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A mostrar mensagens de abril, 2021

A última cor! #2

A secretária muito bonita, mas pouco vestida e profundamente maquilhada atendeu o telefone e após ter respondido quase em surdina levantou-se do lugar e aproximou-se do jovem: - Quer fazer a fineza de me acompanhar. - Ah sim, com todo o gosto! A jovem assistente seguiu na frente e abriu a porta do gabinete deixando que o outro entrasse. - Faça favor. O jovem agradeceu e passando pela frente da esbelta secretária, penetrou no gabinete que já conhecia. Ao fundo o editor de pé olhava pela janela. Dando conta da visita virou-se repentinamente estendendo a mão para um cumprimento: - Ora viva caríssimo, o que o trás por cá? - Não sei se se recorda do que me pediu para fazer antes de publicar o dito livro das cores… - Muito bem… Sem mais diálogo o jovem escritor entregou ao editor um envelope fechado. Acrescentou: - Aqui está… Espero que seja a cor que calculava… e que esteja do seu agrado! - O quê? Você já escreveu o conto sobre uma tal cor que faltava? - Correcto. - Então deixe-me ler… - e ...

Triste evidência!

Entrou em casa em silêncio. Descarregou a mala pesada no corredor, descalçou os sapatos substiutuindo-os por uns chanatos puídos e rotos, despiu o casado pendurando-o no bengaleiro e finalmente entrou na cozinha. A mulher cercada de tachos e panelas a fumegar sorriu quando o viu chegar: - Olá amor... - e mirando-o, continuou - que tens? Vens com cara de caso... O marido aproximou-se dela osculou-a na cabeça enquanto respondia: - Boa noite querida. Não tenho nada... é só cansaço. Dirigiu-se à mesa onde já residiam apenas dois pratos e perguntou: - Os miúdos? - Estão na faculdade até tarde. Têm frequências amanhã, creio. - Precisamos falar. - Ai home? O que se passa? Eu bem vi que não estavas bem - e puxando de uma cadeira sentou-se em frente do marido. Este enfiou a cabeça entre as mãos e mantinha-se em silêncio. - Ai marido, diz-me tudo. Seja bom ou mau... Estamos cá para resolver as coisas. Como sempre fizemos. - Desta vez não sei...  - Ai... não me digas que foste despedido? - Não......

Serafim!

Nasceu numa noite de tempestade. No quarto para além da parturiente, a parteira que mais não era que a própria avó. Serafim cresceu ao Deus dará! Nunca foi registado, nem baptizado. Quando chegou à idade escolar não apareceu pois nem sequer existia não obstante todos o conhecerem na aldeia. Cedo procurou trabalho para ganhar uns cobres. Guardar umas ovelhas aqui, limpar as camas das vacas ali, descamisar milho acolá. Quando morreu o pai e logo a seguir a mãe ficou sozinho na velha e pobre casa, já que os irmáos haviam partido para outros destinos. Um dia Serafim viu-a ao longe. Parecia um anjo, igual aos que surgiam na procissáo das Festas em Honra de Nossa Senhora das Dores que nunca ia mas via passar. Seguiu-a e percebeu onde morava. Teria mais ou menos a sua idade e era linda, linda, linda! À noite na sua enxerga sonhara com ela. E viajara! Não lhe conhecia nome e cedo percebeu que ela vivia fora da aldeia, talvez na cidade. Mas ainda assim sentia-a como dele. Certa tarde quando reg...

Entre o ar e o mar

Calculas quanto há de amor  numa mão estendida à dor?   Imaginas quão brando é o coração que ama sem sofrer de paixão?   Sabes como dorme o pensamento de quem vive sempre o momento?   Que caminhos percorrem os sonhos quando não há outros testemunhos?   As respostas pairam talvez no ar ou quem sabe nas ondas do mar!

Uma longa noite!

