Desafio de escrita dos pássaros #2.5

Mote: acordas e tudo o que mais desejavas realizou-se, conta-nos o teu dia


Havia três dias que a chuva não dava descanso. Uma água pesada que encharcava terrenos e homens. A única coisa boa daquela intempérie era que dificilmente saiam do quartel para novas operações de guerrilha. Os terrenos completamente alagados não permitiam que as viaturas e homens circulassem.


Deitado na tarimba por debaixo do camarada Teixoso, um beirão atarracado, valente e tal como ele sem quaisquer receios, Elizário fechava os olhos e de mãos atrás da nuca a fazer de almofada recordava da sua ilha a Fajã, o mar azul como não haveria outro, o canito magro e esfomeado, aqueles cordeiros que largara a pastar na encosta.


Nessa tarde porém:


- Ó Flores… o que é que neste momento te fazia feliz? Conta lá! – perguntou o vizinho de cima enquanto revia pela enésima vez uma revista de pouco pudor.


Elizário estremeceu com o vozeirão de Teixoso e devolveu:


- O que é que perguntaste?


- O que te faria feliz… agora?


- Feliz? O que é isso? – evidenciando que a sua pobreza ia para além da sua própria vida.


- Algo que gostasses que te acontecesse ou de ter?


O açoriano ergueu-se da cama lentamente, sentou-se à beira e ficou a matutar… Nada disse. Voltou a deitar-se, pois não sabia o que responder.


Mas a questão ficou a bater-lhe no coração e na cabeça, qual martelo. Finalmente devolveu:


- Sabes Teixoso… queria que esta porra acabasse… andamos a matar para quê? Já tantos camaradas nossos que morreram…


Após um mui breve silêncio, continuou:


- Só isso é que eu queria… Que isto tudo acabasse!


Teixoso fechou a revista, ficando a matutar.


De madrugada o açoriano acordou com um inusitado alvoroço na rua. Ergueu-se lesto e enquanto se calçava apressadamente Teixoso entrou na camarata esbaforido.


- Flores… aconteceu… aconteceu…


- Eh pá aconteceu o quê?


- Acabou a guerra!


- Não brinques com isso.


- Não estou a brincar…


O coração de Elizário começou a bater mais depressa. Por fim perguntou:


- Como é que sabes?


- O nosso furriel Cardoso recebeu uma mensagem!


- Donde…


- Sei lá… nem me interessa… O que ele disse é que a guerra tinha acabado.


- Assim sem mais nem menos?


- Eh pá já te disse que não sei mais nada… Vamos embora daqui… Finalmente!


- Não acredito… A nossa comissão só acaba no fim do ano que vem e ainda só estamos em Abril.

Comentários

  1. Creio que esse foi o sonho de muitos, excelente escrita, como sempre.

    ResponderEliminar
  2. Obrigado Isabel!
    Achas que se percebe que estou a falar de 1974?
    Bom fim de semana.

    ResponderEliminar
  3. Felizmente os maiores desejos de alguns realizam-se! Excelente texto!
    Bom fim de semana! :)

    ResponderEliminar
  4. bom dia, Zé da Xã
    lindo episódio, fiquei com os olhos marejados de lágrimas. obrigada
    beijinhos e feliz Sábado

    ResponderEliminar
  5. Bom dia,

    Não é preciso chorar...
    O Elizário tinha um desejo. Concretizou-se!
    Óptimo fim de semana. Mesmo com chuva...

    ResponderEliminar
  6. esta noite houve um temporal, o vento uivava pela casa a chuva era ouvia-se a bater nas persianas mas neste momento.. está sol chorei de comoção lava a alma

    ResponderEliminar
  7. Adorei, uma abordagem completamente diferente 👏🏻

    ResponderEliminar
  8. A vida é diferente para cada um de nós.
    Percebeste a ideia da data?
    Bom Domingo.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Ao fim de mim

O Bravão e o bravo!

Despedida!