Sorte de principiante!

Naquele canto escuro da taberna, Armandino e Izidoro falavam em surdina. Combinavam “umas coisas”, disseram eles ao Adérito quando este tentou, em vão, intrometer-se.


- A noite está fechada com nuvens, não há Lua… calha mesmo bem… - afirmava um.


- Então e o Lambranca? – duvidava o outro.


- Não te rales que hoje é sábado o dia da tosga da semana. Agora só amanhã de manhã quando tiver curado a "buba"!


- Mas mesmo assim tenho medo!


- Não tenhas, Izidoro… Está tudo controlado. Amanhã tens laranjas na mesa e das boas!


- E se alguém desconfia? – insistia – Não quero chatices com o senhor José Joaquim que foi padrinho do meu falecido pai…


- Ninguém vai saber! Daqui a nada cada um sai e encontramo-nos ao pé da oliveira velha. Quando chegares tosse, se me ouvires tossir entramos juntos pelo portal. Temos é de desviar aquela cancela de madeira. Combinado?


Izidoro puxou uma fumaça do cigarro, beberricou o resto do vinho quase azedo e confirmou com a cabeça.


- 'Bora lá!


Era a primeira aventura para roubar as laranjas do velho Joaquim. Todavia o maior e mais temido problema era mesmo o seu capataz Lambranca. Um homem de espírito irascível, velhaco e pouco condescendente com quem roubava o patrão.


Conta-se, sem qualquer confirmação, que o Jesuíno desaparecera às mãos do capataz, só porque armara umas laçadas para tentar apanhar um javali na fazenda do patrão do capataz. Mas ninguém tinha certeza de nada. A verdade é que ainda hoje ninguém sabe onde andará ou se andará, o outro!


Perto da hora combinada Izidoro paga a sua despesa e sai normalmente. Encaminha-se para casa em busca de um saco. Por sua vez Armandino fica mais uns minutos, não fosse a malta desconfiar da saída simultânea.


Depois também ele fez menção de abandonar o tasco despedindo-se de todos.


- 'Té amanhã pessoal!


- Já vais? Olha que ainda é cedo…


- Tens razão Adelino, mas sinto que estou a chocar alguma. Vou até à deita a ver se isto passa.


- Ó Armandino, arrefinfa-lhe um bagacito com mel antes de te deitares - Sugeriu um.


- Um bagacito sim, mas quente… - acrescentou o outro.


Num ápice e sem se perceber como instalou-se a confusão na taberna. Momento ideal para Armandino sair dali.


Entrou na noite fria, já que soprava uma brisa cortante e apertou o casaco mais ao corpo. Virou no sentido de casa, mas assim que saiu da vista da taberna virou por um carreiro estreito. Valia-lhe conhecer bem o caminho já que a lua continuava sem aparecer em toda a sua plenitude. Caminhou uns bons minutos até chegar perto do lugar combinado com Izidoro. Assim que chegou aguardou que o parceiro tossisse. Escutou finalmente o sinal, respondeu com a sua tosse e rapidamente encontraram-se perto do portal fechado.


Evitando fazer barulho retiraram as tábuas e finalmente entraram na fazenda. Devagar aproximaram-se da laranjeira carregada de frutos grandes e maduros.


O chão apresentava-se repleto de fruta que caira e que ninguém apanhara. Um desperdício comentavam muitos. Depois calmamente começaram a apanhá-las. Quase em surdina Armandino sugeriu:


- Vou tentar subir e filar as lá de cima. São maiores e mais saborosas. Tu fica atento não vá alguém aparecer.


- Certo…


Estavam naquele despautério há algum tempo quando a Izidoro pareceu escutar passos. Armandino também ouviu. Este virou-se para o parceiro tentando fazer-lhe sinal de silêncio não obstante a escuridão da noite.


Os passos surgiam mais próximos. No instante seguinte pararam, para logo recomeçarem. Entretanto Izidoro aproveitou uma aragem mais forte e fugiu da laranjeira, escondendo-se por detrás de um arbusto levando consigo o saco quase repleto. Por seu lado Armandino ficara quieto em cima da árvore até perceber o que iria acontecer. Ambos temiam o Lambranca e daí a quietude.


A noite mantinha-se fechada num bréu incomum prevendo uma madrugada de chuva. Enquanto Izidoro se aninhava cada vez mais num mutismo sepulcral, o outro vulto entrara também no cerrado e caminhava lentamente e quase em silêncio. Sem saber passou à frente de Izidoro no preciso momento que duas nuvens se desentenderam e deixaram passar um pouco da luz lunar. Foi o suficiente para o furtivo perceber que a visita era nem mais nem menos que o João Rebola outro conhecido amigo do alheio.


Não sendo o temível Lambranca, ainda assim Izidoro manteve-se imóvel no escuro.


João longe de imaginar que não era o único à caça de laranjas aproximou-se pé ante pé da frondosa árvore. Chegou ao tronco por onde Armandino subira, estendeu a mão em busca de um ramo e… encontrou uma bota velha e rôta.


Um momento surreal: João engole um berro e sai do local a correr temendo que o outro fosse o capataz. Armandino por sua vez e sem pensar atira-se da árvore abaixo e foge em direcção a casa, deixando nos picos da laranjeira parte da roupa e da sua própria carne.


Entretanto e passado os primeiros momentos Izidoro sai finalmente do seu esconderijo, pega no saco das laranjas que sempre estivera a seu lado, atravessa o portal recompondo as tábuas e segue calmamente para casa.


Promete a si mesmo não voltar à aventura das laranjas... nem de algo que não seja seu! Não ganhara para o susto...


Muito tempo mais tarde Armandino ao contar a estória na taberna diria do companheiro:


-  Escapou sem mazelas porque teve a sorte de principiante. É sempre assim!

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