O Pastor #3

(... Continuação daqui)


O regresso do pastor à aldeia foi saudado com enorme alegria pela mãe e pelos irmãos mais novos,  que viam no guardador um viajante do mundo, mal imaginando que o jovem apenas se afastava da aldeia algumas léguas.


Mas coração de mãe é único e depressa percebeu que o seu infante mais velho viera diferente. Ele que sempre conseguia ver alegria em tudo o que fazia, regressara soturno, tristonho, como se aquela não fosse a sua casa.


Após a ceia deitou-se sem fazer a sua costumada visita ao largo onde alguns o aguardavam e às suas novas estórias. No quarto pequeno já dormiam os irmãos, mas o jovem ficou desperto noite fora.


Na madrugada seguinte levantou-se muito cedo como era seu hábito, roubou um bolo seco da arca, chamou o seu amigo Sapatos, que dormira na ombreira da porta e foi até ao curral buscar o gado e partindo de seguida para as terras de casa.


Atravessou a ribeira que já levava algum caudal após uns dias de água forte e procurou um lameiro perto. Aí chegado largou o gado e foi sentar-se numa pedra gasta que ficava virada para o ribeiro. A seu lado deitou-se Sapatos, o inseparável cão branco de patas pretas. Depois foi descaindo pela pedra, descalçou-se e enfiou os pés sujos na água límpida e fria.


Por ali ficou longo tempo, com o pensamento longe, muito longe dali. A tempos olhava o gado sempre irrequieto e deva instruções ao canito que cumpria cm rigor e saber.


- Não as deixes ir para o rio… vai… vai… tira-as daí!


Voltou então aos pensamentos até que:


- Bom dia, alegria!


O jovem ergueu o olhar para a maviosa voz feminina e deparou com a menina dos outros dias. Admirado, confuso, estranhou a sua presença ali, respirou fundo e acabou por responder:


- Bom dia… menina!


A cachopa, desempoeirada, levantou um pouco e vestido e atravessou a vau o regato, molhando também ela os pés e a franja da saia. Do outro lado o pastor tremia de… nem sabia bem… se de medo, vergonha… não sabia. A jovem ajeitou-se então e sentando ao lado do rapaz, introduzindo os pés na água, disse:


- Pareces triste por me veres…


Após um mui breve silêncio masculino:


- Nem triste nem contente…


Depois:


- Como me descobriste aqui?


- Falei com a tua mãe… Calculou que viesses para aqui com o gado…


As faces do pastor ficaram rubras, mas manteve o silêncio e a compostura. Ela continuou:


- Gostei muito da tua mãe e dos teus irmãos… Não conheci foi o teu pai!


Não acusando a ousadia dela, o jovem guardador acabou por perguntar:


- Não estás muito longe de casa?


- Estou, mas o Sebas leva-me para casa depressa.


Encolheu os ombros pois não sabia quem seria o Sebas… Provavelmente algum criado, pensou.


Sapatos ladrou repentinamente. Duas cabras haviam saltado o muro e pastavam no terreno vizinho. O pastor deu um salto e mesmo descalço correu para as cabras conseguindo ao fim de um pedaço colocá-las novamente no seu terreno. Voltou à ribeira e aí lavou os pés negros de terra. Respirou fundo.


Perguntou ela, afoita:


- Não tens nenhuma namorada?


Respondeu ele misterioso:


- Tenho, mas não vive cá…


Pela primeira vez o jovem pastor viu tristeza no olhar dela!


(Continua...)

Comentários

  1. bom dia não te imaginava casamenteiro estou a gostar da novela. as tuas palavras tornam os lugares reais e a leitura flui com mais interesse. beijinhos, amigo

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  2. Obrigado Ana. Isto é somente uma historieta de cordel...
    Para me entreter e obrigar a escrever!

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