Acordou repentinamente. Olhou o despertador que iluminava 2 e 13. Ergueu-se e recostou-se na cama. Estendeu a mão, acendeu a luz da mesa de cabeceira e pegou no cachimbo. De seguida a bolsa de plástico com as farripas castanhas do tabaco e por fim o calcador e restantes utensílios. Com as pontas dos dedos indicador e polegar foi retirando farripas castanhas e foi carregando o fornilho negro. De seguido calcou o conteúdo. Voltou a encher até ficar repleto e bem calcado. Por fim pegou no picão e espetou-o até sentir o fim do fornilho. Foi o momento de o acender. Pegou num fósforo e ateou-o. Com a chama viva aproximou-a da boca do fornilho, levou a boquilha aos lábios e aspirou. A chama entrou então por entre as farripas secas acendendo-as. O fumo começou a subir e finalmente recostou-se ainda mais à cabeceira da cama. Ao seu lado na cama residiam um monte de folhas brancas de tamanho A4, uns blocos quadriculados, uma velha máquina de escrever e uma série de lápis e canetas. Na outra mesa...

Nostalgia

Fosse eu poeta e trovador De canções de belo cantar Trovaria sobre paixão e amor Liberdade, odes de encantar.   Lancei à terra dos sonhos Esperanças de novos dias. Colhi frutos tão tristonhos Incertezas e noites frias.   O mundo não me chorará Na noite em que eu partir Pois a vida não se ensaiará Do meu passado também rir.   Não importa as lágrimas que choro sempre sozinho. São de uma vida pérolas, Que ensinaram o caminho.

Escrevendo

De que serve lavrar em palavras As lágrimas da dor de uma alma. Traços rasgados quais lavras, Num coração triste, a exigir calma.

A última cor!

Fixava atentamente o seu antagonista. Do outro lado da secretária ele conseguia ver a velocidade com que os olhos cruzavam as páginas. As folhas deslizavam na mão de forma célere para no momento seguinte pararem. Ergueu o olhar para perceber a avidez de uma resposta no outro olhar. - Então o que me diz? Tentou perceber antecipadamente através da troca de olhares alguma ideia, mas não conseguiu. Por fim o outro largou os papéis em cima da secretária poisou as enormes mãos por cima, dobrou-se sobre o móvel aproximando-se e finalmente: - Eh pá que coisa gira que você aqui me trouxe... - A sério? O outro levantou os polegares e continuou: - A ideia é fantástica, tem aqui textos fabulosos e eu estou pronto a apostar na edição deste livro. Nem queria acreditar. - Está mesmo a falar a sério? - Oiça... o meu tempo é escasso. Preferia estar agora num campo de golfe a dar uma tacadas que estar aqui. Portanto eu não perco tempo. Gostei desta sua ideia... - Minha e não só minha - interrompeu. - Se...

Desafio da abelha... (versão de Abril!!)

Imagem
Mote:  conta a história que esta foto te inspira. - Boa tarde, faça favor de dizer. - Boa tarde... tenho consulta com o Dr. Ataíde. - Sim senhora. E qual o seu nome? - Almerinda Peres. - Ah aqui está... é só aguardar aí na sala se fizer favor. O senhor doutor já a chama. - Obrigado. Na sala vazia havia uma pequena mesa onde se espalhavam revistas cor-de-rosa antigas com outras recentes, um jornal diário e um desportivo. Todavia não lhe apeteceu ler. Ficou a mirar o consultório e a sua decoração. - Dona Almerinda Peres – chamaram. Acordada da sua letargia, ergueu-se e deu de caras com um jovem médico de máscara azul-bebé a tapar-lhe a face. - Boa tarde, faça favor de entrar - e apontou a porta do gabinete. A doente passou na frente do médico, aspirou o aroma agradável do perfume e pensou: “ Tenho de lhe perguntar o nome da colónia. ” A consulta correu bem até que a determinada altura a cliente perguntou: - Então diga-me tudo doutor… - Bem para já só tenho uma coisa para lhe dizer… - É g...

Vagueando!

