Desafio de escrita dos pássaros # 2.16
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Nota introdutória: Agradeço à Olga de blogue A cor da escrita o belo desenho que ilustra este meu último desafio. Um pedido meu que esta simpática bloguer aceitou. Um desenho diria que... perfeito!
Mote: vou ali e já venho
Hoje dia 22 de Maio de 2032 faleceu Elizário Mota, aos 80 anos de idade, nascido na bela ilha das Flores, numa Fajã inexistente e tendo sido, entre muitas coisas, avô de duas meninas sem nunca, todavia, ter sido pai.
A sua atribulada vida deu um salto qualitativo quando Gusmão e Maria Heliodora numa noite de voluntariado aos sem-abrigo deram a mão ao florentino. Uma sorte para eles dizia o casal, uma bênção de Deus afirmou sempre o ilhéu.
Elizário apagou-se neste dia triste como uma vela sem pavio, sentado no quintal, no seu banco preferido, sob uma frondosa laranjeira, enquanto as suas meninas Maria da Luz e Maria Flor brincavam alegremente.
Uma vida que começara dura numa Fajã longínqua e miserável. Depois… o Serviço Militar Obrigatório em África e um regresso sem grandes euforias. Valeu-lhe durante alguns anos um bom patrão de origem saloia que, curiosamente, haveria de morrer da mesma doença que um dia levaria Elizário.
Forçado nesse tempo a regressar à capital, foi com imensa dificuldade que encontrou alguns parcos trabalhos. Todavia eram quase todos de pouca duração.
Caiu por isso na rua. Vãos de escada e prédios devolutos conhecia-os a todos. Uma semana aqui, outra acolá e sempre, sempre a fugir da polícia.
Depois indicaram-lhe que em algumas salas de espera dos hospitais havia comida gratuita. Lançou mão da esmola e durante anos viveu dela.
Por fim... o tal casal!
Que o levou para casa dando-lhe uma vida digna. Os livros da biblioteca da casa leu-os quase todos e isso notava-se na forma como começava a ter ideias e a expor assuntos.
- Homem muito esperto e inteligente – assumia Gusmão.
Depois o enfarte. Conseguiu, no entanto, sobreviver ainda a tempo de ser referência para as duas meninas que acabariam por nascer e que o tratariam por avô.
Quando as Marias se aproximaram do idoso perceberam que ele parecia dormir, serenamente. Chegaram-se muito devagar de forma a não o acordar e repararam num papel rabiscado que tinha na mão. Retiraram com perícia. Maria da Luz leu em voz alta para a irmã:
- Desculpem queridas, mas a minha vela está a apagar-se. Não se preocupem comigo, estudem e portem-se bem, porque eu vou ali e já (não) venho.
- Mamã, mamã – chamou Flor – o avô escreveu isto.
Heliodora leu o recado, olhou o idoso com ternura e deixou que duas grossas lágrimas rolassem pela face.
As lágrimas caíram pela face da mãe das meninas, e pela minha também. José, parece que morreu alguém próximo. A vontade de chorar chegou assim que vi a ilustração. Magnífico!
ResponderEliminarOhhhh Isabel desculpa...
ResponderEliminarMas não foi essa a minha ideia...
Assim as pessoas percebiam que o homem havia partido feliz e em paz.
Foi esse o meu único desejo.
Poderemos viver uma vida de forma acelerada e frenética, mas se não partirmos em paz acho que a vida nunca terá feito sentido.
Digo eu... que sou um parvo.
Muito obrigado pelas tuas sempre simpáticas palavras e pelo estímulo.
Acredita que muitas vezes escrevi estes textos a pensar naquilo que gostarias que acontecesse ao ilhéu. A sério.
Finalmente o desenho ficou fantástico.
Foi um mimo que pretendi oferecer aos leitores.Que a Olga intrepretou com mestria.
A imagem está perfeita.
ResponderEliminarA história acabou com muita serenidade, como ele merecia.
Ora nem mais Maria.
ResponderEliminarFoi isso que pretendi fazer.
Obrigado pelo teu apoio. Foste sempre incrível, tal como a Isabel, a Zé, a Luísa, a Ana e tanta gente.
Obrigado por tudo e acima de tudo pela amizade. Sinto que esta é a hora de fechar as portas deste espaço.
A gente lê-se por aí... noutros locais.
Obrigado.
ResponderEliminarVou colocar um placard de fecho mas continuarei noutro blogue.
E sim... creio que foi uma forma de encerrar não com chave de ouro pois nunca fui brilhante, mas de forma simpatica.
Obrigado pela presença sempre tao simpatica.
Obrigada José pelo desafio que me lançou em "dar vida" ao Elizário. Gostei bastante desta tocante história.
ResponderEliminarTudo de bom
Bjs
Este meu texto foi incrementado de qualidade como seu desenho.
ResponderEliminarDisso não tenho qualquer dúvida.