Verde claro!
Orlando saiu de casa muito cedo e logo ajustou ainda mais o grosso casaco ao corpo, tal o frio. O sol por detrás do Monte Luz ainda não surgira, mas a madrugada já dava sinal de acordar. O céu limpo ainda apresentava uns tons de cinzento, ténues reflexos da noite que ainda não terminara por completo. Consigo o fiel Bravo, um cão arraçado de Serra de Estrela que ele encontrara perdido e abandonado. Durante dias deu-lhe de comer e beber, tratou-lhe das feridas, baptizando-o pela forma como o animal sempre aceitou os cuidados médicos que lhe ministrava, sem um queixume.
- És um bravo! – dissera-lhe após mais um tratamento supostamente doloroso. Da expressão para o nome foi uma luz...
Desceu o empedrado húmido, virou à esquerda e entrou num caminho de terra batida onde ao fundo um curral se erguia. Orlando abriu a cancela deixando que os animais saíssem para o caminho. Depois seguiu até ao Terreiro Grande, com as ovelhas na sua frente e sempre controladas pelo canito e onde as aguardava a erva viçosa e fresca da manhã.
Ao aproximar-se o rebanho estancou perante o portão fechado. Sabia aquele de cor o destino. Orlando passou por entre as ovelhas e fez correr o portão de ferro.
O gado entrou de rompante e começou logo a comer. Serenamente o pastor deixou que os animais entrassem e cerrou o portão. Por fim e em passo lento foi ao encontro do seu lugar favorito. Uma pedra que ele colocara de propósito por debaixo de um abrunheiro dava-lha a visão de toda a propriedade.
Com ele o Bravo. Sempre.
Sentou-se na pedra, despiu o casaco, retirou do bornal um naco de pão e um pedaço de chouriço e comeu com satisfação. O canito não tinha fome já que enchera a barriga com a ração logo pela madrugada, e assim deitou-se aos pés do dono e dormitava, tendo sempre um olho meio aberto, não fosse alguma ovelha fazer das suas e ele ter que a colocar no local.
Havia perto de um ano que Orlando abandonara a cidade. Cansara-se das pessoas estéreis, do trânsito caótico, dos almoços e jantares barulhentos e sem graça. Das invejas e dos mexericos.
Um dia viera por mero acaso à aldeia dos pais e … apaixonara-se pelo local. Tinha estado demasiados anos afastado do lugarejo e quando finalmente ali regressou não quis voltar para a cidade. Mas a sua vida era na capital…
Quando a pandemia o obrigou ao teletrabalho, Orlando decidiu que seria o momento ideal para largar tudo e ir para a aldeia. Não imaginava o que fosse fazer, mas aquele lugar clamava por si.
Despediu-se da multinacional onde exercia um lugar relevante, vendeu a casa, trocou o carro desportivo por uma carrinha de caixa aberta e fez-se à estrada até chegar à aldeia. Consigo levava algumas roupas e o desejo único de ficar.
Num ápice fez amizade com muitos locais e numa tarde acabou por comprar uma grosa de ovelhas ao Manuel Vasculho, um velho e sabido pastor. E ainda recebeu um velho cajado... de oferta, que nunca usou.
Recostou-se ao abrunheiro, cerrou os olhos e ficou à escuta. Naquele preciso instante apenas se ouvia o balir brando das ovelhas, o sopro suave de uma brisa que descia da montanha e a chilreada frenética dos pintassilgos.
Depois abriu os olhos e perscutou a paisagem… misturas dos verdes secos das oliveiras com os verdes claros da erva viçosa e no meio os verdes carregados dos sargaços invasores.
Uma ovelha aproximou-se lentamamente do pastor. Sabia ao que vinha…
Orlando como que acordou do seu manso torpor ao sentir a ovelha, meteu a mão no bornal e de lá retirou uma meia dúzia de favas que deu a comer ao animal. Outras vieram a correr ao mesmo...
Sorriu...
No fundo, no fundo... a felicidade era só isto!
Texto escrito no âmbito do desafio da "caixa de lápis de cor" da Fátima,. Entram também a Concha, a A 3ª Face, a Maria Araújo, a Peixe Frito, a Isabel, a Luísa de Sousa, a Maria, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,, a Miss Lollipop, a Ana Mestre, a Ana de Deus, a Cristina Aveiro, a bii yue, o João-Afonso Machado e a Marquesa de Marvila
Vale a pena estar acordada, de "plantão" como dizem os meus utentes brasileiros, para ler esta pérola campestre. Ao contrário de grande parte das pessoas, o Orlando ficou melhor com a pandemia .
ResponderEliminarO meu estava agendado para a tarde mas já que estou com insónias, trago erva para as ovelhas, ficam as favas para o entrecosto
ResponderEliminarÉ esta a nossa escolha. A felicidade encontra-se nos gestos mais simples, mais humildes.
ResponderEliminarBem hajas Charneca.
... que o chouriço já tem o Orlando.
ResponderEliminarEstas são sinceramente as minhas raízes. Campo e mais campo. A terra, o gado, a luz da madrugada, os verdes dos prados, o cheiro da lenha a queimar...
Serei sempre um lisboeta campestre! (Se tal existir!)
Obrigado Concha!
Eu nunca morei num sítio mais que 6 anos, parece karma... mas cresci na lezíria, também é no campo que me sinto em casa
ResponderEliminarQuem é professor tem esses karmas... tramados.
