O Pastor

Tinha abandonado a aldeia havia alguns dias. Acompanhavam-no um rebanho de ovelhas e cabras. Estas últimas não obstante a natural irreverência mantinham-se no caminho com o restante gado.


No bornal carregava um naco valente de broa, um chouriço que surripiara da conserva de azeite da mãe e mais uma mão cheia de queijos, também eles guardados em azeite.


Era usual o jovem partir dias seguidos com o gado, nunca se sabia bem para onde. Dias ou semanas depois chegava com o gado gordo e ele magro, porém feliz.


Para além das ovelhas, o pastor fazia-se sempre acompanhar por um rafeiro todo branco excluindo as patas pretas. Daí o nome de “Sapatos” que desde muito cedo o canito percebera que era consigo que falavam. Animal esperto sabia tocar as ovelhas para dentro do caminho como nenhum outro. E nem era necessário o dono assobiar…


Quando regressava contava estórias fantásticas que ninguém acreditava, mas adoravam escutar. Geralmente faziam-no na praça do pelourinho onde, em noites quentes os aldeões se juntavam numa anormal algazarra, sempre acompanhados dos traçadinhos. A maioria deles contavam mentiras de caças e amanhos impossíveis. Discutiam teorias e filosofias. Riam em gargalhadas sonoras.


Entretanto quando o pastor chegava ao largo todos se calavam. Sabiam que viriam novos relatos, novas aventuras.


- Senta-te aqui, home’! Há quantos dias saíste?


Com um sorriso e uma calma que a todos enervava o jovem pastor ia devolvendo respostas, umas atrás das outras.


Daquela vez partira de madrugada aproveitando a maresia. Alguma erva ainda molhada encharcou as botas, mas ele não se preocupou. Continuou a sua marcha lenta. Parou ao fim de duas horas para escolher um dos dois caminhos que lhe apareciam. Conhecia-os ambos, todavia um deles passava por dentro da Quinta das Figueiras. Em tempos o dono autorizou-o a passar, somente, nunca a pernoitar. Na dúvida olhou o cão que se coçava essencialmente pelas serugas que se haviam enrolado no pêlo e perguntou-lhe:


- Para onde companheiro?


O astuto bicho arrancou dali e dirigiu-se pelo caminho da quinta. O pastor seguiu-o confiando no instinto animal.


Algumas léguas depois, penetrou nos terrenos alheios da tal herdade e por isso apressou o passo obrigando o gado a segui-lo. Estava já a sair quando de súbito surgiu vindo de algures um alazão carregando uma amazona de longos cabelos ao vento. Aproximou-se do rapaz, desmontou e cumprimentou:


- Boa tarde…


Sem receios, retribuiu o cumprimento:


- Boa tarde menina.


- Quem és tu?


- Oh… um pobre pastor com autorização do dono destas terras para aqui passar sem parar.


- E porque não páras?


- O patrão não quer… está no seu direito… Já faz um grande favor deixar-me aqui passar…


A jovem rodeou-o, mirou-o de cima a baixo e insistiu:


- Porque não páras aqui para descansar?


Demasiadas perguntas e ele sem vontade de responder. Mas…


- Porque quero chegar à charneca antes de anoitecer. Fique bem!


Assumiu o caminho.


- Sabias que o meu pai morreu?


- Não menina… O seu pai era o dono disto? – e apontou com o cajado a imensidão de terra que o horizonte deixava ver.


- Sim…


- Agora é a menina a dona…


- Certo! E por isso estás autorizado a ficar aqui…


- Não menina! Agradeço, mas tenho de ir!


Mas a jovem não o largou e remontando no cavalo caminhou devagar a seu lado. A determinada altura:


- Como se chama o teu cão?


- Sapatos!


Ela deu uma imensa gargalhada. Depois mirou melhor o canito e percebeu o nome. Voltou a rir com vontade.


E o som da sua gargalhada ecoou pelo vale!


(Continua...)

Comentários

  1. Tão lindo quanto encanto, simplicidade, nesta narrativa! Estou a adorar. Obrigada por esta partilha, bom fim de semana e muita inspiração

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  2. Obrigado.
    Esta é a minha pobre escrita.
    Espero que continue a gostar.

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