletisse a sua imagem, desatava a ladrar de tal maneira que ela nem aguentava. Agora, passados alguns meses e tratado com tanto mimo, é uma doçura de animal!

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  38. Tenho tanta falta de um canito...
    Desde que morreu a minha Lupi sinti-me desamparado.

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