Rosa

- ROOOOOOSA, Ó ROOOOOOSA – alguém gritava.


Ninguém respondeu.


Naquele preciso instante apenas se ouviam os pintassilgos que nas árvores chilreavam com primaveril alegria, incólumes ao chamamento. Entretanto surgiu vindo do fundo do quintal uma esbelta jovem carregando debaixo do braço um velho e remendado alguidar de barro, vazio. Aproximou-se em passo lento da casa e respondeu num tom áspero:


- Chamou-me mãe?


A antecessora aguardou no pequeno alpendre, no cimo de umas escadas de pedra que a filha se aproximasse. Gastara a força que ainda lhe restava nos gritos e mal conseguia falar. Juntas, a mãe perguntou em tom profundamente sumido:


- Sabes onde o teu pai deixou o garrafão?


A filha passou à frente da mãe em silêncio, virou-lhe as costas e entrou na casa pouco asseada arrastando atrás de si a fraca figura para finalmente responder:


- Tem-no vocês no bucho… beberam-no todo ontem… Cambada de bêbados! Não têm vergonha...


Rosa Maria era a filha de 15 anos de um casal que via no álcool a sua essência. O pai trabalhava no que arranjava, mas num ápice gastava o pouco dinheiro que ganhava na taberna. A mãe não conseguia fazer nada já que estava quase sempre sob o efeito do vinho. Era a jovem e esbelta cachopa que tentava, com assaz dificuldade, tocar a casa para a frente. Umas limpezas aqui, umas ceifas acolá e até um subtil assédio por parte de um patrão a que Rosa fez-se desentendida, mas que lhe haviam valido umas notas boas!


Filha do meio, tinha quatro irmãos, todos rapazes. Os dois mais velhos já haviam partido para longe em busca de melhores vidas. Os mais novos procuraram refúgio na casa de uns tios, que sem filhos, aceitaram as crianças de bom grado e desde tenra idade.


Restara, portanto, Rosa… a flor mais bela da aldeia! Os cabelos pretos, os olhos negros e o corpo formoso faziam da ainda adolescente uma rara beldade. E alvo de incontáveis e impossíveis desejos marialvas!


A mãe com a voz arrastada ainda sob o efeito dos vapores etílicos da última noite, atirou com raiva, espumando:


- Cabra, porca, foste tu que escondeste o garrafão. És uma velhaca!


A jovem ignorou as acusações e sem proferir uma palavra foi à sua luta doméstica.


- Rosa, oh Rosa, minha filha, ajuda-me! Por favor! - pediu encarecida a bêbada, numa voz cada vez mais rouca e sumida e quase a chorar!


Surgindo na entrada a jovem devolveu novamente num tom áspero:


- Se quer ajuda atire-se pelas escadas abaixo… Pode ser que algo de bom lhe aconteça...


Voltou para dentro para limpar a sujidade deixada algures pelos pais na noite anterior.


A mãe olhou-se num velho espelho, muito baço que havia na entrada: uma face sem expressão, o olhar mortiço, as rugas a rasgarem-lhe a face. Depois mirou as mãos engelhadas, as roupas sujas e rasgadas, os sapatos rôtos. Por fim aquela dor que sentia no fundo do peito, lugar onde mora a alma, disseram-lhe certa vez.


Saiu para o alpendre aproximando-se devagar das escadas íngremes e pouco niveladas. Do lado de fora um frágil corrimão de ferro velho e quase todo podre, à sua frente a escadaria...
A cabeça latejava, mas as palavras de Rosa mordiam-lhe ainda. Baixou-se então e olhando os degraus com uma invulgar bonomia, deixou-se por fim cair…


Os diversos baques secos fizeram Rosa vir a correr ao cimo da escada. No fundo a mãe jazia imóvel, surgindo na terra um fio de sangue que um cão faminto veio gulosamente lamber.


 


Texto escrito no âmbito do desafio da "caixa de lápis de cor" da  Fátima,. Entram também a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Peixe Frito, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,  a Gorduchita, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, a Cristina Aveiro, a bii yue, o João-Afonso Machado e a Marquesa de Marvila .