Vai, voa, Alcança o anil acolchoado. Brancas almofadas onde te escondes.   Vai, voa, Abraça vento e o Sol. Trilhos simples, Sem dor nem cor.   Vai, voa, Não olhes para trás. Não busques, Apenas aceita.   Vai, voa, E traz-me notícias. De mim, do mundo.   Vai, voa. Diz ao futuro incerto. Que estou prestes A chegar!

Branco... e não só!

Hoje é o dia do bonito branco Pai simples de todas as cores. Da pureza com quem eu brinco As laranjeiras e das suas flores.   Antes foi aquele vermelho forte Do doce morango e do sangue. Que sem este presente é a morte Desta triste vida que é exangue.   Falou-se de um simples amarelo , Aquele de um pôr e nascer do sol. Uma cor por detrás de um novelo Uma luz mais forte que nem farol.   Escreveu-se sobre uma linda rosa Que é a cor intensa do feliz amor. Uma flor, uma flama tão graciosa, Um mero desejo plasmado em dor.   Tombaram castanhos e castanhas No meu singelo e real embaraço. Cores escuras e assim tamanhas De todas as vidas, um só pedaço.   Os loucos azuis talhados de tons Escuros, claros, vivos, eléctricos. Mais do que o mar os seus sons E os ensejos quiçá tão patéticos.     Verdes foram eles frescos, muitos Que sem falhas todos esgalharam. Uns simples, outros mais afoitos Mas que a todos nós encantaram.   Ouve mesmo uma certa laranja , Que assumimos ser cor berrante Foi-nos ...

Desafio sem “e”

Resposta ao desafio da Abelha   Já vi, amor A flor da vida… Branca, lúcida, fugaz.   Já vivi, amor A dor da distância… Raivosa, franca, bravia.   Já assumi, amor A paixão do sonho… Arisco, ínvio, mordaz.   Por fim, amor Tudo isto mostra, Uma vida louca… uma lágrima chorada…

Castanho Escuro

Nasceu debaixo de uma velha e rasgada albarda que cobriu em muitas e longas jornadas uma burra assaz teimosa. O palheiro do ti’Xico Favinha era um local propício e óptimo para se nascer. Debaixo das telhas de canudo, velhas como o mundo, os pombos, os pardais e sazonalmente as andorinhas nidificavam com serenidade. Com ele nasceram cinco irmãos, todavia desde cedo mostrou-se mais ágil e afoito para fora do círculo maternal, que os demais. Fosse por isso ou por outra razão que ele desconhecia, a verdade é que rapidamente alcançou a liberdade de andar pelo barracão. Quando atravessou pela primeira vez a velha e esburacada porta com acesso à rua cresceu nele uma emoção. Nesse dia conheceu o Sol luminoso, o céu azul, a terra batida e sentiu o cheiro intenso das lareiras acesas e demais outras estranhas fragâncias. Uma delas veio de um animal que não conhecia até àquele instante. Alto, muito alto tinha quatro membros como ele, mas deslocava-se somente em dois. Depois veio outro semelhante, ...

Desafio das Cartas do Correio

Caríssimo leitor, Esta missiva que ora se espraia é dirigida a ti. Verdade... Todavia e em primeiro lugar espero que esta te vá encontrar confinado, mas não covidado (desculpa a brincadeira do trocadilho!) e de óptima saúde. Segundo lembrei-me de te escrever porque tu mereces-me todo o respeito e admiração. Respeito porque alguém que se maça a vir a este blogie para ler uns textos que aqui vou depositando é alguém com coragem. Admiração porque simplesmente admiro os corajosos. Há sempre uma questão que me fica a pairar nos lábios quando vou às estatísticas da plataforma SAPO e vejo umas dezenas de visitas e que é a seguinte: O que te leva, amigo leitor, a vir aqui ler e quantas vezes comentar? Que o faças uma vez ainda admito e aceito. Mas regressares a este espaço parece uma atitude, quiçá, um tanto masoquista, não achas? Mas quem sou para te julgar... Tenho consciência que uns textos até têm alguma graça, não no aspecto humorístico obviamente, mas tão-somente no seu conteúdo. Mas há ...