ResponderEliminarTambém tenho costela ribatejana, mas mais a norte! Onde nasce a água que tantas vezes a capital bebeu!
~Vê lá se descobres... eheheheheh!
Quantas tardes passei eu nos Olhos d'Água...
ResponderEliminarBravo!
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ResponderEliminarAmei! Tão bem escrito, tão boa história!
E a felicidade é mesmo feita de coisas simples, pelo menos para mim.
Encontra-se felicidade nos momentos mais banais. Basta estarmos atentos.
ResponderEliminarObrigado Cristina pelas palavras..
Quantos de nós ansiamos por esta vida singela?
ResponderEliminarAdorei, meu amigo, como sempre brindou-nos com um texto maravilhoso (sou apreciadora destes contos rurais, como sabe). Obrigada pela sua partilha.
Tenha um dia feliz José.
Bjs
A felicidade está nas coisas simples José
ResponderEliminarGostei muito da tua história
Beijinhos
Feliz Dia
Ora aqui está o sonho dos tempos modernos - é, também, o meu. Largava tudo e ia ontem para a terra do meu pai, Cardigos (conheces a zona, creio, concelho de Mação). Se há coisas de que sentiria saudades em tempos - o cinema, amigo, o cinema era a coisa que me parecia mais difícil de abandonar... - a pandemia fez-me ver que, afinal, não preciso realmente delas.
ResponderEliminarO teu texto é um balsamo, mostra-nos que é possível ganhar qualidade de vida abraçando a felicidade das pequenas coisas.
Em poucas palavras: obrigada por este pedacinho de céu...
Obrigado Olga e bem vinda à comunidade das cores!
ResponderEliminarLuísa,
ResponderEliminarPoderia ser autobiográfica. Mas nao é.
Ainda!
Gostei muito de escrever este texto.
ResponderEliminarUm sonho próprio traduzido em palavras.
E maisum destaque da comunidade.
Foi logo de manhã - desta vez vi
ResponderEliminarEstamos todos de parabéns
Grande b'jinho
Tu mais que os outros ja que a iniciativa foi tua!
ResponderEliminarObrigada José.
ResponderEliminarBjs
Voltou à sua Beira Natal!
ResponderEliminarParabéns, pela inciativa e pelo texto.
Um abraço
Que maravilha de texto meu querido José.
ResponderEliminarO Orlando mudou radicalmente a sua vida e de certeza que é bastante mais feliz com as suas ovelhas e o seu Bravo sempre ao lado. Até dá inveja (da boa).
João-Afonso,
ResponderEliminartanto pode ser na Beira como em Trás os Montes, no Minho ou no Alentejo.
Obrigado.
Abraço.
Obrigado Miss.
ResponderEliminarO Orlando beneficiou com a pandemia... eheheheh!
Mas também gostei de escrever este desafio.
Maravilhoso! Um texto relaxante onde practicamente se conseguem ver os verdes da paisagem, e a felicidade do pseudo pastor.
ResponderEliminarNão sei porque é que este blog não aparece nas minhas leituras.
Porque não merece...
ResponderEliminarObrigado Isabel.
Com textos como este que escreveste, não admira que a iniciativa seja um sucesso
ResponderEliminarAi muito obrigado.
ResponderEliminarMas há outros textos muito bons.
Inclusivamente o teu!
Ainda não consegui ler tantos como desejaria - vou tentar fazê-lo enquanto vejo a Seleção -mas os que li estão tão bons, frescos e primaveris que dão gosto
ResponderEliminarObrigada
Actualmente, há muitos Orlando que trocam a cidade pelo campo.
ResponderEliminarMuito bom,José.
Tudo quanto seja histórias de vidas serenas, eu gosto.
Excelente texto, José!
ResponderEliminarMuitos Parabéns!
"No fundo, no fundo... a felicidade era só isto!"
Boa noite!
Cuida-te!
lindo fazes-me viajar contigo, sempre. és um contador de histórias nato. adoro. beijos e sonhos felizes
ResponderEliminarTão bonito José, é como estar a entrar numa leitura que se quer continuar...
ResponderEliminarTens razão Maria, mas a vida tem mais coisas complicadas que serenas.
ResponderEliminarJá o disse gostei muito de escrever este texto!
Eu avisei-te amiga...
ResponderEliminarSabes gostaria de um dia viver uma vida destas...
Mais que um contador serei um inventor, não é?
ResponderEliminarAhahahahah!
Beijos miúda.
Entendo perfeitamente o que dizes.
ResponderEliminarPoderia escrever mais, mas também percebo que nestes desafios os textos longos tendem a perder impacto.
Um noite descansada e obrigado pelas palavras.
Todos as semanas há bons textos!
ResponderEliminarVai ser assim até ao fim... E ainda bem!
Mas é que é mesmo isso: a felicidade nas pequenas coisas da vida. Essa simplicidade que escreves, enche a alma.
ResponderEliminarBeijoquinhas grandes.
Obrigado.
ResponderEliminarAinda bem gostaste.
Ai se eu pudesse também ia para o campo e deixava a cidade. Muito bom texto. As coisas pequenas são o que mesmo vale na vida. Beijinhos. e boa noite
ResponderEliminarObrigado Célia.
ResponderEliminarEste é um texto dedicado a este tempo inglório e bizarro.
Bom fim de semana.