Comentários

CÉLIA disse…
Infelizmente isto é uma realidade em muitas famílias. Um texto bem escrito com vidas duras.
Uma boa quarta-feira.
Cristina Aveiro disse…
Gostei muito do quadro triste mas tão realista de muitas famílias de miséria que foram e ainda são parte do nosso (e de outros) país.
O álcool, a droga barata, tolerada socialmente e tão profundamente enraizada na cultura rural ( também na urbana) de um país pobre, de gentes propensas à nostalgia e depressão e onde quase todos tinham o seu "quinhão" de produção de vinho.
Ana a Abelha disse…
muito bom, muito muito bom. tudo na dose certa no momento certo. e shhsh não venhas com as tuas tretas, o texto está magnífico. beijos grandes e feliz dia
José da Xã disse…
Obrigado Célia.
Tudo a correr pelo melhor.
A gente lê-se por aí.
José da Xã disse…
Um quadro triste que esta pandemia veio estragar ainda mais.
Resto de um optimo dia.
José da Xã disse…
Obrigado Ana.
Descansa que não voltarei à parvoícexde antigamente .
Gostei muito de escrever este mini conto.
Miss Lollipop disse…
Meu querido José. Um texto muitíssimo bem escrito, com uma descrição dura de uma realidade infelizmente tão comum.
Tem um excelente dia.
Luísa de Sousa disse…
Oh José .... infelizmente é o que ainda acontece m muitas famílias!
Uma história deveras triste, mas muito bem escrita

Beijinhos
Dia Feliz
Maria Araújo disse…
Vidas duras e tristes que ainda hoje se vivem.
O álcool é fatal nas relações, na saúde física e mental.
Triste.
José da Xã disse…
Estas vidas passam-nos quase ao lado.
Mas conheço tantos casos. Então nas aldeias.
Obrigado pelas tuas palavas elogiosas.
Resto de um óptimo dia.
José da Xã disse…
Obrigado Luísa.
Infelizmente verdade.
José da Xã disse…
Maria,
Tudo o que sejam dependências derretem vidas.

Magnífico texto, mas fiquei sem palavras pra comentar!...
Adorei, mesmo!
imsilva disse…
Puro e duro, como é hábito dizer.
Muito bom, e infelizmente retrato de algumas realidades.
José da Xã disse…
Porquê as traças comeram-te as palavras, ahahahahahah.
Obrugado.
José da Xã disse…
Todos conhecemos exemplos destes. Infelizmente.
Raisparta as traças, catano!!!!
Já há uns dias que não vejo nenhuma... será que foi desta?!
José da Xã disse…
Atão foram alimentar traçadinhos de tinto.
Fátima Bento disse…


Chega para perceberes o que gostei? Não?

[_ _//] //]
Triste por ser um retrato verídico nas aldeias e cidades.
Fiquei perturbada com o final, esplêndida escrita meu amigo! E isto não é arte!? Nem um quadro transpareceria tanta tristeza.
Boa noite
Bjs
José da Xã disse…
Bom dia,

É estranho como um pequeno conto triste, é certo, me trouxe tanta alegria: ao escrevê-lo e ao receber os comentários tão elogiosos.
Obrigado.
É o resultado da sua escrita com sentimento.
Um bom dia
Bjs
Peixe Frito disse…
Nome lindo e frágil mas com essência de vida dura.
História que relata muitas realidades, embora mais de outros tempos, mas que hoje em meios mais pequenos, ainda existem.
Beijoquinhas grandes.
Ana D. disse…
Como sempre, muito bem escrito!
José da Xã disse…
De outros tempos?
Creio infelizmente que não.
Maria disse…
Os vicios são terríveis, as mentalidades fracas e depois dá nisto. Infelizmente existem mais realidades destas do nós imaginámos. Realidades escondidas! Bom fim de semana José!
José da Xã disse…
Olá Maria,

conheço algumas misérias associadas ao álcool, ao jogo ou à droga.
Como costumo dizer a realidade da vida é sempre muito pior que as estórias que invento!
Bom fim de semana.

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